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O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, a linguagem, a interação social e o comportamento, exigindo uma abordagem multidisciplinar e humanizada. Em julho de 2022, diante do expressivo aumento de crianças com TEA, a Secretaria Municipal de Saúde de Ilha Solteira inaugurou o serviço especializado TEAacolhe, criado para oferecer o suporte necessário a esses pacientes. Em junho de 2024, uma cirurgiã-dentista passou a integrar a equipe, desenvolvendo ações educativas e prestando atendimento odontológico. O tratamento odontológico de pacientes autistas é particularmente desafiador, pois o ambiente clínico e os procedimentos podem gerar estímulos capazes de desencadear alterações comportamentais, devido à sensibilidade sensório-motora acentuada desses indivíduos. A atenção precoce à saúde bucal é crucial para crianças autistas, pois contribui para a redução de problemas odontológicos. No SUS, esse atendimento se destaca ao priorizar a promoção e a prevenção da saúde bucal. Nesse contexto, técnicas de manejo comportamental se mostram essenciais para um atendimento seguro e eficaz. Assim, torna-se indispensável um atendimento odontológico individualizado e humanizado, que envolva a família e promova o desenvolvimento de habilidades relacionadas aos cuidados com a saúde bucal. A construção de um elo de confiança entre profissional, paciente e família é fundamental para uma prática resolutiva e de qualidade na assistência.
Desenvolver ações educativas relacionadas à saúde bucal fora do ambiente do consultório odontológico, a fim de estabelecer um manejo individualizado e uma compreensão aprofundada do perfil comportamental de cada criança com TEA, englobando diversas técnicas de manejo do comportamento. Orientar e acompanhar crianças e responsáveis nos cuidados com a saúde bucal, promovendo a autonomia e a adesão às práticas de higiene oral. Favorecer a participação ativa da criança com TEA no atendimento odontológico e torná-la agente cooperadora. Reduzir a ansiedade e desconforto associado ao tratamento odontológico. Informar e orientar a família sobre a intervenção da cirurgiã-dentista, de forma a esclarecer sobre conceitos, características e desafios encontrados no atendimento de pacientes autistas, bem como a importância do cuidado odontológico. Estabelecer uma relação de vínculo com a criança e família, com a sensibilização e participação dos responsáveis na promoção da saúde bucal.
Diante da crescente demanda de crianças com TEA e dos desafios no atendimento de paciente não colaborativos, além das dificuldades no encaminhamento para centros de referência devido à alta procura, foram delineadas estratégias específicas no serviço TEAcolhe. Para isso, a cirurgiã-dentista passou a desenvolver atividades semanais no local, com o desenvolvimento de uma abordagem individualizada para cada criança com TEA. O processo iniciou-se com uma escuta qualificada de pais ou responsáveis, para coleta de informações essenciais para obtenção do perfil comportamental da criança e uma anamnese mais detalhada. Posteriormente, com as crianças, foram aplicadas diversas ações utilizando diferentes recursos e técnicas de condicionamento comportamental, incluindo atividades lúdicas como jogos, brincadeiras e contação de histórias relacionadas à saúde bucal. Além disso, foram realizadas ações de escovação supervisionada com as crianças e responsáveis, priorizando as necessidades individuais e dificuldades enfrentadas pelas famílias. Um exame clínico preliminar foi conduzido para identificar a necessidade de tratamento odontológico e estabelecer um fluxo para o atendimento adequado. Por fim, as crianças passaram a receber atendimento no consultório do Centro Odontológico Municipal, onde os procedimentos odontológicos necessários foram realizados.
A atuação da cirurgiã-dentista no TEAcolhe permitiu uma maior aproximação dos pais e responsáveis, com a identificação de relatos de que muitas crianças nunca haviam passado por atendimento odontológico. Observou-se um alto índice de apreensão entre os responsáveis quanto à busca por tratamento odontológico para seus filhos, demonstrando a necessidade de estratégias para promover a conscientização, a confiança e a adesão ao cuidado odontológico do paciente com TEA. As ações educativas e a escovação supervisionada evidenciaram dificuldades na prática da higiene oral, o que permitiu uma orientação individualizada das crianças e responsáveis. Houve uma melhora no autocuidado e no envolvimento dos responsáveis no cuidado odontológico, considerando que crianças com TEA frequentemente dependem deles para a manutenção da saúde bucal. Além disso, identificou-se a necessidade de abordagens específicas para manejar dificuldades comportamentais e estimular a colaboração na higiene oral. O atendimento odontológico no consultório apresentou uma alta taxa de sucesso, com a cooperação da criança durante os procedimentos, especialmente entre aquelas com histórico de não colaboração, evidenciando a eficácia das estratégias adotadas no serviço TEAcolhe. A utilização de abordagens individualizadas e técnicas de manejo comportamental contribuiu significativamente para reduzir a ansiedade e o desconforto das crianças, o que favoreceu a colaboração.
A inserção da cirurgiã-dentista no serviço TEAcolhe possibilitou a construção de um vínculo positivo entre a profissional e família, com o estabelecimento de uma assistência odontológica acolhedora, humanizada e adaptada às necessidades específicas dos pacientes com TEA. Tal abordagem contribuiu significativamente para uma maior aceitação do tratamento odontológico, permitindo que as crianças se sentissem mais seguras durante os procedimentos. Além disso, a participação ativa dos responsáveis foi essencial, pois o suporte emocional oferecido à criança proporcionou maior confiança e conforto durante o atendimento. O processo também favoreceu a incorporação do autocuidado e da prática dos cuidados com a saúde bucal no contexto familiar, de forma a promover uma mudança duradoura nos hábitos de higiene oral. Esse cenário culminou em uma experiência exitosa, tanto para as crianças quanto para suas famílias, e fortaleceu a adesão aos cuidados de saúde bucal e ao tratamento odontológico, de forma a promover benefícios duradouros para todos os envolvidos. Este modelo de atendimento tem se mostrado promissor no aprimoramento da manutenção da saúde bucal de crianças com TEA.
TEA, AUTISMO, odontologia, empatia, bucal, acolhe
MICHELA MELISSA DUARTE SEIXAS SOSTENA