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A Organização Mundial da Saúde define a obesidade como doença multifatorial e complexa, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura, que além de causar sofrimento psicológico, problemas de autoestima e isolamento social, devido ao estigma, ao bullying e à discriminação, traz repercussões à saúde devido sua associação ao desenvolvimento de complicações metabólicas relacionadas à outras doenças. A introdução de alimentos inapropriados na alimentação complementar, desmame precoce, uso de fórmulas lácteas com preparo incorreto, distúrbios de comportamento alimentar e a relação familiar conturbada são alguns dos motivos determinantes da obesidade na infância. Sua prevalência tomou proporções epidêmicas nos últimos anos e representa um grande problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento, onde tende a coexistir junto com déficits nutricionais e mudanças climáticas (sindemia global). Apesar do avanço nas pesquisas e na prática clínica, o manejo da obesidade segue como um grande desafio no SUS. Para sua superação, a organização dos serviços de saúde e a definição e pactuação de responsabilidades de cada nível de atenção, são primordiais para a oferta da linha de cuidado à criança e adolescente com sobrepeso e obesidade. Considerando este contexto desafiador, a experiência descrita a seguir tem como objetivo apresentar a busca pela integração no tratamento e a interprofissionalidade no cuidado da obesidade infantojuvenil na atenção especializada à saúde.
Diante da necessidade de oferta do cuidado integral, longitudinal e interprofissional da criança e do adolescente com sobrepeso e obesidade, esta experiência visa normatizar o fluxo de funcionamento do Núcleo de Tratamento de Obesidade Infantojuvenil da Atenção Ambulatorial Especializada à Saúde.
Estudo metodológico, com foco na construção do protocolo de atendimento da criança e do adolescente com sobrepeso e obesidade da atenção ambulatorial especializada à saúde, no Ambulatório da Criança do município de Guarulhos. Este documento foi embasado pelos referenciais e instrutivos do Ministério da Saúde, manuais da Sociedade Brasileira de Pediatria e publicações internacionais. A primeira etapa estabelecida para elaboração do protocolo foi a revisão da literatura, sobre intervenções de prevenção e controle da obesidade infantojuvenil conduzidas na Atenção Primária à Saúde e na Atenção Ambulatorial Especializada, visando obter evidências para a construção do instrutivo. Além dessas fontes de dados buscou-se também identificar documentos e legislações, considerados referências-chave por seu conteúdo pertinente, para a construção das bases teóricas e operacionais de organização do protocolo. A segunda etapa para elaboração do instrutivo foi a organização das informações obtidas na busca da literatura e documentos mencionados. Em seguida houve uma mobilização por parte da equipe de nutrição do ambulatório da criança em desenvolver o conteúdo técnico do protocolo e a busca em promover uma prática assistencial de caráter interprofissional, voltada ao atendimento deste público, articulando junto a gerência da unidade, mecanismos que pudessem promover o cuidado terapêutico com a participação de diferentes categorias profissionais existentes na equipe do ambulatório da criança.
O material intitulado “Protocolo de atendimento da criança e do adolescente com sobrepeso e obesidade na atenção ambulatorial especializada à saúde” inclui os seguintes capítulos: introdução; justificativa; legislação sobre o tema; diagnóstico do sobrepeso e da obesidade; cuidado de comorbidades; encaminhamento para atenção especializada; objetivos do tratamento; atuação da equipe interprofissional e fluxo de atendimento; e acompanhamento em grupo. O protocolo tem a pretensão de ser utilizado como ferramenta de educação permanente em saúde nas reuniões de matriciamento da obesidade que ocorrem no munícipio, além de ter papel fundamental nos processos de trabalho da equipe do núcleo de obesidade, possibilitando o avanço no acesso dos usuários ao tratamento especializado, fortalecendo a linha de cuidado do município. A experiência tem se mostrado inovadora e transformadora, implementando um programa de abordagem interdisciplinar no tratamento da obesidade infantojuvenil com atividades em grupos, individuais e oficinas temáticas, as quais tem promovido engajamento dos pacientes e cuidadores no tratamento, que participam ativamente da escolha dos temas que serão trabalhados nos encontros; além da prática colaborativa na atenção à saúde, com profissionais de diferentes áreas, prestando serviços com base no princípio da integralidade. Essas práticas podem reduzir o número de complicações relacionadas à obesidade e promover autonomia e autocuidado aos usuários.
Esta experiência descreve os passos metodológicos utilizados na elaboração do protocolo direcionado ao manejo da obesidade infantojuvenil na Atenção Especializada, partindo da pesquisa de referenciais teóricos do MS e publicações nacionais e internacionais relacionadas à temática. A elaboração desse instrutivo e sua utilização como ferramenta de educação permanente em saúde, pode viabilizar o empoderamento dos profissionais e a implementação de estratégias efetivas e resolutivas de cuidado. A utilização das múltiplas estratégias apresentadas, focadas na literatura científica e no público-alvo, permitirão ampliar e aprimorar o escopo do protocolo. Por fim, as técnicas utilizadas conferirão robustez à sistematização dos conteúdos, fortalecendo as estratégias propostas e oferecendo novas possibilidades para intervenções voltadas ao cuidado da criança e adolescente com obesidade no SUS. Espera-se que este protocolo contribua para facilitar fluxos terapêuticos, melhorar a comunicação e integração entre profissionais, promovendo avanço no acesso ao tratamento e oferta de ações contínuas, colaborativas e efetivas para identificação dos casos, estratificação de risco e oferta de cuidado integral, qualificado e longitudinal à este público.
Obesidade infantil; Intervenção interprofissional.
GILBERTO DE ALMEIDA GOMES