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A população de idosos tem aumentado nas últimas décadas e segundo projeções, até 2025, o Brasil irá ocupar o sexto lugar no mundo quanto ao contingente de idosos (IBGE, 2020). Nesse contexto, são necessárias ações que ultrapassem o conceito de saúde como ausência de doenças na população idosa para outras que fortaleçam a autonomia, tragam qualidade de vida e felicidade a fim de promover o envelhecimento saudável. Dentre as muitas ações desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde (APS), existem os grupos de convivência para idosos, que são espaços de interação e inclusão social, vivências culturais e sociais, construção coletiva e autocuidado (Previato et al., 2019). Num sonho trazido pela agente comunitária de saúde (ACS), que tem um forte vínculo com uma comunidade indígena da Baixada Santista, onde cultivar a terra é inerente à vida, pensamos em ocupar o espaço da Unidade de Saúde da Família (USF) Martins Fontes com uma horta comunitária. A produção de uma horta da qual o cuidado e gestão sejam coletivos pode ser um incentivo a novas formas de pensar questões da vida em comunidade e fortalecer a participação social. Cultivar plantas é uma prática que nos permite pensar em temas como o direito à alimentação, consumo responsável, desigualdades sociais, mudanças climáticas e vai além, trazendo novos ressignificados para os espaços da unidade de saúde e reflexões sobre o tempo das plantas e sobre o nosso tempo e ciclo da vida.
Objetivo geral Construção de uma horta comunitária como dispositivo de convivência para a população idosa num território de alta vulnerabilidade social. Objetivo específico Fomentar a inclusão social e espaço de socialização de idosos; Valorizar saberes ancestrais e populares no cultivo de ervas, plantas e hortaliças; Promover o direito humano à alimentação adequada.
A horta comunitária descrita neste relato de experiência foi um dispositivo grupal e dela participaram em torno de 10 munícipes em encontros semanais com 2h30 de duração. As atividades são desenvolvidas pela assistente social, pela nutricionista e pela ACS, contando com apoio do estágio de Nutrição Social e de Serviço Social da UNIFESP/BS. O local escolhido foi a USF Martins Fontes que funciona num antigo casarão reformado de estilo neocolonial e tombado pelo Condepasa (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos). Devido ao tombamento, encontramos a primeira dificuldade de não poder fazer um canteiro suspenso de alvenaria na área externa da unidade de saúde. A decisão de fazer uma horta em vasos nasce deste impedimento inicial. O processo de construção de uma horta incluiu a busca de recipientes para plantio, kit jardinagem, material reciclado para confecção de regadores, terra fértil, sementes e mudas. As ações da horta envolvem o cuidado com a terra com a formação de canteiros de mudas, plantio, colheita e limpeza de terreno. Além destas atividades, realizamos roda de conversa acompanhado com chá de ervas, sendo às temáticas trabalhadas sobre direitos da pessoa idosa, sexualidade, fitoterapia, alimentação saudável, relações familiares, acesso a áreas de esporte, lazer e cultura e autocuidado. Os encontros foram considerados como dispositivos-analisadores registrados num diário de campo e analisadas pelos pesquisadores para avaliação da eficácia desta atividade.
Os resultados evidenciaram a horta como um lugar de encontro entre os participantes e os trabalhadores e, também, uma nova relação de cuidado e pertencimento com a unidade de saúde. O grupo de convivência da horta permitiu a troca de saberes, uma forma de romper com o cotidiano das tarefas do lar e das obrigações com os familiares, resgate de memórias da infância, uma reaproximação com a comida de verdade e o aprendizado de habilidades de cultivo com viabilidade de aplicação em seus lares. Além dos conhecimentos trazidos pela ACS do cultivo em território indigena, a maioria dos participantes do grupo da horta tinham uma história de vida semelhante, com trajetória na infância e adolescência no campo e na lavoura. A valorização desses conhecimentos levou a uma maior união do grupo e ampliou o sentimento de pertencimento a este espaço de produção de sentidos. A criação da horta remete a pensar sobre o tempo, num mundo que tudo requer rapidez, agilidade, os participantes entendem que o tempo das plantas é diferente do nosso, a natureza não se guia por nossos relógios nem entende o nosso desespero por resultados, por isso mexer na terra, tomar um chá, conversar e cuidar do bem estar individual e coletivo assegura uma atenção plena aos ciclos e um maior envolvimento no cuidado e na ressignificação dos espaços para além da unidade de saúde.
Refletindo sobre o cuidado da pessoa idosa, tendo como diretriz às políticas públicas, entendemos a potência do grupo de convivência da horta como um dispositivo de cuidado das demandas físicas e mentais e um ambiente acolhedor e propício para novas e boas amizades. O senso de propósito e o engajamento no trabalho possibilitam que os indivíduos participem ativamente da comunidade onde vivem, contribuindo para a melhoria de sua saúde física e mental. As dificuldades na implantação da horta são inúmeras. A falta de recursos públicos para o início e manutenção da horta comunitária determinou a criação de diversas formas de mobilização com a doação de vasos e potes, aquisição de sementes e mudas feita pelos trabalhadores e usuários e parcerias intersetoriais para conseguirmos terra fértil. A arte de mexer na terra vai produzindo sentidos, aflorando o sentimento de companheirismo e pertencimento. O brilho nos olhos, ao prepararmos o chá com o que produzimos, a organização e o cuidado com o espaço de conversa, nos remete a pensarmos na importância da atividade em grupo como espaço de fortalecimento dos vínculos, num território de grande vulnerabilidade social.
Socialização, Pessoa Idosa, Fitoterapia
VIVIAN LEMOS LOPES DE CICCO, LUCIANA MACHADO WERNECK, BRUNA FREIRE DE CARVALHO, CAROLINA NORONHA GONÇALVES GABRIEL LOPES - EMAIL: NORONHA.CAROLINA@UNIFESP.BR - CPF: 376.863.968-19