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A presente experiência trata do trabalho realizado no grupo Ouvidores de Vozes no CAPS II, na cidade de Osasco. Este trabalho vem acontecendo desde setembro de 2023, com intuito de dar significado, acolhimento e compreensão às vozes, como forma de promoção de saúde mental da população atendida. Ouvir vozes é um fenômeno cuja incidência se apresenta em aproximadamente 15% da população mundial (Nieuwenhuiss & Knoll,2021) e muitas vezes é associado a transtornos psicóticos graves, como a esquizofrenia. Da mesma forma, o número grupos de Ouvidores de Vozes têm crescido no Brasil. A OMS, em seu relatório de 2021, recomenda e reforça a promoção de grupos de recovery como os grupos de Ouvidores (Oliveira, et al., 2023). A criação deste grupo no CAPS surge através da demanda de um grande contingente de usuários que ouvem vozes, cuja experiência causa grande prejuízo para realizar atividades cotidianas e diminuem a autonomia dos usuários. Embora seja um grupo com uma população específica, a promoção de saúde mental é um elemento de destaque nos encontros, que acontecem todas as sextas-feiras dentro do CAPS, com uma população de aproximadamente 30 usuários frequentes. Aqui, promoção de saúde mental entendida enquanto ações que fortaleçam os vínculos do usuário com o serviço, que estimule a sociabilidade e a corresponsabilização do cuidado. Esta ação de promover saúde entre ouvidores de vozes surge principalmente pela questão do estigma e da dificuldade em lidar com esta experiência.
Descrever as ações de promoção de saúde mental dentro de um grupo de Ouvidores de Vozes
Trata-se de um relato de experiência dentro de um equipamento de saúde. O relato articula saberes entre a Atenção Psicossocial e ações de recovery como ferramentas para a promoção de saúde mental. Bem como, articula estes campos de saber como referenciais teóricos para a prática cotidiana do grupo. Os grupos acontecem trazendo para discussão no grupo o que as vozes falam, como falam e quais são suas características. O manejo para lidar com essas vozes é através da compreensão de quando inicia a audição de vozes, situações traumáticas que estão envolvidas nesta experiência. Todo início de grupo os participantes contam como chegam e o que as vozes estão falando. É sempre proposto um espaço de escuta para a angústia que gera ouvir vozes de comando, bem como sempre é levantada a questão da normalidade da experiência humana. Para avaliação dos resultados das ações no grupo, foram pensadas as formas que os usuários estavam lidando com as vozes ouvidas, ou seja, se conseguiam manter o pragmatismo mesmo apresentando “alucinações auditivas”. Bem como, como tem sido a garantia da autonomia dos usuários, suas tomadas de decisão e o fortalecimento de seus vínculos afetivos.
Como resultado das ações do grupo, trazemos as questões de retomada do pragmatismo, ou seja, a capacidade de realizar ações cotidianas, como trabalhar, pegar ônibus, ir à espaços de convivência mesmo ouvindo vozes. Não trazemos a cessação de audição de vozes, pois isto não é um objetivo de grupos com essas temáticas, mas sim a retomada da vida cotidiana e da autonomia. Ao todo, mais de cinquenta usuários já passaram por este grupo, muitos recebendo encaminhamentos para participação em outros espaços do CAPS, que já preparem os usuários para ações de reabilitação, como apropriação do território ou entrada no mercado e trabalho. Dos usuários que participaram do grupo, aproximadamente 90% tinham diagnóstico de esquizofrenia ou outra psicose grave. Os outros 10% com diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar. Cerca de 15 usuários, desde setembro de 2023, conseguiram criar estratégias para diminuir a quantidade e o volume das vozes – principalmente estratégias de conversa com as próprias vozes e de dar significado ao que tem sido dito. Todos os usuários conseguem referir um episódio traumático que está associado ao início da audição de vozes. Cerca de 10% da população atendida conseguiu dar nome e forma para a voz ouvida, facilitando no processo de acolhimento da própria experiência. Também 10% da população atendida conseguiu retornar ao mercado de trabalho, lidando melhor com as vozes e não permitindo que elas influenciassem em seus vínculos de trabalho e nos vínculos familiares
Grupos de Ouvidores de Vozes são fundamentais para o processo de reabilitação psicossocial e para a solidificação das diretrizes da atenção psicossocial e do SUS. São grupos que têm como foco a despatologização da experiência humana, promovendo autonomia dos sujeitos e a retomada da vida como campo de experiência. Trata-se de uma abordagem ainda muito nova no campo da saúde brasileira, necessitando de maior incentivo tanto na qualificação de profissionais para facilitação de tais grupos, quanto na produção técnica e científica destes grupos dentro da realidade do SUS. Como afirmamos na introdução, a OMS tem incentivado ações como essa, propondo uma saúde mental mais centrada na liberdade, na autonomia, na garantia de direitos e na vida como ela é: com dores e alegrias, pulsante e complexa.
Saúde Mental, Ouvidores de Vozes, CAPS, Cuidado
GABRIEL PAVANI BRANDINO