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Antes de iniciarmos a reflexão acerca da experiência do grupo de empregabilidade, contextualizaremos o motivo de seu nome. O saudoso Cláudio Godoy Cintra, usuário do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), compreendia o espaço do grupo como instrumento para acesso ao mundo do trabalho, categoria essa fundamental para o seu projeto de vida. De forma assídua e sistemática, estava em todos os encontros e incansavelmente se esforçava, mesmo com suas particularidades, para acessar os espaços de atenção ao trabalhador. Infelizmente, Cláudio nos deixou em meados de 2024 sem ter alcançado o objetivo de acessar o trabalho formal, muitas vezes negado pela sua condição de saúde mental. Sendo assim, entendemos a importância de homenageá-lo atribuindo seu nome a esse espaço que foi tão importante em sua vida. Considerando a categoria trabalho como ação vital na produção e reprodução da vida material e nas palavras de Antunes (2013) condição básica e fundamental de toda vida humana (…) em tal grau que o trabalho criou o próprio homem e também um direito social de todos, por vezes negado ou dificultado o acesso aos cidadãos acometidos por transtornos mentais, entendemos a relevância de abordar e incluir o tema de forma sistemática nas propostas de reabilitação psicossocial. Portanto, faz-se importante o espaço do grupo para coletivamente refletirmos sobre o universo do trabalho, seus dilemas e possibilidades, e assim criarmos estratégias para lidar com conflitos expressos no cotidiano.
Objetivos Gerais: Trabalhar a amplitude da categoria trabalho e a centralidade na vida humana; Conscientizar acerca do trabalho como meio de realização pessoal e direito constitucional garantido a todos os cidadãos brasileiros; Apoiar no processo de retorno ao mercado de trabalho, bem como mediar possíveis situações de fragilidades que se apresentem nesta etapa; Colaborar para a superação das possíveis dificuldades e conflitos que se apresentem no posto de trabalho e assim contribuir para a sustentação da vaga. Objetivos específicos: Organizar e mediar o processo de concessão de laudo médico para vaga de pessoa com deficiência (PCD), caso seja solicitado pelo usuário; Encaminhar para o espaço de atenção ao trabalhador do município (Jundiaí Empreendedora); Manter constante diálogo e articulação com as respectivas referências técnicas dos usuários, considerando suas particularidades e o Projeto Terapêutico Singular (PTS).
O grupo acontece quinzenalmente no CAPS II do município de Jundiaí-SP, e é aberto a todos que tenham questões relacionadas ao universo do trabalho. A mediação é feita pelos assistentes sociais, e a dinâmica do grupo é a roda de conversa, o que tem proporcionado troca de experiências das vidas profissionais dos usuários e enriquecimento importante, visto a pluralidade em relação às experiências compartilhadas no grupo. Por meio do espaço grupal conseguimos propiciar um momento de acolhimento, segurança e expressão dos anseios, medos, desafios, expectativas, objetivos e potencialidades. Através da fala dos participantes e da escuta ativa dos profissionais condutores, coletivamente nos aprofundamos nas complexidades das relações de trabalho, as contradições que se apresentam no cotidiano dos usuários na busca pelo acesso ao emprego e assim ampliamos a discussão no sentido da superação dos limites que se expressam. A roda de conversa proporciona interessante relação de troca entre participantes, que por vezes se apresentam tímidos, mas ao ouvir outras experiências, abrem-se trazendo histórias de vida e expectativas quanto ao seu futuro profissional, contribuindo para a dinâmica do grupo. O ambiente não formal que a roda traz tem sido agente importante no processo de condução do grupo e resultados apresentados ao longo do tempo. O caráter de conversa facilita a interação entre os participantes promovendo um ambiente de igualdade entre o coletivo (participantes e mediadores).
É perceptível ao longo do processo de cuidado dos usuários a demanda pelo acesso ao mundo do trabalho, e assim a garantia de seu sustento, bem como a sensação de exclusão em processos seletivos por serem usuários do CAPS. Outras questões evidentes na dinâmica grupal são as experiências negativas em trabalhos anteriores, algo que, em grande parte das vezes, gera importante ansiedade quanto ao futuro acesso ao mundo do trabalho. Ao longo do período de atividade do grupo foi perceptível o quanto ainda precisamos avançar em alguns aspectos importantes, sobretudo em políticas públicas que olhem as particularidades das pessoas usuárias do CAPS e suas demandas. O espaço proporcionado tem sido terreno fértil na expressão dos dilemas no acesso ao direito social fundamental que é o trabalho. Mas para além das dificuldades, temos observado resultados positivos, pois avançamos no aprofundamento das questões do cotidiano e assim produzimos discussões importantes sobre como lidar com adversidades. Para além das propostas reflexiva e propositiva, há também avanços práticos na relação com o espaço ao trabalhador (Jundiaí Empreendedora) com o qual estamos em constante articulação, pensando em como melhorar o acesso dos usuários ao equipamento. Também avançamos no sentido de direcionarmos ao Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) aqueles que tenham necessidade de adquirir o laudo PCD, documento este indispensável na garantia de um espaço sócio ocupacional seguro e protegido.
É indispensável pensarmos o trabalho no processo da reabilitação psicossocial, considerando a relevância da categoria, sua importância na manutenção da vida material e espaço de novas sociabilidades. Conseguimos alguns avanços importantes, proporcionando aos nossos usuários espaço de atenção às questões do trabalho e acesso a instrumentos fundamentais para viabilização da vaga de emprego. O grupo de empregabilidade segue como agente fundamental na construção de mediações efetivas para a superação das barreiras reais apresentadas na busca pelo acesso ao direito fundamental que é o trabalho. Sendo assim, seguimos com o desafio de, criativamente, construirmos estratégias de fortalecimento dos usuários na busca por uma maior autonomia.
Saúde Mental, Trabalho, Direito
FREDERICO DE GODOI DA CRUZ, VIVIANE BORDIN