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A crescente demanda nos serviços de saúde por casos com hipótese diagnóstica de Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem gerado encaminhamentos com justificativas pouco fundamentadas tecnicamente, sem avaliações e intervenções estruturadas. Diante desse cenário, tornou-se essencial uma reflexão crítica para a construção de uma Linha de Cuidado específica. O TEA é uma condição complexa, resultante de diversas alterações neurológicas que influenciam o comportamento. Por isso, não existe um tratamento único e padronizado, sendo fundamental uma avalição singular. Este relato aborda o desenvolvimento de uma Linha de Cuidado voltada às crianças com hipótese diagnóstica de TEA e suas famílias, articulando todos os serviços de saúde, com ações de estimulação precoce e acompanhamento adequado. Destaca-se a importância da detecção precoce, ressaltando que identificar sinais não significa diagnosticar. Entre 2023 e 2024, através do Grupo Técnico Regional de Educação Permanente e a Rede de Cuidado à Pessoa com Deficiência do Alto Tietê, 11 municípios realizaram uma capacitação de 9 meses, com o objetivo de estruturar essa linha de cuidado, respeitando as especificidades locais. A Linha de Cuidado considera a dinâmica global das crianças e famílias, com foco principal no desenvolvimento das potencialidades e funcionalidades, estuda diagnósticos, porém não se limitando a eles, garantindo abordagens integrativas, humanizadas e inclusivas e sem depender de diagnóstico para elegibilidade.
Objetivo Geral Relatar a criação e implantação da Linha de Cuidado para Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas famílias no município de Guararema. Objetivos Específicos •Desenvolver uma Linha de Cuidado alinhada à realidade e às necessidades do município; •Capacitar profissionais das Unidades Básicas de Saúde e do CAPS I sobre a linha de cuidado e a identificação de sinais compatíveis com o TEA; •Estruturar um modelo de cuidado multidisciplinar e intersetorial utilizando os recursos locais; •Garantir a adesão às diretrizes do SUS, políticas de atenção e metodologias de intervenção aplicáveis ao TEA.
A linha de cuidado foi estruturada para desenvolver as potencialidades de cada criança e sua família, investindo intensamente na capacitação dos cuidadores, considerando histórico familiar, tempo de comprometimento, impactos no desenvolvimento e compreensão dos comportamentos. A partir dos 18 meses, qualquer profissional pode encaminhar crianças com possíveis sinais de TEA para o Grupo Multiprofissional da Atenção Básica via prontuário eletrônico. O primeiro contato ocorre através da enfermagem, que realiza uma avaliação inicial e a aplicação da escala de rastreio M-CHAT-R, esclarecendo que este instrumento não confirma nem descarta o diagnóstico. Ao identificar alterações compatíveis com TEA, inicia-se a formação do grupo interventivo, que promove estimulação e orientação por equipe multidisciplinar. O grupo inclui psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, nutricionista e técnica de enfermagem, atendendo de 5 a 6 crianças por vez. As sessões duram 2 horas, abrangendo intervenções com crianças, treinamento dos cuidadores, evoluções e discussão dos casos. Após teto terapêutico do grupo, a equipe avalia as evoluções, realiza os direcionamentos a rede de saúde e/ou intersetorial já mapeada e conforme necessidade, investem em encaminhamentos qualificados e mantem o monitoramento para acompanhar a efetividade das ações de forma longitudinal.
O resultado do projeto regional envolvendo os 11 municípios foi a criação Linha de Cuidado voltada às crianças com hipótese diagnóstica de TEA e suas famílias de Guararema de acordo com possibilidades do nosso município. Tivemos avanços significativos, como a implementação de ações de estimulação precoce na Atenção Básica, a integração de diversas especialidades no atendimento global do paciente, o fortalecimento da colaboração entre equipes de diferentes níveis assistenciais e o empoderamento dos profissionais frente à complexidade do TEA. A organização da Linha de Cuidado proporcionou estímulos e intervenções que favoreceram a aquisição de novas habilidades e/ou a recuperação das que foram perdidas. Também avançamos significativamente na sensibilização das famílias sobre o papel essencial e indispensável no desenvolvimento das crianças, corresponsabilidade no tratamento longitudinal, criando vínculos com profissionais e toda rede que estão inseridos. Além disso, foi elaborado um documento norteador completo e didático, alinhado à realidade do município, que descreve de forma clara e acessível todo o funcionamento e a montagem da linha de cuidado, facilitando a compreensão de todos os envolvidos. Por fim, a conscientização nas famílias sobre as capacidades das crianças, não apenas seus déficits, e os riscos de um diagnóstico precipitado, desconstruindo a ideia de que o laudo deve ser imediato, antes de qualquer intervenção.
A falta de apoio ou um local de referência e acolhimento para auxiliar nas dúvidas pode gerar angústia, isolamento e desesperança para as famílias. O desconhecimento, os julgamentos e a falta de compreensão da sociedade dificultam ainda mais esse cenário. O projeto busca, acima de tudo, respeito ao ser humano, com um olhar cuidadoso, integrativo e acolhedor. A linha de cuidado foi planejada para ser uma ação efetiva, contínua e acessível em todas as unidades, garantindo que qualquer criança e família possam receber acompanhamento adequado. Embora o diagnóstico seja um passo importante, o cuidado não deve estar condicionado a ele. Muitas famílias só conseguem acessos a serviços e terapias após um laudo médico, o que limita as ações interventivas. Nossa abordagem visa justamente ampliar esse olhar e garantir atendimento a todas as crianças com sinais compatíveis com TEA, em tempo oportuno e independente de diagnostico. A linha de cuidado ainda passa por ajustes, mas, com o conhecimento adquirido, o suporte multiprofissional e o compromisso da equipe, avançamos na construção de novas possibilidades para o desenvolvimento infantil e o fortalecimento do cuidado no município que antes existia, porém com limitações.
Autismo, Atenção Básica e Linha de Cuidado.
LILIAM CRISTINA VIEIRA ALVES CARDOSO, KAUANE DOS SANTOS, EDNA APARECIDA FERRARINI, ELIANE GUEDES DAVANÇO, JÉSSICA CRISTINA DA SILVA FALCO