Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
Este relato traz sobre a estratégia construída pela equipe do CAPS II AD do município de Embu das Artes (SP) diante da identificação de uma dinâmica que se repetia nos dias próximos ao fim de semana. Essa repetição girava em torno do aumento de familiares pedindo apoio ou internações nas sextas-feiras, além da diminuição da presença de usuários no serviço. Outro ponto identificado era a diminuição do interesse nas atividades ofertadas na sexta-feira. Contrastando com essa realidade apresentada, às segundas-feiras foi percebido outra dinâmica: grande agitação na unidade de serviço, aumento de episódios de crise, a necessidade de encaminhamentos para serviços de emergência com mais intensidade.
A estratégia teve como objetivo acolher, educar, preparar e ressignificar de forma coletiva as vivências que individualmente os usuários têm nos períodos que estão em família e no território, que reverberam no espaço cotidiano do equipamento e enfraquecem a trilha do cuidado do uso abusivo de substância tanto para o usuário quanto para familiares
A equipe do CAPS AD Embu das Artes criou dois grupos como estratégia de intervenção: o grupo “Depois de Ontem” e o grupo “Esquenta”. O primeiro, realizado às segundas-feiras, tem como objetivo trabalhar a retomada da semana e do cuidado após o final da semana. Com a proposta de um cuidado não proibicionista, o grupo aborda as experiências vividas pelos usuários, sem se concentrar na abstinência, e promove a discussão sobre os tipos e contextos de uso de substância. O foco é entender como o uso influencia a semana e refletir sobre o cuidado contínuo, independentemente do que ocorra. O segundo grupo, “Esquenta”, foi criado para abordar as inseguranças e ansiedades dos usuários em relação às interações familiares, sociais e à sua rotina. O nome foi escolhido pelos próprios usuários, representando a preparação para os próximos dias e o enfrentamento das vulnerabilidades emocionais, sociais e culturais que podem interferir no uso de substâncias. São discutidas estratégias de enfrentamento, lapsos e recaídas. Ambos os grupos seguem a orientação ética da Redução de Danos Emancipatória, focando na liberdade e no cuidado sem punições.
A equipe multidisciplinar do CAPS AD Embu das Artes observou que os usuários que incluíram um ou ambos os grupos em seus Projetos Terapêuticos Singulares experimentaram uma melhoria no cuidado e maior responsabilização, o que impactou positivamente suas relações familiares e redes de apoio. Houve uma mudança na percepção do uso de substância, vista como apenas um sintoma diante de outros aspectos da vida. Os familiares têm se distanciado de abordagens proibicionistas, percebendo a mudança nas atitudes de seus entes e sentem-se mais seguros em acompanhar o cuidado no serviço comunitário, sem recorrer à internação, mesmo em momentos de crises, lapsos ou recaídas. Os usuários que participam desses grupos demonstram maior protagonismo nas atividades propostas, buscando autonomia, autoconhecimento, trabalho e preparação para a alta. Além disso, usuários recém-chegados ao serviço relatam que a convivência com aqueles já em tratamento nesses espaços foi essencial para perceber que é possível “vencer” os finais de semanas. Os resultados evidenciam uma melhoria significativa nas relações familiares, promovendo um cuidado mais inclusivo e respeitoso, e a evolução nas atitudes dos usuários tem favorecido a adesão ao tratamento e a prevenção de novas crises
A implementação dos grupos “Depois de Ontem” e “Esquenta” declarou ser uma estratégia eficaz no cuidado de usuários de substâncias, oferecendo um espaço de reflexão e troca de experiências que valorizam a liberdade e a autonomia no processo terapêutico. Ao invés de focar unicamente em abordagens proibicionistas, os grupos promoveram a compreensão das experiências vívidas, o que permite aos usuários ressignificar suas ações e desenvolver estratégias para enfrentar situações Em resumo, a proposta de trabalhar com a vivência cotidiana dos usuários, ao invés de apenas focar na abstinência, tem gerado uma abordagem mais humanizada e eficaz, colaborando para a construção de um cuidado mais sustentável e menos estigmatizante. O cuidado em liberdade, fundamentado na ética da redução de danos, mostrou-se um caminho promissor para a melhoria da qualidade de vida dos usuários e de seus familiares.
Redução de Danos como estratégia
ANTONIELLA SANTOS VIEIRA, ANA LUIZA ANIBAL TEODORO, BARBARA BELLA URBAN, ROSIANE LEONEL DE CARVALHO NASCIMENTO, WAGNER DOUGLAS OLIVEIRA DOS SANTOS