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Existir travestida é romper com o pacto social do patriarcado heteronormativo, exigindo coragem e estratégias de sobre(vivências) cotidianas das mulheres trans e travestis. Olhando essa realidade social e suscitando ampliar o acesso das mulheres trans e travestis em situação de rua, aos equipamentos de saúde pública enquanto cidadãos pertencentes aos diferentes serviços intersetoriais, usou-se com estratégia ações culturais de promoção à saúde em suas diferentes complexidades. Efetivando a Portaria nº122/2011 do Ministério da Saúde, para “realizar atividades educativas e culturais” com os grupos assistidos, incorporando essa atuação a atenção integral à saúde. No decorrer dos atendimentos nos diferentes territórios, a equipe do CR observou a necessidade de ampliar as ofertas de cuidados e propor estratégias para melhora da adesão e sentimento de pertença. Com a equipe operacionalizando atividades culturais com 8 usuárias autodeclaradas mulheres trans e/ou travestis, a partir da produção de um mini-documentário, sessão de fotos coletiva, apresentações performáticas e a recitação de poesias, em eventos da agenda oficial da saúde mental, exigindo criatividade da equipe para manter os atendimentos individuais, educação em saúde e a distribuição de insumos no território e operacionalizar as idéias das usuárias, que tiveram protagonismo nas construções, arquitetando suas apresentações nos eventos reverberando diretamente na produção de autoestima e adesão ao cuidado.
– Utilizar recursos de arte e cultura para a promoção do cuidado em saúde das mulheres trans e travestis em situação de rua em Santo André e ampliar o acesso aos equipamentos de saúde pública enquanto cidadãos pertencentes aos diferentes serviços intersetoriais; – Propor ações de resgate e valorização da autoestima, autocuidado e autoconceito das usuárias participantes para um cuidado psicossocial; – Registrar as narrativas das experiências de vida das entrevistadas; – Incluir a população acolhida pelo Consultório na Rua nos eventos oficiais do município de Santo André; – Abordar temáticas de diversidade de gênero e sexual e as vivências enquanto pessoas em situação de rua no município.
Na divulgação ambulatório trans do município inaugurado em 2022 e que é pouco conhecido entre as usuárias, que compõem um grupo heterogêneo, de caráter migratório, atravessado por diversos condicionantes sociais e imprevisibilidades, em função do estranhamento persistente de uma sociedade transfóbica, foram convidadas duas usuárias para se apresentarem no “Fashion Day”, evento anual da Luta Antimanicomial no município. Foram muitos encontros para definição dos temas, captação de recursos e a customização das roupas na oficina de moda do CAPS Vila Vitória. Impactados pelas narrativas potentes a equipe propõe e realiza a gravação de um mini documentário chamado “Transbrasil: a rua é Pajubá”, com 6 usuárias autodeclaradas trans e/ou travestis que narram as suas experiências e estratégias de (sobre)vivência na rua, destacando a heterogeneidade do grupo que apresenta experiências de vida distintas, atravessadas por diversos marcadores sociais. Dando continuidade outras apresentações aconteceram no III Sarau da Consciência Negra, em que o CR apresentou a história de Xica Manicongo, considerada a primeira travesti não-indígena no Brasil. Em consonância, as apresentações foram realizadas por mulheres trans negras em situação de rua, com performances musicais e leitura de poesia. As ações de embelezamento proporcionaram um forte impacto no estado de humor e afeto das meninas, ampliando a autoestima, autocuidado e autoconceito, favorecendo a adesão à promoção do cuidado.
Foi possível a correção e atualização do cadastro das usuárias, com a inclusão do nome social no Sistema. Rosa acessou o ambulatório trans e aprendeu redução de danos para benzodiazepínicos. Iniciou um trabalho e deixou o albergue noturno, alugando uma casa. Se autodeclara “top diva trans do Consultório na Rua”, evidenciando o impacto positivo e o pertencimento que o protagonismo teve em sua autoestima. Girassol se aproximou nas gravações, mas no Fashion Day, estava em acolhimento integral no CAPS AD, participando do desfile por este serviço, se emocionando na exibição do documentário. Quando a Infectologia solicitou a busca ativa dela, o vínculo construído viabilizou investigações clínicas, coleta de exames laboratoriais e de imagem e o tratamento de pneumonia, permitindo também a sensibilização para o tratamento de terapia TARV e saúde mental. Tulipa foi protagonista, sendo notório o impacto que a apresentação teve, ao relatar que “ali me senti muito bonita” e “realizei um sonho” (sic) ao apresentar uma música que trazia a esperança. Segue assistida, inclusive em fratura de membro superior, tendo acesso à avaliação clínica in loco, encaminhamento ortopédico e dispensa de medicação. Flor durante fotos relatou o abandono dos cuidados em saúde. Na produção do documentário, foi assistida em suas demandas clínicas, avaliada e conduzida para realizar Tomografia Computadorizada de crânio e outros segmentos na rede. Sempre compartilha suas vivências, mantendo o vínculo e a adesão.
Através das expressões artísticas, as protagonistas foram positivamente atravessadas pelas propostas, com o resgate da autoestima, que incidiu diretamente na adesão às propostas de cuidado à saúde, considerando que as produções culturais envolviam encontros, que produziam embelezamento, escuta qualificada e a reafirmação das histórias pessoais de cada uma e do sentimento de pertença dessa população aos diversos dispositivos de saúde. 2 meses após o primeiro evento cultural, uma das protagonistas faleceu, causando enorme comoção entre os usuários e trabalhadores da rede, ficando na memória a sua fala: “Eu sou travesti. Me sinto mulher, sou mulher!”, apontando a importância da gravação enquanto registro de existência. A baixa adesão da população trans nas redes de saúde evidencia as influências negativas da transfobia em uma sociedade pautada em um sistema patriarcal e heteronormativo, produzindo iniqüidade e o extremo sentimento de não pertencimento ao SUS entre essa população. A partir da efetividade das ações do CR, foi possível experienciar estratégias de saúde que colocaram em prática os princípios e as diretrizes do SUS e da Política Nacional de Humanização (PNH) no cuidado da população trans e travesti em situação de rua.
consultório na rua, mulheres trans, travestis.
NILZETE APARECIDA PEREIRA BORGES, ANTONIO RINALDO PAGNI, CLAUDEMILSON JOSÉ DO NASCIMENTO, DANIEL PEREIRA E SILVA, ERIKA SANCHEZ, JOÃO VITOR DUDEK, JOSÉ FÉLIX DE OLIVEIRA, LEONARDO FELIPE ROCHA, LUCINÉIA VIANA, MÁBILA RODRIGUES, MARIA DO CARMO DO NASCIMENTO