Em defesa do SUS




Premiados: Rodinha de Conversa – Um Olhar para a Saúde Mental Infantil na Atenção Básica do Guarujá (SP)

Premiados: Rodinha de Conversa – Um Olhar para a Saúde Mental Infantil na Atenção Básica do Guarujá (SP)

O site do COSEMS/SP publicará, nas próximas semanas, as oito experiências municipais premiadas na 15º Mostra Nacional ‘Brasil Aqui Tem SUS‘, celebrada durante o 34º Congresso do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), que aconteceu em Belém (PA), entre os dias 25 e 27 de julho de 2018. O estado de São Paulo contou com 40 trabalhos no evento, todos premiados no 8º Prêmio David Capistrano, realizado no decorrer do 32º Congresso do COSEMS/SP, em Rio Claro, em abril deste ano.

A troca de experiências exitosas é fundamental para a consolidação do trabalho das equipes de Saúde, assim como para o fortalecimento, construção e qualificação das ações realizadas no SUS. O COSEMS/SP parabeniza todos os trabalhos, vencedores ou não, que fazem o SUS crescer se fortificar!! Confira abaixo a experiência de Guarujá (SP):

Rodinha de Conversa – Um Olhar para a Saúde Mental Infantil na Atenção Básica

A partir da observação da alta demanda de questões relacionadas a saúde mental/sofrimento psíquico de crianças e adolescentes no município de Guarujá, tanto nas Unidades de Saúde da Família quanto no Centro de Atenção Psicossocial infantil (CAPSi), verificou-se uma necessidade de proporcionar um espaço de acolhimento para questões referentes à temática da saúde mental infantil nos espaços da Atenção Básica.

Levando em consideração que o Brasil é o segundo país que mais consome Ritalina (DECOTELLI, BOHRE, e BICALHO; 2013) – droga indiciada pra crianças com diagnóstico de algum distúrbio no aprendizado ou agitação excessiva, e que o lugar de cuidador também é um lugar que pode causar um sofrimento psíquico, esta estratégia foi pensado para combater a ideia de patologização de comportamentos tipicamente infantis.

Para que este trabalho pudesse ser desenvolvido, foi necessário levar em consideração que a atuação com crianças difere do trabalho com adultos, tanto pela temática/problemática, quanto pela abordagem utilizada (trabalho lúdico e necessidade de acompanhamento com as famílias), desta forma, demandando um olhar especial para as questões referentes ao momento do desenvolvimento que a criança se encontra.

A experiência municipal tem como objetivo identificar e acolher as demandas de saúde mental infantil que muitas vezes ficam polarizadas entre olhares das equipes de Educação e CAPS infantil, propiciando uma nova compreensão possível e que preconize a integralidade do sujeito que é referenciado na Atenção Básica.

Para que esse objetivo seja alcançado, há que se trabalhar interdisciplinarmente (fazem parte dos grupos: enfermeiros, médicos, dentistas, agentes comunitários de saúde, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas) e intersetorialmente (em parceria com escola, serviços especializados de saúde, assistência social, bem como com a família e outros meios que esta criança possa estar inserida) na compreensão do sofrimento psíquico infantil.

As rodinhas
As rodinhas funcionam em atendimentos grupais quinzenalmente aos pais/responsáveis e às crianças, de maneira intercalada com duração de uma hora, aproximadamente, para cada grupo.

Entende-se a importância de separar responsáveis e crianças devido ao entendimento de que as crianças necessitam de um espaço acolhedor e lúdico para que possam se expressar conforme os aspectos referentes ao seu desenvolvimento emocional e psíquico, através da produção de materiais gráficos (desenhos) e de brincadeiras.

Do mesmo modo, os pais e responsáveis necessitam de um espaço de acolhimento para suas questões enquanto pais ou responsáveis daquela criança (não apenas adultos), podendo ser ouvidos, acolhidos e orientados no desenvolvimento e exercício de sua parentalidade, acolhimento este que percebemos não ser ofertado/percebido nos demais espaços que eles frequentam.

Assim, entendemos que esta divisão entre crianças e responsáveis seja essencial para que o grupo não se torne um espaço de pais e responsáveis queixando-se sobre as crianças, em que elas sintam-se expostas diante de outros adultos e pais.

A rodinha é acompanhada tanto por membros da USAFA quanto do NASF, visto que esta última funciona como equipe de apoio técnico-pedagógico para o desenvolvimento de toda e qualquer atividade e é co-responsável pelos pacientes.

Aposta-se na metodologia de grupo por entender que estas questões – a crescente onda de patologização do comportamento infantil, bem como a medicalização dos mesmos – não dizem respeito apenas a questões individuais ou familiares, mas fazem parte de um modelo de sociedade que ainda pensa em questões de saúde de forma médico-centrada. Deste modo, utilizar-se da metodologia de espaços grupais nos faz olhar para estas problemáticas de forma coletiva e horizontal, propiciando a possibilidade de pensar em novas formas de intervenção e de invenção do ser-criança.

Resultados
O desenvolvimento do presente trabalho nas unidade de saúde da família inseridas no município de Guarujá já trouxe resultados significativos no cuidados com crianças e adolescentes, tais como:

– A despatologização do comportamento infantil;

– Acolhimento de questões relacionadas ao contexto familiar/escolar;

– Horizontalidade no processo de cuidado das crianças – tanto entre a equipe de saúde quanto entre equipe e usuários do serviço;

– Diminuição no “processo de incentivo” a medicalização de crianças e adolescentes;

– Compreensão do contexto social/familiar que estas crianças estão inseridas;

– Questionamento de concepções cristalizadas quanto aos comportamentos infantis, problematizando queixas de “crianças problemas” em possibilidades e formas de expressão de infância: comportamentos que antes eram vistas como “problemas” (ou como patologias) – agitados demais, desafiadores, desatentos, dentre outros – puderam ser enxergados como comportamentos típicos do universo infantil ou que respondem a um contexto social em que a criança em questão está inserida. Deste modo, este comportamento para de ser visto como um problema da criança que deve ser curado, e passa a ser enxergado como algo a se cuidar, discutir e refletir.

– Criação de novos vínculos e repertórios lúdicos;

– Estabelecimento de um fluxo no encaminhamento para a saúde mental ou outros serviços especializados.

Conclusões
Ainda que alguns obstáculos existiram (e ainda existem) durante o percurso da implementação da rodinha de conversa nas unidades – resistência/despreparo das equipes em acolher as questões de saúde mental infantil, pouca articulação da rede, dificuldade na compreensão dos contextos social/familiar que estas crianças estão inseridas – grande parte das Unidades de Saúde da Família do município do Guarujá hoje contam com este espaço de acolhimento.

Tal espaço hoje auxilia na organização do fluxo da saúde mental infantil, diminui a demanda dos CAPS infantis e auxiliam no acolhimento as angústias dos pais e responsáveis. O trabalho segue em construção, para que possamos garantir uma rede de saúde acolhedora e que enxergue o usuário que a acessa de forma integral e humanizada, como o SUS preconiza.

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