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A discussão sobre parentalidades não hegemônicas tem ganhado destaque nos debates acadêmicos e políticos, especialmente no que se refere aos direitos civis da população LGBT+. Contudo, a concepção de família ainda é amplamente orientada pela norma heterocisgênera, marginalizando parentalidades trans. O termo homoparentalidade avança no reconhecimento de novos arranjos familiares, mas pode ser insuficiente para contemplar as especificidades da experiência trans na parentalidade, tornando necessário o conceito de transparentalidade (Grossi; Uziel; Mello, 2007). Simultaneamente, a saúde reprodutiva, reconhecida como direito humano na Conferência do Cairo (1994), enfrenta desafios no Brasil, especialmente no acesso a métodos contraceptivos na Atenção Primária à Saúde. Métodos como o DIU e implanon são eficazes, mas subutilizados devido à falta de informação, treinamento insuficiente dos profissionais e barreiras socioculturais. A persistência da gravidez não planejada reforça a necessidade de ampliação da oferta e adesão aos contraceptivos na APS. A interseção entre parentalidades trans e direitos reprodutivos permanece pouco explorada, mas é crucial para promover equidade no acesso à saúde. A formulação de políticas públicas e a qualificação profissional devem contemplar as especificidades da população trans, garantindo seus direitos sexuais e reprodutivos. Este estudo problematiza a cisnormatividade reprodutiva e suas implicações na APS,buscando visibilizar essa população
Este artigo tem como objetivo sensibilizar os profissionais de saúde da UBS Jardim Novo Pantanal sobre a importância de um atendimento inclusivo e respeitoso à população trans, com enfoque na cisnormatividade reprodutiva e seus impactos na saúde sexual e reprodutiva. Para isso, foram utilizados métodos como a informação detalhada aos profissionais sobre os diferentes métodos contraceptivos disponíveis, suas indicações e contraindicações para diferentes perfis de pacientes, incluindo pessoas trans. Busca-se promover reflexões sobre a diversidade de corpos e experiências, destacando a necessidade de uma abordagem livre de preconceitos na oferta de contracepção e no acesso aos serviços de saúde. Além disso, pretende-se fomentar práticas que garantam acolhimento qualificado, contribuindo para a construção de um ambiente mais seguro e acessível para essa população.
A metodologia adotada neste estudo envolveu a sensibilização dos profissionais de saúde da UBS Jardim Novo Pantanal sobre a população trans, com o intuito de promover um atendimento mais humanizado e inclusivo. Foram realizadas ações educativas abordando a cisnormatividade reprodutiva e a importância do respeito à identidade de gênero no cuidado em saúde. Além disso, os profissionais receberam informações detalhadas sobre os métodos contraceptivos disponíveis, suas indicações e contraindicações. Paralelamente, foi realizada uma busca ativa de mulheres cis e homens trans interessados no uso de métodos contraceptivos, garantindo o acesso equitativo a essas opções. Também foram identificadas e acompanhadas aqueles que já utilizavam algum método, a fim de avaliar sua adequação e possíveis necessidades de ajuste. O processo incluiu a coleta de feedbacks dos usuários e dos profissionais envolvidos, possibilitando uma análise qualitativa dos impactos das ações implementadas. Os resultados foram analisados a partir das percepções dos participantes, buscando compreender os avanços na sensibilização e na adesão a práticas contraceptivas adequadas às realidades individuais.
A partir da busca ativa realizada, foi possível identificar e oferecer métodos contraceptivos para mulheres cis e trans que, muitas vezes, não tinham acesso adequado a essas opções. A ação permitiu não apenas ampliar a cobertura contraceptiva, mas também fortalecer o vínculo entre os usuários e a equipe de saúde, promovendo um cuidado mais humanizado e inclusivo. Os profissionais de saúde, após a sensibilização, demonstraram maior compreensão sobre a diversidade de gênero e a importância de garantir o acesso equitativo aos métodos contraceptivos, respeitando as necessidades individuais. Além disso, a abordagem educativa possibilitou o esclarecimento de dúvidas sobre indicações e contraindicações dos métodos disponíveis, reduzindo barreiras no atendimento. Os resultados evidenciam a relevância da Atenção Básica no SUS como porta de entrada essencial para o cuidado integral. A busca ativa e a qualificação profissional se mostraram estratégias eficazes para ampliar o acesso e garantir que a população, independentemente de identidade de gênero, possa exercer seu direito à saúde reprodutiva de forma segura e informada.
As políticas de saúde ainda são fortemente influenciadas por uma visão heterocisnormativa, que impacta a estrutura dos serviços e a atuação profissional. Como consequência, o atendimento à população trans demanda adequações e formações específicas que, em geral, não fazem parte da formação tradicional dos profissionais de saúde. Essa lacuna no ensino superior se reflete no despreparo para atender às necessidades de saúde dessa população, tornando essencial uma abordagem que vá além da técnica e contemple o contexto social e as diferentes vivências de gênero e sexualidade. A sensibilização realizada demonstrou que ações educativas e busca ativa são fundamentais para ampliar o acesso aos métodos contraceptivos e promover um atendimento mais humanizado. Mais do que informar, é necessário desconstruir tabus e reconhecer como a perspectiva biomédica pode reforçar uma visão normalizadora de gênero. Como apontam Vencato (2014) e Ávila (2014), o desconhecido tende a ser visto como inadequado, o que legitima a exclusão de corpos e identidades dissidentes. Assim, garantir o acesso à saúde reprodutiva da população trans passa por transformar essa lógica, promovendo um atendimento baseado no respeito e na equidade.
População trans; métodos contraceptivos.
TAYNÁ GOUVEIA MATTAR ROXO, ISABELLA BRACCI LISBOA