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Falar sobre racismo é desafiador, especialmente quando se trata de seu impacto na vida e saúde mental de crianças e adolescentes. Como profissionais de saúde, estamos oferecendo os espaços necessários para que esses jovens expressem suas vivências e elaborem seus sofrimentos, principalmente os causados pelo racismo? Essas questões têm sido debatidas no CAPS IJ Ermelino Matarazzo, onde buscamos estratégias para abordar as relações étnico-raciais com o público infantojuvenil. Nosso envolvimento no coletivo “Kilombrasa” em 2022 intensificou essa reflexão. O grupo reúne trabalhadores da saúde mental e outros profissionais da rede intersetorial da zona norte para fortalecer o letramento racial. A ideia se expandiu para outros quilombos, como o “Kilomboleste” na zona Leste, onde mensalmente discutimos os efeitos do racismo nas vidas de todos. Em parceria com o CAPS IJ, realizamos atividades afrorreferenciadas no Kilomboleste, como oficinas e rodas de conversa, além de implementar o questionário de autodeclaração (raça/cor) para aprimorar os cuidados aos usuários. Essas experiências nos levaram a refletir sobre o cuidado oferecido a crianças e adolescentes negros, indígenas e imigrantes. Acreditamos ser essencial valorizar saberes tradicionais e reconhecer espaços como o CAPS como locais de resgate, dado o contexto afroindígena de nosso território. Assim surgiu o Projeto Kilombinho, focado na desracialização das práticas de cuidado.
Considerar o CAPS IJ como um lugar de enfrentamento ao racismo promovendo nos espaços do território de Ermelino Matarazzo a valorização da diversidade cultural por meio das brincadeiras e atividades afrorreferenciadas, incentivando para que crianças e adolescentes expressem suas opiniões e sentimentos, conectando-se com suas histórias, suas origens, ancestralidades e o mundo em sua volta que começa dentro de si e interage com o outro, fortalecendo para a autoestima e a sua identidade.
O Projeto Kilombinho é uma iniciativa lúdica e coletiva que utiliza materiais afrorreferenciados para promover encontros nos espaços de saúde de Ermelino Matarazzo. Profissionais do CAPS IJ percorrem as 12 UBSs do território para realizar atividades de matriciamento. O projeto funciona de forma convidativa e imaginativa, com uma mala itinerante que leva livros infantis, bonecas negras, tecidos e outros materiais, criando um espaço de alegria e encantamento para crianças e adolescentes. A atividade dura de 1 a 1h30, dependendo do público, e é planejada de acordo com as necessidades da UBS e do território. O foco é promover práticas ancestrais de cuidado e autoidentificação por meio de contação de histórias, música, dança, brincadeiras, jogos e artes, criando um ambiente lúdico e aquilombado.
Nosso primeiro encontro ocorreu no CAPS IJ em julho de 2024, em homenagem ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Durante o mês, realizamos atividades com as famílias e a comunidade, inaugurando o Projeto Kilombinho. O dia contou com contação de histórias, exposição de alimentos afrorreferenciados e ciranda com cantigas de roda, resgatando memórias afetivas. O projeto se desenvolveu ao longo do mês com reuniões, rodas de conversa e atividades em equipe. Realizamos oficinas de construção de bonecas Abayomis, artesanatos, exibição de filmes e uma visita ao Museu Afro Brasil. Nos meses seguintes, o projeto continuou nas UBSs do território, alcançando um grande número de participantes. Cada encontro começa com roda de apresentação, autodeclaração, dinâmicas e brincadeiras. Todos contribuem, com destaque para a participação dos responsáveis, que se emocionam ao relembrar sua infância e compartilhar histórias com filhos e netos. Percebemos que muitos participantes, principalmente adultos, não sabem se identificar segundo a classificação étnico-racial do IBGE. O Kilombinho também contribui para essa reflexão. Para o público infantojuvenil, é um espaço de imaginação, aprendizado, afetividade e autoconhecimento. O projeto tem cumprido seus objetivos, promovendo reflexão sobre racialidade e racismo, permitindo que os participantes se reconheçam e fortaleçam sua saúde mental em um contexto de vulnerabilidade social.
O Projeto Kilombinho é, sem dúvida, uma iniciativa transformadora. Ao buscar fortalecer a identidade negra e proporcionar um espaço seguro de acolhimento, ele não só combate o racismo estrutural, mas também promove a liberdade e a autoestima de jovens negros, permitindo que eles se vejam como protagonistas de suas próprias histórias. A ideia de aquilombamento traz uma potência comunitária, resgatando a força das tradições africanas e criando um ambiente em que os participantes possam se fortalecer juntos, aprender, e, ao mesmo tempo, desafiar as limitações impostas pela sociedade. Além disso, ao focar em educação, cultura e resistência, o Kilombinho contribui para a criação de novas perspectivas, abrindo caminho para que as futuras gerações possam se engajar ativamente na luta por igualdade e justiça. A combinação de apoio emocional e intelectual oferece às crianças e adolescentes negros um alicerce sólido para sonharem e se realizarem, ao mesmo tempo em que preservam e valorizam suas raízes culturais. Que outros projetos semelhantes possam surgir, inspirados pelo Kilombinho, para que o processo de construção de um mundo mais justo e inclusivo continue a ganhar força!
KILOMBINHO, AFRORREFERENCIADA, COMUNITÁRIA
FABIANA DA SILVA GALDINO