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O câncer de colo de útero (CCU) é uma grande questão de saúde que aumenta a mortalidade de mulheres em todo o planeta (MISRA; BISHT; GUPTA, 2022). A infecção pelo papilomavírus humano (HPV) é o fator de risco mais importante para essa condição, sendo que dentre as mulheres sexualmente ativas de 50% a 80% serão infectadas pelo vírus (SOHEILI, 2021). Dentre os aspectos decisivos para a redução da morbi-mortalidade do CCU estão o auto-cuidado das pacientes e a detecção precoce (STRELOW, 2023). A principal ferramenta para a detecção precoce de amplo acesso no Brasil é a coleta de citologia, disponível gratuitamente na Atenção Primária à Saúde em todo território nacional. Estudos mostram que países com cobertura superior a 50% apresentam taxas inferiores a três mortes por 100 mil mulheres/ano (BOARDMAN; et al., 2003). O Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomenda que o exame seja coletado por dois anos consecutivos e se normal espaçado para coletas trienais (INCA, 2016). Além da cobertura é necessário, para que haja um rastreamento efetivo do CCU, uma boa técnica de coleta e uma análise criteriosa do resultado atrelado aos indicadores de qualidade (SOUZA;ARAUJO;SOBRAL, 2020).
Identificar o perfil das coletas de citologia oncótica realizadas em um serviço de saúde nos últimos dois anos, bem como a qualidade da amostra.
Foi implementado uma planilha de registro conforme modelo disponibilizado pela Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP) em seu curso online de rastreamento de câncer de colo de útero para registro de todas as coletas de citologia oncótica da unidade na plataforma Google Drive. As coletas são realizadas por todos os profissionais de ensino superior, com destaque para o trabalho das enfermeiras. As mesmas são realizadas em consultas com ênfase em saúde da mulher, coletas oportunísticas e ações intensivas de coleta. Além do trabalho de conscientização realizado pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) com base na planilha dos indicadores de saúde das pacientes em atraso. Independente do retorno das pacientes para consultas, todos os resultados são checados mensalmente pela enfermeira e são dadas as tratativas necessárias. Além do apoio da Coordenadoria da Saúde da Mulher (CAISM) que informa os resultados com alterações relevantes. Esse levantamento pautou-se nos dados da planilha de coleta de citologias para analisar uma série histórica das coletas dos últimos dois anos.
No período analisado foram realizadas 599 coletas de citologia oncótica na unidade, registradas, sendo que dessas, 593 (99%) coletas foram realizadas por enfermeiros. A média de idade entre as usuárias que passaram pelo procedimento foi de 42 anos, mínimo de 15 anos e máximo de 68 anos, sendo 93,6% (568) dentro da faixa etária recomendada pelo INCA de 25 a 64 anos para rastreio. Entre a população de mulheres analisada, 8,68% (52) nunca haviam coletado citologia, 44,57% (267) haviam coletado há mais de 3 anos, 25,54% (153) haviam coletado há menos de 3 anos e 18,36% (110) haviam coletado há menos de 1 ano. Quando olhamos para os resultados relacionados à qualidade da amostra coletada, houve apenas uma (0,17%) lâmina que foi considerada insatisfatória, o que mostra-se abaixo de outros estudos e dentro do valor de referência nacional (SANTOS;COLONELLI, 2022). Oito (1,34%) amostras, todas coletadas pelo profissional enfermeiro, retornaram com resultados alterados que necessitaram de investigação complementar. Dessas últimas, duas (25%) tiveram os resultados sugerindo lesão intraepitelial de alto grau (HSIL) e posteriormente foram diagnosticados como carcinoma de colo de útero, uma (12,5%) apresentou células de origem indefinida, uma (12,5%) como lesão intraepitelial de baixo grau (LSIL) e quatro (50%) apresentaram células escamosas possivelmente não neoplásicas (ASC-US), representando 0,67% na relação ASC/exames satisfatórios, sendo que o valor recomendado é em torno de até 5%
Com esse levantamento, podemos concluir que a participação do profissional enfermeiro, não restrito ao procedimento de coleta, mas estendo-se a interpretação dos resultados, análise de qualidade e seguimento de pacientes com resultados anormais, desde o seu diagnóstico até a garantia de tratamento e seguimento em serviço especializado é chave essencial para a promoção da saúde e prevenção do CCU. Contudo, a atuação autônoma do profissional ainda esbarra na falta de protocolos municipais para tratamento de corrimentos vaginais comuns e encaminhamento para colposcopia nos casos em que há orientação do protocolo. Destaca-se ainda a necessidade de ampliar a coleta para as pacientes gestantes, visto que muitas estão em atraso e não se é aproveitado o momento de vínculo com a unidade de saúde para regularização da situação da citologia.
Papanicolau; Saúde da Família; Enfermeira
JÉSSICA MONIQUE BELLINI, JORDANA CARVALHAES DE MORAES, MARILIA DE LIMA CANDIDO