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A adolescência é uma fase marcada por mudanças físicas e psicossociais, um período de abandono da identidade infantil e da estruturação de uma personalidade que adota uma nova relação com o mundo adulto. Tal processo pode acarretar conflitos, instabilidades, questionamentos e sofrimentos psíquicos. Diante disso, nos últimos anos, a saúde mental da criança e do adolescente tem abandonado abordagens reducionistas, centradas na doença e na institucionalização para abraçar um novo paradigma; o qual, valoriza o desenvolvimento de habilidades e potencialidades para lidar com as tensões cotidianas, ao passo que proporciona liberdade geográfica, autonomia e oportunidade de contribuição para a comunidade. Nesse sentido,essa experiência se justifica pela importância de perpetuar um modelo de cuidado que fortalece as potencialidades dos usuários , favorecendo sua integração na sociedade e garantindo acesso a espaços anteriormente inacessíveis devido a estigmas relacionados à saúde mental ou à vulnerabilidade.
Proporcionar construção e implementação de atividade terapêutica externa ao espaço físico do CAPSij. Permitir a troca de experiências que contribuam para a autonomia, autoconfiança, autoestima e senso de pertencimento.
Visando que os adolescentes exerçam protagonismo sobre o seu processo saúde-doença e aspiram novos sonhos e perspectivas, o CAPS IJ possui o dispositivo “Assembleia”, voltado à participação social do usuário e à democratização do cuidado. Neste dispositivo, semanalmente os usuários, familiares e profissionais se reúnem para opinar, refletir e sugerir atividades no CAPS. Em um desses encontros, sete adolescentes deliberaram sobre o desejo de conhecer pela primeira vez a praia de Santos – SP em conjunto com os profissionais do serviço. Ao longo de um mês a equipe construiu com os adolescentes um caminho para concretizar a viagem; os adolescentes,diante disso, se implicaram no sentido de decidir o roteiro, a alimentação, os horários e os combinados em grupo. De modo conjunto com os adolescentes realizamos uma pesquisa sobre os pontos turísticos de Santos com o intuito de enriquecer a experiência. Nesse sentido, foi escolhido e articulado com o Aquário Municipal de Santos uma visita gratuita para receber o grupo. Além disso, os familiares apoiaram o processo e estavam entusiasmados a respeito da viagem dos adolescentes, considerando que para alguns deles era a primeira vez que um membro da família teria essa oportunidade.
Quando o dia do passeio chegou, muitos chegaram mais cedo e ajudaram trazendo alimentos para compartilhar. Durante o trajeto eles demonstraram empolgação e fizeram várias perguntas sobre o mar e a cidade de Santos. Contudo, a van foi parada em uma fiscalização, pois precisava de uma autorização para circular fora da cidade. Os adolescentes aguardaram por 40 minutos enquanto os profissionais resolviam a situação. Alguns relataram ansiedade, enquanto outros tentavam amenizar com brincadeiras. Após a liberação, um dos usuários comentou sobre a emoção da viagem. Chegando em Santos, a primeira parada foi no Aquário Municipal, onde exploraram a fauna marinha, fotografaram e interagiram com os visitantes. Depois, seguiram para a orla da praia, montaram barracas e almoçaram na areia. Alguns estavam ansiosos para entrar no mar, e após se refrescarem, fizeram perguntas sobre a salinidade e se encantaram com os barcos. Profissionais também entraram no mar, e um deles ensinou a nadar. Durante o passeio, todos respeitaram os combinados e ajudaram uns aos outros. Um adolescente com dificuldades de mobilidade recebeu auxílio dos colegas para caminhar pela orla. No retorno, um dos adolescentes declarou: “Esse é o melhor dia da minha vida” (sic) e a alegria foi visível; aqueles com mais dificuldades de socialização estavam brincando uns com os outros ou compartilhando sobre suas experiências vividas naquele dia.
Quando as impressões dos profissionais que participaram dessa ação foram compartilhadas, outros membros da equipe multiprofissional se motivaram a propor novos passeios para praia e com seus grupos terapêuticos ou de referência. Por fim, ao ser pedido uma devolutiva desse grupo na assembleia sobre o passeio, além de muitos elogios, os participantes começaram a juntos se perguntar e elaborar formas de ir a praia sem o auxílio do Capsij, e juntos verificaram a rota de ônibus e de trem, assim como relataram que desejarão ir em breve com seus pais e familiares. Conclui-se que tal experiência proporcionou transformação nos adolescentes, atuando como agentes ativos e corresponsáveis no seu processo de cuidado. Nesse sentido, estimula-se que os atores de saúde mental construam intervenções que rompam com a reclusão em espaços institucionais e proponham a inclusão nos vínculos sociais.
Criança Adolescente CAPS Reabilitação psicossocial
FABIANNE GAMA DE SOUZA