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O projeto do CAPS IJ II partiu da escuta sensível dos relatos trazidos pelos usuários e responsáveis que evidenciavam sofrimento psíquico bem como agravamento do sofrimento causado pelo racismo estrutural e cotidiano, em novembro de 2023 ao ouvir os demais colaboradores da equipe multidisciplinar, iniciei o cuidado aos cabelos e autoestima da criança do jovem preto e sua família/responsáveis no Sarau da Consciência Negra, no Teatro Carlos Gomes ao mesmo tempo em que o evento ocorria. Os familiares valorizam o suporte mútuo que é fornecido nos grupos, ouvir outras histórias e saber sobre as aflições alheias os trazem sensação de “leveza” (DELGADO, 2014). Quando o atendimento e compreensão do sujeito abrangem os fatores multicausais potencializa a assertividade do cuidado em saúde mental. O Sarau da Consciência Negra foi um evento importante para impulsionar o projeto CAPSLOOK do CAPSIJ II.A importância desse trabalho reflete nas evoluções observadas e relatas pelos usuários durante o tratamento dentro da rede. Além disso, (GRADA KILOMBA et al., 2020 4ª edição) escreve “Historicamente, o cabelo único das pessoas negras foi desvalorizado como o mais visível estigma da negritude e usado para justificar a subordinação de africanas e africanos (Banks, 2000; Byrd e Tharps, 2001; Merce, 1994)”.
– Promove re fortalecimento através de representatividade, construção de vínculo ancestral, pertença e autocuidado. – Aquilombar, e ofertar lugar de ressignificação e vínculo entre identificação hegemônica e longevidade. – Minimizar os impactos negativos do racismo cotidiano e estrutural, que tem fragilizado ainda mais a saúde mental dos indivíduos em situação de vulnerabilidade que utilizam o serviço do CAPSIJ II, minimizar a evasão escolar, minimizar os impactos de isolamento social e perda de interesse em relações interpessoais causadas pelo racismo e demais formas de preconceito. – Facilitar os processos que implicam questões raciais que só podem ser fortalecidas através de representatividade.
Os relatos dos usuários e experiências são apresentados aos colaboradores tanto no fluxo do primeiro acolhimento, quanto nos atendimentos individuais ou atividades em grupos. Através de instrumentos da psicologia humanista centrada na pessoa e de letramento racial contextualizando e norteando as origens do adoecimento psíquico, foi possível aplicar ferramentas de intervenções específicas e qualificadas que promovem a autoconfiança, autoconhecimento, aquilombamento, representatividade, resistência e ancestralidade, além de reflexões importantes sobre a validação das emoções e sentimentos, de forma individualizada. Através da doação de material para ofertar cuidado evidenciando a autoestima, trabalhamos a ancestralidade e o combate ao racismo e diversidade geral nos diversos ambientes nos quais os usuários estão inseridos através de tranças, maquiagem, hidratação capilar, reconstrução de cachos e escuta afetiva. São comprados pela equipe multiprofissional materiais para realização do projeto: jumbo sintético para tranças, pomada capilar, gel capilar, lastéx para cabelo, anéis e fitas para finalização e adorno capilar, secador e chapinha, shampoo, condicionador, hidratante capilar e itens de maquiagem para tons de pele. Assim atendendo as especificidades das diversas demandas surgidas que vão desde o bullying ao racismo e LGBTQ fobia. O agendamento do cuidado se dá mediante a identificação de sofrimento psíquico que pode ser fator desencadeante de crise.
Durante os encontros realizados observamos a mudança de comportamentos, os usuários e os responsáveis se mantêm sensíveis e receptivos, elogiando e utilizando-se do espaço como facilitador para construção hegemônica, há trocas que vão desde métodos de penteados e produtos de diferentes gerações, como também formas de maquiar ou até receitas de bolo, não evasão escolar, e crianças e jovens se olhando no espelho e elogiando a si. Por exemplo, após realização de tranças box braid, o usuário P. H. N. que chegou no serviço sem autoestima, sem autocuidado, relatando depressão e isolamento social, iniciou no CAPSLOOK e tem feito elogios a si mesmo, tem trazido poemas de autoria própria, retornou ao convívio com os colegas da mesma faixa etária e retornou aos ambientes externos como parques, shoppings entre outros. A mãe do usuário traz o relato com lágrimas nos olhos, recordando e compartilhando com todos os presentes sobre sua trajetória de vida e dificuldades vivenciadas, o medo que sentiu de perder seu filho e relata sentir outra vez felicidade por vê-lo sorrindo novamente. As potencialidades foram ampliadas, a socialização e trocas entre o usuário e sua mãe foi facilitando espaço para risos e troca de afeto, ressalto o quão importante é a sensibilidade da equipe em trabalhar neste formato. Foi pensando em um modelo de tratamento integral do sujeito, que avançamos no rompimento das barreiras ainda existentes como modelo biomédico, isolamento, medicalização e perca da autonomia.
O CAPSLOOK é uma oferta de cuidado, onde o usuário recebe o acolhimento de forma integral e singular, envolvendo o auxílio das auxiliares que deixam a sala destinada ao cuidado limpa, com toalhas limpas e assim o ambiente se faz acolhedor, profissionais capacitados, comunidade, indivíduo e família, educadores e auxiliares de educadores, na busca pelo bem-estar biopsicossocial, desinstitucionalizando as grandes instituições psiquiátricas. Diante do exposto, consideramos exitosas as práticas que potencializam habilidades e especificidades dos usuários e seus vínculos, minimizando os impactos que desencadeiam crise, provendo prevenção e cuidado de saúde mental.
Sofrimento psíquico, fortalecimento, racismo.
TALITA MAURICIO DA ROCHA, CELINA SEVERIANO PEREIRA, HELLEN DA SILVA, VALDIRENE APARECIDA DE OLIVEIRA, ANAÍZA ALINE DA COSTA BORGES OLIVEIRA