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A saúde mental infantil é um tema de crescente preocupação, especialmente para os familiares que enfrentam desafios no manejo de comportamentos e emoções de seus filhos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que aproximadamente 10% das crianças e adolescentes em todo o mundo sofrem de algum transtorno mental, sendo que metade dos transtornos mentais começam antes dos 14 anos de idade. Estima-se que 20% das crianças brasileiras apresentam sinais de sofrimento psíquico, reforçando a necessidade de ações de suporte às famílias. Diante dessa necessidade, a realização de grupos de familiares surgiu como uma estratégia de apoio, compartilhamento de experiências e fortalecimento do vínculo familiar. A pandemia de COVID-19 agravou significativamente os quadros de saúde mental infantil. O isolamento social, a perda de pessoas queridas, a interrupção das atividades escolares presenciais, a falta de convívio social e a incerteza em relação ao futuro geraram um aumento expressivo dos casos de ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais entre crianças e adolescentes. As famílias pais também foram sobrecarregados com novas responsabilidades, como o acompanhamento das aulas remotas e a adaptação a uma nova rotina doméstica, potencializando o estresse e a dificuldade em lidar com os desafios emocionais dos filhos e manejo de seus comportamentos. O impacto desse período reforçou ainda mais a necessidade de espaços de escuta e acolhimento, como o grupo de familiares.
Os grupos foram desenvolvidos com os seguintes objetivos: Promover um espaço de escuta, acolhimento e troca de experiências entre os familiares; Oferecer informações sobre saúde mental infantil e estratégias de manejo e cuidado comportamental; Fortalecer a rede de apoio entre as famílias; Favorecer a comunicação e o vínculo familiar.
Os grupos são realizados no CAPS IJ, contando com a participação de familiares de crianças em atendimento. Os encontros ocorreram quinzenalmente, com duração de uma hora, concomitantemente com o grupo de atendimento da criança/adolescente, em formato presencial. A condução é feita pela equipe multidisciplinar. As reuniões são estruturadas em três momentos principais: acolhimento, apresentação do assunto conforme interesse, discussão orientada e fechamento com reflexões e encaminhamentos quando necessário. São utilizadas dinâmicas de grupo, textos e materiais audiovisuais para facilitar a compreensão dos conteúdos e estimular a participação das famílias.
Foram implantados no ano de 2024 sete grupos de familiares. Os encontros permitiram a expressão das dificuldades e conquistas, promovendo um ambiente de suporte mútuo. Observou-se uma maior compreensão sobre a saúde mental infantojuvenil e um aprimoramento na comunicação entre responsáveis e crianças/ adolescentes. Os participantes relataram melhorias na forma de lidar com as dificuldades cotidianas, maior confiança na condução da educação das crianças/ adolescentes. A rede de apoio formada pelos grupos foi um aspecto relevante do trabalho. Familiares que anteriormente se sentiam sozinhos ao lidar com os desafios da saúde mental das crianças/adolescentes passaram a contar com um espaço seguro para compartilhar preocupações, trocar experiências e buscar auxílio. Esse suporte mútuo contribuiu para a construção de estratégias coletivas e para o fortalecimento da confiança dos participantes em seu papel parental. Foi possível observar o impacto emocional significativo que o cuidado contínuo de uma criança/ adolescente com dificuldades de saúde mental pode ter sobre os responsáveis. Muitos relataram sintomas de estresse, ansiedade e exaustão emocional, demonstrando a necessidade de suporte para a família. A desproteção social das famílias também foi um aspecto relevante identificado nos encontros. Muitas delas enfrentam dificuldades financeiras, falta de acesso a serviços de saúde e educação adequados, além da ausência de uma rede de apoio comunitária eficiente.
A realização dos grupos de familiares demonstraram ser uma estratégia eficaz para o fortalecimento da rede de apoio e promoção de conhecimento sobre a saúde mental infantojuvenil. O compartilhamento de vivências e a orientação profissional favoreceram mudanças significativas no cotidiano das famílias, reforçando a importância da manutenção e ampliação desse tipo de intervenção. Não são todos os familiares que acompanham seus filhos aos atendimentos, alguns adolescentes comparecem sozinhos, com justificativa dos responsáveis estarem trabalhando, sendo uma dificuldade encontrada pela equipe na orientação aos mesmos. Deste modo, entendemos que a incorporação de novas tecnologias e estratégias digitais além de otimizar o acesso da população a serviços de saúde mental, facilitariam desde o agendamento de consultas até o atendimento remoto com profissionais especializados. A criação de plataformas de orientação e grupos virtuais podem complementar o suporte presencial, garantindo continuidade no acompanhamento das famílias e ampliando significativamente o impacto positivo dos serviços de saúde mental infantil.
Acolhimento, grupo familiares, infantojuvenil
JULIENE PATRICIA ANTONIO, RENATA CAMPOS PAGANO, JOCIELLEN FERNANDA GOIA DE SOUZA