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Em minha trajetória de formação na Bolívia entre 2012 e 2018 de longe ouvia muitos rumores relacionados a medicina, onde relatos constantes de colegas em que já não se existia valorização, respeito e admiração ao trabalho médico no nosso país, algo totalmente distópico com minha experiencia de vida no interior de Minas Gerais, onde nasci e fui criado e carrego lembranças de muito valor aos médicos que passaram por minha vida. Então ao revalidar meu diploma e conseguir o tão sonhado registro médico, resolvi testar o prestígio médico, sendo o resultado expressado a seguir. Em maio de 2021 iniciei minhas atividades como médico da estratégia da família da Esf Quarentenário em São Vicente/SP, localizada em um bairro periférico extremamente vulnerável de baixíssimo desenvolvimento e acesso, encontrei uma demanda reprimida altíssima e ainda enfrentávamos a pandemia da covid 19, porém já tínhamos o início da vacinação e atividades em grupo já retornavam a ser permitidas, então junto a minha equipe iniciamos um planejamento para o enfrentamento do caos acumulado e extremamente acentuado com a pandemia, encontrando nas práticas integrativas complementares uma saída.
De início, o objetivo principal seria conseguir atingir um número maior de pessoas ao mesmo, e não apenas focado em tratamento e exames, mas principalmente em prevenção e promoção de saúde, em toda sua magnitude (física, mental e social), tendo em vista todo cenário acumulado que vivíamos. Porém também possuímos objetivos secundários de muita importância, como melhora e fortalecimento do vínculo médico/equipe – paciente/comunidade, efetivar e colocar em prática princípios do sus, diminuir custos com melhora da gestão dos recursos, diminuir buscas dos pacientes ao pronto socorro e internações, melhorar acesso e claro, o objetivo terciário e mais individual de testar o prestigio médico, colocando o médico da estratégia de saúde da família no centro do cuidado do paciente e de sua comunidade.
Tudo começou olho no olho, na consulta, um local de imensa oportunidade e de alto fluxo de pessoas, que estão extremamente concentradas e preocupadas com sua saúde, e bem atenta as palavras do médico. A orientação em MEV (mudança do estilo de vida) foi incrementada, resolvi fazer um pouco diferente, participar junto. Combinei com diversos pacientes durante a semana de atendimento um determinado dia para iniciarmos um grupo de caminhada, no dia então apenas uma paciente compareceu, porém fizemos o percurso por uma avenida principal e de alta visibilidade no bairro e o médico junto, deu certo, no segundo dia já eram 10 pacientes, no segundo 20, na outra semana 50 pacientes, esse era o caminho. Vimos um espaço vazio na unidade e abandonado, iniciamos ali uma horta comunitária e terapêutica com participação ativa dos pacientes, dali recebemos a visita da vice prefeita e onde toquei no assunto em um grupo de teatro, tinha um professor disponível e começou então aulas de teatro com adesão surpreendente, também conseguimos uma professora de poesia, iniciou-se um grupo de alfabetização poética, uma paciente se voluntariou em dar aulas de artesanato, NASF iniciou um grupo de fisioterapia, conseguimos uma professora de dança e também iniciamos o projeto roda de saberes, onde utilizamos as plantas da horta para chás e sucos e trocamos saberes, além de instituirmos passeios regulares a teatros, cinema, museus e parques.
*links na bibliografia* Já são 3 anos e meio de atividades, os resultados naturalmente foram acontecendo e devemos separa-los por esferas, em saúde obtivemos resultados em toda sua magnitude de definição (física, mental e social), controle de comorbidades, melhora da qualidade de vida, melhora do relacionamento interpessoais, importante resultado em termos de depressão, ansiedade e qualidade do sono, consequentemente tivemos resultados financeiros com a diminuição de buscas dos pacientes aos serviços de saúde, sobretudo pronto socorro e especialidades, diminuição de complicações e internações prolongadas e diminuição no uso de medicações, reduzindo custos. Também foi colhido resultados políticos, com tais atividades feitas de maneira independente e sem mudar a estrutura de saúde primária, o município conseguiu visibilidade através de diversas reportagens e prêmios conquistados melhorando assim a impressão da população frente sistema de saúde pública sem efetivamente ter mudado nada. Ressalto também que verbas foram conquistadas através do projeto, emendas parlamentares para reforma da unidade e compra de materiais que aguardamos ansiosamente serem efetivadas. E tenho que mencionar o resultado pessoal/profissional, o respeito carinho e reconhecimento de toda uma comunidade por estar fazendo apenas minha obrigação é surpreendente, reportagens e matérias são recorrentes, um documentário, prêmios e até o título de cidadão vicentino, maior honraria do município me foi concedido.
Por fim uma reflexão deve ser feita, como pode, proporcionar atividades tão simples como caminhada, horta, teatro , poesia , artesanato, uma roda de bate papo, ir a um parque, museu, cinema, etc, trazer tanto resultado ? Como pode, cumprir com a obrigação e com um juramento, escutando os pacientes, enxergando como um todo, pegar na mão, olhar no olho e dar o exemplo, trazer tanto prestígio e reconhecimento ? Acredito que a resposta esteja nos privilégios, um deles o da profissão, ser médico é um privilégio, de uma responsabilidade imensa, mas de uma oportunidade de fazer a diferença maior ainda e de uma maneira simples, apenas cumprindo com sua obrigação. A medicina pulsa, o(a) médico(a) ainda é médico(a)!
PICS, Medicina da Familia, APS
YAGO DE OLIVEIRA TORRES PINTO