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Em janeiro de 2024, diante constatação do atendimento fragmentado, episódico, reativo e descontinuado ofertado a usuários que recebiam alta dos PSs – Prontos Socorros, foi proposto uma análise sobre os motivos das internações. Os dados disponíveis no SIH[1], para 04 PSs do município de Osasco mostravam que 77% do total de internações do de 2023 se concentravam em cinco grupos: Doenças respiratórias: 81% eram decorrentes de pneumonias, bronquites, enfisemas, DPOC e asma. Doenças do aparelho circulatório: 86% eram decorrentes de AVC, IC, IAM, HA e outras doenças isquêmicas do coração. Doenças geniturinárias: 95% eram decorrentes de IR e doenças do aparelho geniturinário. Doenças endócrinas nutricionais e metabólicas: 56% eram decorrentes de DM, desnutrição. Doenças parasitárias: 51% eram decorrentes de tuberculose, dengue, sífilis e outras doenças causadas por arbovírus. Verificou-se que as internações eram motivadas por condições crônicas agudizadas, a literatura[2] afirma que o modelo de atendimento para condições agudas não funciona para condições crônicas. Sabendo que somente uma atenção continua, proativa e integral pode conhecer e atuar sobre os determinantes sociais, os fatores de riscos, os comportamentos e o estilo de vida e realizar o gerenciamento das condições de saúde, foi proposto a transição para um modelo de “atenção continuada”, ressalta-se que a literatura[3] evidencia que a continuidade da atenção está associada a menores taxas de internações.
A intervenção objetivou a quebra do paradigma do atendimento ao episódio agudo sem continuidade através da implementação de um modelo de “atenção continuada” na APS dirigido a usuários com alta provenientes de 04 PSs. A implementação do modelo de “atenção continuada” exigiu ações que possibilitassem: •Conexão e comunicação entre o os serviços de Urgência e a Atenção Primária priorizando a comunicação das altas e a devolutiva de agendamento na APS no momento da alta. •Priorização e organização do acesso dos usuários na Atenção Primária. •Promoção do vínculo entre usuários e profissionais e estímulo a responsabilidade sanitária das equipes. •Oferta de um cuidado contínuo, coordenado e integral aos usuários que sofreram episódios de agudização de suas doenças. •Monitoramento dos atendimentos pela Atenção Primária e feedback para as equipes de APS e Urgência.
Em maio de 2024 foi iniciada a implementação do modelo de “atenção continuada” foi criado um grupo de WhatsApp que possibilitou a conexão entre os serviços e a comunicação das altas para a APS em tempo real. Nesse grupo as equipes dos serviços de urgência enviavam uma foto da alta médica com os dados do paciente e as informações de alta (nome, endereço, motivo da internação, e outras informações) em tempo real para as equipes de APS que já respondiam enviando no grupo o arquivo com agendamento do atendimento em uma das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Após a alta os usuários eram agendados em vaga zero e o período de espera para o atendimento era estipulado pelo PS de acordo com a necessidade do caso (em um prazo de 0 a 60 dias) garantindo a acessibilidade. No agendamento entregue ao usuário já constava o nome dos profissionais da equipe (médico, enfermeiro e ACS) responsáveis pelo paciente estimulando assim o vínculo entre profissional e paciente e a responsabilidade sanitária. A lógica de organização da APS municipal permitiu o atendimento de forma contínua e integral abordando questões relacionadas a comportamentos, estilo de vida, assim como implementar o gerenciamento clínico da condição de saúde implementada. Uma equipe central monitorou todos os casos e forneceu feedbacks para as equipes sobre reinternação, faltas, solicitação de busca ativa e acompanhamento dos casos.
Inicialmente todas as UBS iniciaram a oferta de atenção continuada, os quatro PSs foram sendo inseridos no processo gradualmente, o primeiro foi o PS José Ibrahim, o segundo foi o PS Dr. Antônio Flávio França, seguido pelo PS André Saco e PS Conrado Cesarino Nuvolini. Houve aumento de interação e melhora da comunicação entre as equipes dos PSs e a APS, o tempo médio de respostas no grupo de WhatsApp foi menor que 2 horas. Participaram da “atenção continuada” 679 usuários, a idade média foi de 65 anos, 245 usuários receberam visita domiciliar e 434 receberam consulta na UBS. Para a maioria dos casos (493 casos) os médicos do PS solicitaram atendimento na APS entre 7 e 15 dias após a alta, a diferença de tempo entre o prazo de solicitado pelo médico e o prazo de atendimento da APS apresentou média de -0,48 dias de atraso e mediana de 1 dia de antecipação, o acesso em tempo oportuno foi priorizado e garantido. A informação fornecida ao usuário sobre os profissionais de saúde responsáveis pelo seu acompanhamento fortaleceu o vínculo e gerou surpresa em alguns usuários que desconheciam a APS. A “atenção continuada” possibilitou um cuidado integral com ações de manejo da doença crônica, ações de promoção, prevenção e redução de danos por meio do aconselhamento de hábitos saudáveis e de ações de educação em saúde, assim como a coordenação de atendimentos em outros níveis da rede. Houve monitoramento de 100% dos casos e todos os faltosos receberam visita de busca ativa.
O município vem transpondo o paradigma predominante do modelo de “atenção a condição aguda” e se alinhando com a tendência demonstrada pela epidemiologia, o declínio dos problemas agudos e a ascensão das condições crônicas. Esclarecemos que esse movimento de transposição não é uma negativa a necessidade do tratamento agudo, pois esse sempre será necessário, a transposição do paradigma se traduz na internalização de um conceito de cuidado de problemas de saúde a longo prazo. Destacamos que a organização o georreferenciamento e a territorialização da APS municipal tem sido instrumento de transformação do sistema de saúde do município, impulsionando a transição para o modelo de “atenção contínua”, ofertando aos usuários do SUS acesso facilitado e um cuidado cada vez mais integral, longitudinal e coordenado. Destacamos que não houve investimento de novos recursos para a implementação do modelo de “atenção continuada”, houve apenas uma reorganização dos “modos de fazer”, corroborando com a ideia de que “Investir mais recursos, fazendo mais do mesmo, não resolve a crise dos sistemas de atenção à saúde; é preciso mudar radicalmente a lógica de operação desses sistemas”[2].
Cuidado Integral, Atenção Primária
ÉRICA LIMA DA SILVA, HERMES SOUSA NOVAIS, MATHEUS CORREA SEKI, PAULA GONÇALVES DIAS, ANTÔNIO CESAR DOS SANTOS, APARECIDA BISPO AVELAR