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As desigualdades na distribuição de renda perpetuam as desigualdades sociais, enquanto a dependência química e outros transtornos psiquiátricos, a instabilidade no trabalho e nas relações familiares podem contribuir para o aumento de pessoas em situação de rua. Em 2022, um estudo do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP e instituições associadas com 90 moradores da então denominada “Cracolândia” revelou que mais de 80% dos participantes eram homens, entre 30 e 49 anos, usuários de crack. Porém, mais de dois terços informaram realizar atividades produtivas regularmente. A saúde bucal é uma grande preocupação para pessoas em situação de rua, com queixas comuns de dor e infecções dentárias. A promoção e prevenção da saúde bucal devem ser ações constantes para esse grupo. O consumo de álcool e outras drogas e de medicamentos com efeitos psíquicos podem ocasionar ou potencializar sérias complicações na saúde bucal, tais como traumatismos, fraturas e perda de dentes resultantes de violência física ou acidentes; doença periodontal e cárie dentária, lesões como queimaduras e ferimentos nos tecidos moles da cavidade bucal, entre outros agravos. No caso do uso de tabaco e drogas que são fumadas ou inaladas, há também um aumento do risco de desenvolvimento de câncer bucal. A saúde bucal vai além da assistência, impactando a qualidade de vida ao contribuir para a reconstrução de vínculos, recuperação da autoestima, a reintegração social e a adaptação às situações.
No município de São Paulo, o atendimento odontológico à população em situação de rua pode acontecer tanto pelos Cirurgiões Dentistas (CD) das UBS, das eCR e Unidade Odontológica Móvel – UOM como pelos serviços de urgência com equipes de saúde bucal, Centro de Cuidados Odontológicos (CCO) e pelos Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs) quando necessário. As UOMs estão localizadas em pontos específicos do município, a fim de promover o acesso ao maior número possível de pessoas em situação de rua. No entanto, o acesso dessa população aos serviços de saúde está diretamente influenciado pelas condições de vida às quais está submetida, considerando que o viver nas ruas frequentemente dificulta o acesso aos cuidados com a saúde. Dessa forma, o objetivo da ação foi aproximar o acesso ao serviço odontológico e a criação de vínculos com esta população em estado de altíssima vulnerabilidade por meio do funcionamento da Unidade Odontológica Móvel em uma Cena Aberta de Uso.
Após planejamento junto à gestão, foi realizada a proposta da presença da Unidade Odontológica Móvel dentro da Cena Aberta de Uso da região da Luz, no município de São Paulo, chamada antigamente de “Cracolândia”. A utilização do equipamento precisava respeitar as características técnicas do mesmo. A UOM mede 15m de comprimento X 2,8m de largura X 4,50m de altura e exige o uso de tomada trifásica 220V 63A modelo steck para funcionamento da cadeira odontológica e dos equipamentos e sistemas internos. A princípio, identificou-se a necessidade de utilização de cabo de energia para fornecimento de energia elétrica em local que atendesse a tais especificações técnicas. No entanto, no primeiro dia de funcionamento, a carga de energia elétrica mostrou-se não ser suficiente para o funcionamento do compressor, desarmando os disjuntores da UOM. Como solução, foi instalado um gerador para o fornecimento da energia elétrica. Dessa forma, foi possível a instalação da UOM na Cena Aberta de Uso que está concentrada na Rua dos Protestantes, próximo ao Espaço da Saúde – tenda da equipe de Consultório na Rua – Redenção, permitindo um acesso facilitado ao público alvo da ação.
De acordo com as informações do Painel de Monitoramento da maior aglomeração das cenas de uso da região da Luz da Prefeitura de SP, entre Outubro e Novembro de 2024, a média de dependentes químicos que transitam pela região era de 265 no período matutino e 250 no período vespertino. Os atendimentos estavam previsto para ocorrerem das 8h às 17h, no entanto, no local ocorrem duas lavagens de rua durante o dia, a primeira por volta das 9:00 horas da manhã e a outra em torno das 15:00 horas, com duração de aproximadamente 1 hora, interrompendo temporariamente os atendimentos. Assim, entre Outubro e Novembro, o atendimento foi ofertado durante 11 dias. No total, foram 63 usuários atendidos, sendo 36 do gênero masculino, 27 do feminino. Não houve pessoas que se identificassem com outros gêneros. Todos receberam exame clínico odontológico. Entre os procedimentos realizados, foram 35 raspagens/profilaxias, 25 tratamentos restauradores atraumáticos (ARTs) em 64 dentes, 39 dentes extraídos em 20 cirurgias, 08 dentes com acesso endodôntico realizado, 01 caso com lesão suspeita de câncer encaminhado ao estomatologista do CEO, 06 restaurações em resina composta e 01 ajuste de prótese dentária. Os pacientes foram motivados e orientados a dar seguimento ao tratamento nos equipamentos de saúde próximos com equipes de saúde bucal, seja na UBS ou na UOM.
Os cuidados em saúde fazem parte dos elementos centrais para a mudança na realidade de uma pessoa em situação de rua, e os profissionais da Atenção Básica desempenham um papel essencial ao buscar as populações em seus territórios e oferecer um cuidado contínuo e inclusivo. Os problemas bucais podem agravar o uso de álcool e outras substâncias, tornando importante que as equipes de saúde sejam preparadas para acolher essas pessoas e oferecer acesso a cuidados odontológicos dentro de um plano de saúde integral. A compreensão das necessidades dessa população em relação à saúde bucal pode melhorar o vínculo a saúde, alinhando-se aos princípios de universalidade, equidade e atendimento integral do SUS. O cirurgião-dentista tem um papel importante como agente de promoção da saúde, ajudando a recuperar a autoestima das pessoas e possibilitando sua reintegração social e construção de vínculos, o que muitas vezes leva ao abandono do uso excessivo de álcool e outras drogas. Essa iniciativa mostrou-se eficaz, apesar de desafiadora, pela adesão dos pacientes, trazendo bons resultados assistenciais, os quais podem ser replicados em outras regiões, tanto em SP quanto em outras partes do Brasil, com ajustes conforme as necessidades locais.
Desigualdade social e renda, Cracolândia
SAMANTA PEREIRA DE SOUZA