Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
No ano em que a Lei nº 10.216 fez seus 22 anos, o município de Teodoro Sampaio deu um passo à frente no cuidado voltado aos transtornos mentais. Mais precisamente em 15 de maio de 2023, foi inaugurado na cidade o CAPSI para ampliar a oferta em políticas públicas de saúde mental para a população, buscando garantir mais qualidade de vida e menos institucionalizações. O trabalho que segue contará sobre o processo de implantação do CAPS desde sua inauguração até os dias atuais, seus desafios e potencialidades. Iniciar um serviço novo, com um conceito diferente dos costumes das pessoas sobre acompanhamento em saúde mental com certeza vai além do atendimento ao público. A escolha por contar essa experiência vem para mostrar que é possível, mesmo com pouco tempo de serviço, a implantação de um equipamento de saúde que coloque em prática o que a Luta Antimanicomial preconiza, um modelo que não centraliza todo o cuidado no âmbito médico, mas sim no âmbito do cuidado e do vínculo com seu público. É sabido que ainda há um longo caminho a ser percorrido e que as lutas são diárias, porém o objetivo será sempre o mesmo: o acompanhamento humanizado e de respeito que traga de volta a essa população que outrora foi tão estigmatizada a realidade da inclusão bem longe das internações psiquiátricas.
Objetivo geral: •Evidenciar a eficácia e evolução da organização da rede de atenção psicossocial através da implantação do CAPSI no município de Teodoro Sampaio. Objetivos específicos: •Levantar dificuldades e desafios para a implantação do CAPSI •Mostrar o caminho trilhado da inauguração do equipamento de saúde até o momento atual •Falar sobre os frutos colhidos com o trabalho voltado para a humanização da saúde mental
A implantação do serviço iniciou-se com os primeiros contatos da equipe multidisciplinar (enfermeira, médico, psicóloga, técnicas de enfermagem, fisioterapeuta e assistente social) com conteúdos sobre o funcionamento dos CAPSI e a dinâmica das unidades através de pesquisas de artigos e cartilhas online. Também foram realizadas visitas a outros Centros de Atenção Psicossociais já implantados que pudessem dividir suas experiências. Sendo assim, a primeira ação realizada foi o matriciamento com os diversos dispositivos da rede municipal que pudessem se vincular ao CAPS. Nesse momento, foi solicitado que as equipes da estratégia de saúde da família fizessem um levantamento acerca da população que poderia ser beneficiada pelo acompanhamento no serviço. Foi realizado o acolhimento dos pacientes levantados pelas equipes e também de demandas espontâneas. Na sequência, foram iniciados os grupos para atendimento coletivo e semanal dos pacientes em acompanhamento. Conforme novos desafios e situações surgiram novos aprendizados e mudanças na forma de trabalho também foram explorados. Atualmente, a unidade não conta com uma rotina de consultas semelhante ao modelo ambulatorial, sendo que os profissionais da equipe acompanham os pacientes dentro da rotina de grupos e atividades. São realizadas reuniões semanais nas quais a equipe discute os casos novos e revê casos em atendimento caso seja necessário. Reuniões de matriciamento e vinculação com a rede são realizadas frequentemente.
Pensando na experiência da construção de um serviço novo, pode-se dizer que os resultados foram positivos. Porém, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Como desafio, é possível destacar a falta de informação da população sobre as temáticas de saúde mental e a ideia enraizada que a primeira solução para um transtorno mental é a internação. Outra dificuldade encontrada é a compreensão das equipes da atenção básica acerca do funcionamento e dinâmica da unidade, percebendo que estes ainda tem o foco em atendimento médico de urgência. Um ponto positivo que pode ser destacado é a boa vinculação atual do CAPS com o Hospital Regional de Teodoro Sampaio, fato que colabora para estabilização de pacientes quando necessário e levantamento de novas demandas de acompanhamento que se deparam inicialmente com o ambiente hospitalar devido urgência. Neste item também merece destaque a visão atual do Ministério Público sobre internações, que devem ser realizadas após esgotamento de alternativas, colaborando para o trabalho da unidade. Devido aos fatos citados acima e a ação do CAPS em situações de crise fica evidente uma diminuição de internações psiquiátricas desde a inauguração do serviço, o que vem de encontro com as prioridades da Reforma Psiquiátrica, visando os direitos das pessoas com transtornos mentais.
Após 17 meses da experiência citada, fica claro que a luta por um tratamento digno e não excludente das pessoas com transtornos mentais é uma luta diária. E nosso trabalho enquanto equipe é buscar uma fonte inesgotável de possibilidades entendendo que falamos de seres humanos e histórias de vida. Os frutos colhidos nestes menos de dois anos de trabalho são gratificantes e o vínculo com os pacientes traz a esperança de que um dia todos os enxerguem como nós enxergamos, como todos os seus potenciais. Pensando que o destacado como dificuldade atual pode ter solução nas ações diárias de conscientização e matriciamento, devemos trabalhar com essas ações e iniciativas buscando sempre a melhoria. Certa vez, em uma reunião, ouvi a seguinte frase: “rede é insistência”. E não é que é mesmo?
CAPS, experiência, Reforma Psiquiátrica
MARIANA GUIOMAR PIPER NOSSE