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Globalmente, ocorrem cerca de 121 milhões de gestações não planejadas por ano, com 61% resultando em aborto induzido. No Brasil, mais de 50% das gestações são indesejadas, gerando um ônus de R$ 4,1 bilhões ao SUS, com custo médio de R$ 2.293,00 por gravidez. Métodos contraceptivos estão disponíveis no SUS, mas a colocação do DIU enfrenta dificuldades de agendamento, enquanto laqueadura e vasectomia têm longas filas. Apesar de ser um método eficaz e de longa duração (LARC), o DIU é usado por apenas 2% das brasileiras, devido a mitos, contraindicações incorretas e falta de profissionais capacitados. O planejamento reprodutivo é essencial para reduzir gestações não planejadas, mortalidade materno-infantil e ISTs. Em Lins, consultas ginecológicas e inserção de DIU eram realizadas por médicos especialistas, com oferta limitada a uma vaga por mês. Este relato destaca as estratégias adotadas para a ampliação do acesso a métodos contraceptivos reversíveis no município.
Descrever a experiência do município de Lins para implementar da consulta de enfermagem ginecológica com inserção de DIU, acompanhada em reorganizar o fluxo assistencial voltado ao planejamento sexual e reprodutivo, desburocratizar os processos e ampliar de acesso seguro e oportuno ao planejamento sexual e reprodutivo.
O diagnóstico situacional revelou a centralização das consultas médicas para a indicação de contraceptivos hormonais em especialistas e a oferta limitada de serviços para inserção e retirada de DIU, resultando em demanda reprimida. Em contraste, os enfermeiros, presentes em todas as unidades de saúde, não estavam exercendo plenamente suas atribuições legais, apesar do respaldo das políticas públicas. Com isso, foi elaborado um plano de ação que visa: implementar a consulta de enfermagem ginecológica com foco na inserção de DIU, capacitar os profissionais, adequar protocolos e reorganizar o fluxo de atendimento. A iniciativa foi fundamentada na Resolução COFEN nº 690/2022, que regulamentam a prática e permitem a prescrição de métodos contraceptivos pelos enfermeiros. O projeto recebeu aprovação nos fóruns regionais e contou com apoio técnico do COREN-SP e da Articulação da AB da CIR de Lins, consolidando sua base legal e política. A capacitação das enfermeiras da AB incluiu treinamentos sobre a realização da consulta ginecológica e a inserção de DIU, alinhados aos protocolos do Ministério da Saúde e COFEN. A reestruturação do fluxo de atendimento descentralizou a oferta de contraceptivos, permitindo que mais unidades de saúde participassem e posicionando o enfermeiro como protagonista na consulta ginecológica. O objetivo é reduzir a demanda reprimida, aumentar a adesão ao método e melhorar os indicadores de saúde reprodutiva, garantindo maior acesso ao planejamento familiar.
Participaram da capacitação 33 enfermeiros, dois assistentes sociais, dois diretores técnicos, um psicólogo, um articulador da AB e um representante do COREN-SP. Entre 01/07/2024 e 07/10/2024, os enfermeiros prescreveram 58 contraceptivos hormonais e 56 tratamentos para corrimentos vaginais, conforme registros dos sistemas de informação. A inserção do DIU apresentou crescimento expressivo: enquanto no triênio 2021-2023 foram realizadas 37 inserções por médicos, somente entre agosto e dezembro de 2024, enfermeiros realizaram 59 inserções. Além disso, o município atualizou o protocolo de planejamento familiar e reorganizou o fluxo assistencial, fortalecendo as diretrizes de saúde sexual e reprodutiva. Apresentou o curso QUALIFICAÇÃO EM CONSULTA DEENFERMAGEM: FOCO NO PLANEJAMENTO SEXUAL E REPRODUTIVO como parte do Plano Estadual de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, aprovado pela Deliberação CIB nº 129/2024, com alocação de recursos. Essa iniciativa visa expandir a capacitação das equipes de saúde e qualificar ainda mais os enfermeiros. Os resultados preliminares foram apresentados ao Grupo Técnico da Atenção Básica (GTAB) da região de Lins. Com apoio do município, do COREN-SP e da Articulação da Atenção Básica, a iniciativa será replicada para os demais municípios da microrregião que aderirem. Essa colaboração busca ampliar a capacitação, fortalecer a atuação dos enfermeiros e qualificar o atendimento em saúde sexual e reprodutiva em toda a região.
A consulta de enfermagem ginecológica com inserção de DIU amplia o acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, promovendo maior autonomia para mulheres e enfermeiros. Além disto, a pratica desenvolvida em Lins foi selecionado para ser desenvolvido a nível de um doutorado profissional na UNESP, dada a relevância e replicabilidade para outras localidades contribuindo com a equidade no atendimento. A expansão do acesso aos LARCs pode reduzir gestações indesejadas e melhorar os indicadores de saúde reprodutiva, prevenindo complicações associadas a gestações não planejadas. No Brasil, a inserção do DIU é majoritariamente realizada por médicos, evidenciando a necessidade de fortalecer o papel dos enfermeiros na AB. O acesso ao DIU é mais comum entre mulheres de maior renda e com plano de saúde, ressaltando as desigualdades no acesso aos métodos contraceptivos. Não há diferença significativa entre enfermeiros e médicos na inserção do DIU. Com treinamento adequado, ambos os profissionais podem realizar o procedimento com segurança. É divulgado semanalmente nas mídias oficiais a oferta de DIU e disponibilizado um canal aberto para agendamentos. Houve um aumento significativo na procura, e atualmente não há demanda reprimida.
Dispositivo Intra Uterino, Enfermagem
ANA HILARA MANCUSO GOUVEA, FABIANA APARECIDA MONÇÃO FIDELIS, PATRICIA MARIA DA SILVA CRIVELARO, SILVIA CRISTINA DE OLIVEIRA VASCONCELOS CARDOSO