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O contexto de trabalho com a reciclagem é permeado por múltiplos fatores socioeconômicos e sanitários, sendo necessário cuidado e atenção para atender cada demanda existente. Dentro da realidade dos recicladores no Brasil podemos observar extremas vulnerabilidades sociais, invisibilização e exclusão social, exposição a condições de insalubridade e demandas de saúde física e mental. A maior parte dos recicladores têm essa modalidade de ocupação como única fonte de geração de renda. Entretanto, indivíduos em sofrimento psíquico utilizam-se da reciclagem para aquisição de álcool e outras drogas ou para apego emocional, como em casos de transtorno de acumulação de objetos. Diante da realidade enfrentada no território, criou-se um grupo social no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS 3) do Munícipio de Jaboticabal, com o intuito de auxiliar e atender as necessidades básicas do público-alvo, uma vez que o equipamento está localizado em um território vulnerável, com uma quantidade significativa de famílias inseridas no contexto da reciclagem. Nas atividades são abordados temas voltados à promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos, garantia de direito, empoderamento e busca por autonomia. O trabalho em grupo busca romper com a estigmatização e a invisibilização da população em questão e melhorar as condições de vida e de trabalho, para que os recicladores possam desfrutar de uma rotina de vida saudável e sustentável.
O objetivo desse estudo é descrever o trabalho intersetorial realizado pelo Centro de Referência em Assistência Social (CRAS 3), em parceria com Laboratório de Saúde Única (LabSu) da FCAV/UNESP- Câmpus Jaboticabal, com o grupo de recicladores, tendo em vista que esses indivíduos possuem demandas que ultrapassam as possibilidades da assistência social e transcendem à saúde. O trabalho também tem como finalidade relatar a aproximação da rede socioassistencial ao setor saúde, expandindo o acesso dos usuários dentro da rede de Atenção Psicossocial, em prol da qualidade de vida e bem-estar físico, mental e social. Além disso, o grupo de recicladores busca construir e fortalecer vínculos familiares saudáveis, autonomia financeira e vida digna, bem como demonstrar a importância do trabalho dos recicladores à sociedade, minimizando estigmas e preconceitos.
O presente estudo é um relato de experiência com um grupo social que atende os catadores de reciclagem do território do CRAS 3 do Munícipio de Jaboticabal, visando expansão de suas potencialidades e melhorias na qualidade de vida. O grupo teve início em fevereiro de 2022, com ações voltadas à orientação, acolhimento, encaminhamentos, trocas de vivências e experiências, buscando o acesso a serviços públicos, garantindo a execução do trabalho de forma digna e expansiva. Inicialmente composto por assistente social e psicólogos do equipamento, o grupo firmou uma parceria com os médicos veterinários do LabSU em 2024, ampliando assim sua composição multiprofissional. Além disso, recebe apoio técnico de enfermeiros, psicólogos, médicos e agentes comunitários de saúde da Atenção Básica. No que tange ao local, as reuniões mensais são realizadas no salão de eventos do CRAS, de fácil acesso e ambiente conhecido dos participantes. Durante a vivência, os instrumentos utilizados foram visitas domiciliares, encaminhamentos dos recicladores e seus familiares aos serviços essenciais, articulação com a rede de saúde e educação, confecção de cartazes explicativos que foram colocados na entrada do equipamento, bem como, utilização de palestras ministradas por membros do LabSU e da Secretaria Municipal de Saúde. A atenção foi voltada na busca ativa dessa população, para angariar mais participantes ao grupo de recicladores, fazendo com que esse projeto beneficiasse mais famílias.
No início dos encontros compareciam cerca de 12 pessoas. Atualmente conta com 17 participantes ativos, sendo oito mulheres e nove homens, de diferentes faixas etárias. Alguns participantes têm a reciclagem como sua única fonte de renda, enquanto outros também contam com benefícios como BPC (Benefício de Prestação Continuada) ou aposentadoria. Entre os beneficiados, há os que acessaram esse direito mediante a participação em grupo. Os participantes recebem uma cesta básica de alimentos e cesta verde (verduras e afins) de forma mensal para complemento da renda, ambas fornecidas pelo equipamento (CRAS). Após a parceria com o LabSU, as reuniões em grupo resultaram em debates sobre saúde única, com o entendimento da reciclagem como promotora de cidadania e de preservação ambiental, sobre a importância dos EPIs para prevenção de acidentes, a disponibilidade de vacinas nas unidades de saúde e o manejo ambiental para controle de vetores e fauna sinantrópica. Os profissionais da Atenção Básica também levaram campanhas de conscientização como “setembro amarelo” e “outubro rosa”. Dentre os relatos obtidos pelos membros, foi possível observar que eles se sentem acolhidos e seguros. É notória a evolução dos membros, no que tange a autoestima e cuidado com a saúde física e mental, bem como é perceptível o fortalecimento de vínculos familiares e com a rede socioassistencial/saúde, visto a assiduidade dos participantes nos encontros e a vontade de expandir os limites expostos a eles.
Identificou-se fragilidades e potencialidades de cada reciclador, destacando a importância do trabalho em rede. A inserção de equipes de saúde no trabalho em grupo da assistência social, aproximou os recicladores aos serviços e unidades de saúde, contribuindo na prevenção de doenças e agravos. A experiência pode contribuir: 1) Articulação entre setores, eixo saúde-assistência social-meio ambiente, além de provocar ações que promovam a vida e a equidade, ampliando e qualificando a participação popular, protagonismo e autonomia — evitando, a segregação e a exclusão nas decisões e ações nos territórios 2) Ambiente mais saudável, seguro e justo, promovendo a melhoria das condições de vida e de trabalho dessas populações vulneráveis 3) Redução das desigualdades de acesso às ações e aos serviços dos diferentes setores e para a promoção da justiça social, ambiental, sanitária e cognitiva. É necessário atender o imediato de cada indivíduo, contudo é essencial olhar para a totalidade, visando suas progressões futuras. Vislumbra-se novas perspectivas pessoais e interpessoais, tendo como produto um documentário, material áudio-visual com vivências, saberes e práticas dos recicladores valorizando a atividade e seu impacto sócioambiental.
Recicladores, saúde, trabalho em rede
TAIANE DAVID BERTO, JÚLIA RABÊLO DE MAGALHÃES, MARIELA FONSECA TOSCANO, LUANA BONON, ANDRIELLY GONÇALVES SCHIMIT NUNES, BRUNA CAROLINA CANUTO, CAMILA ROBERTA GARAVELLO ACORSI, ROBERTA CRISTINA RODRIGUES, DIEGO CASSIO RAFAEL BRAULINO NOGUERA, KARINA PAES BÜRGER