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Cuidar em liberdade é atuar no viés da desinstitucionalização, no compromisso da reforma psiquiátrica, e na manutenção dos princípios da clínica ampliada. A capoeira, quando integrada ao contexto terapêutico e à cultura brasileira, torna-se um poderoso recurso de cuidado. A comunicação se apresenta, conduzida ao som de tambores, palmas, corpos e vozes, onde o corpo – oralidade se revela como método de preservação da identidade étnica, dos valores e saberes ancestrais, combinando música, canto e movimento. Através da capoeira, desenvolvem-se habilidades como espontaneidade, expressividade, resistência, prontidão e improviso, promovendo interação, socialização e fortalecimento de vínculos. Desde 2001, a capoeira é uma atividade presente no CAPS AD III de Jundiaí – SP, inicialmente com a participação somente dos usuários deste equipamento. Devido a diversos motivos, entre eles a pandemia de COVID-19, durante um período, foi necessária a interrupção desta oficina. Em novembro de 2023, houve a retomada dos encontros, porém, com a proposta de uma oficina aberta à Rede de Atenção Psicossocial de Jundiaí (RAPS).
– Promover, por intermédio da capoeira, encontros e trocas intergeracionais, solidariedade, empatia, pertencimento, protagonismo, habilidades psicomotoras, musicalidade, conexão e valorização com a cultura popular e da ancestralidade; – Fortalecer e aproximar usuários, familiares e profissionais de diferentes serviços da RAPS; – Promover a ampliação de redes de suporte.
Um grupo de trabalhadores da RAPS, com o desejo de impulsionar e retomar a Oficina de Capoeira com história e percurso no CAPS AD, se organizaram, avaliando a importância de ampliar esta potente atividade para demais usuários da RAPS. Inicialmente, foi pensando em realizar os encontros numa casa de cultura da cidade (Instituto Iê Aruande), mas não houve a participação esperada. Foi, então, identificado, que faria sentido retomar a oficina desde seu local inicial (CAPS AD), sendo pactuados os dias possíveis que facilitasse a participação livre e aberta. Assim, uma vez por semana, esta roda se concretiza ao som de tambores, palmas, cantos e movimentos que dialogam, no apoio de um com o outro, para fluir o movimento mesmo dentro das limitações que cada um possa apresentar. Moradores das residências terapêuticas, usuários do CAPS AD, familiares, pessoas que passam na calçada são atraídos para o encontro.
Os encontros resultaram em interações intergeracionais e maior solidariedade entre participantes com diferentes perfis e limitações. Neste sentido, a capoeira se tornou mais que uma prática corporal, tornou-se uma aliada significativa na promoção da saúde. Dentre os principais resultados, destacam-se: o incentivo às trocas intergeracionais, a solidariedade, o acolhimento dos residentes das Residências Terapêuticas desde sua chegada, a ampliação do convívio social e a criação de um ambiente permeado por trocas significativas. Além disso, em celebrações, como almoços coletivos, tais como uma feijoada, como símbolo da miscigenação, planejada no decorrer das oficinas como uma potente ação, além das celebrações dos aniversários, onde são reforçados o senso de pertencimento e se favorece a construção de um espaço de aceitação e empoderamento, ampliando as possibilidades para pessoas em processos contínuos de reconstrução pessoal e social.
A proposta da integração entre usuários da RAPS com diferentes perfis e histórias, por meio da capoeira, tem representado contribuições importantes para o coletivo, que se evidencia através da alegria e sorrisos, na esperança e no aguardo de um novo encontro. Atualmente, seguimos fortalecendo todos os usuários, e planejando ações de retomada no espaço cultural da Iê Aruandê, além de outros locais da RAPS, ampliando redes de suporte.
Reabilitação psicossocial, práticas corporais
ILSON SILVA SANTOS, CAMILA COVAS RIBEIRO, ADRIANA CARVALHO PINTO, MARIA RAQUEL KUBITZA VALENTE SANTOS