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O Brasil é o terceiro país no mundo em número de acidentes ofídicos. Essa serpente popularmente chamada de cascavel, é robusta, pouco ágel e de hábito terrestre. Sua principal característica é a presença do chocalho na cauda. De ampla distribuição geográfica, as cascavéis são comumente encontradas em formações vegetais abertas, nas bordas das matas, nos campos e nas áreas secas e pedregosas dos biomas Cerrado, Caatinga e Campos Sulinos. No território paulista, verifica-se que a maioria dos acidentes crotálicos ocorrem nos meses do verão. Esse padrão de ocorrência pode ser explicado pelo aumento a exposição da população às serpentes, que, por sua vez, relaciona-se ao período de maior atividade dessa espécie devido ao aumento da temperatura e da pluviosidade. Embora, os acidentes crotálicos, representem uma pequena parcela (10%) dos acidentes ofídicos ocorridos no estado de São Paulo, o veneno dessa serpente é o único no Brasil capaz de produzir efeitos hemolíticos e neurotóxicos. Esses fatos, fazem com que os mesmos sejam considerados de maior relevância clinica devido à sua letalidade. Além disso, como essa espécie de serpente é sensível a grandes oscilações de temperatura, pouco se sabe sobre suas interações ecológicas em relação aos possíveis efeitos das mudanças climáticas. Portanto, conhecer os cenários futuros de ocorrência dessa serpente é fundamental para reduzir tanto os riscos de acidentes quanto os efeitos deletérios de sequelas e óbitos.
O objetivo desse trabalho foi o de mapear a distribuição geográfica atual e futura das serpentes do gênero Crotalus, com o intuito de determinar as possíveis áreas de risco, já que as atividades humanas e as mudanças climáticas podem ser determinantes na modificação da área de ocorrência e abundância dessa espécie.
O procedimento metodológico para a amostragem das serpentes do gênero Crotalus teve como base o Atlas das Serpentes Brasileiras. Inicialmente foram identificadas as coordenadas geográficas dos avistamentos dos espécimes de Crotalus durissus no Estado de São Paulo. Os dados climáticos foram obtidos no banco de dados WorldClim-Global. Os dados climáticos futuros foram agregados, utilizando o modelo climático MIROC5, onde fora escolhido o modelo de um cenário preditivo onde a temperatura global aumentará de 2,0ºC a 3,7ºC. Esses modelos foram projetados em dois períodos distintos, 2050 e 2100. Para identificar a distribuição biogeográfica da serpente Crotalus e prever cenários futuros, no Estado de São Paulo, foi utilizado o software Maxent. Esta ferramenta utiliza inteligência artificial para predizer sua provável distribuição no espaço geográfico, através da correlação entre a distribuição dos pontos de ocorrência no subespaço de condições de seu nicho ecológico. Assim, primeiramente foi realizada uma análise de Componentes Principais (PCA) para pré-selecionar as variáveis climáticas de maior influência na distribuição das serpentes. Após esse procedimento, foram construídos mapas com a probabilidade de ocorrência da serpente Crotalus durisius tanto para o cenário atual quanto para cenários futuros.
Através da PCA das variáveis climáticas foi possível identificar que: temperatura média, sazonalidade da temperatura, precipitação anual e precipitação no mês mais seco, foram as variáveis mais importantes na distribuição da Cascavel. A contribuição de cada variável no modelo foi: 52,4% para temperatura média, 29,9% para sazonalidade da temperatura, 14,3% para precipitação anual e 3,4% para precipitação no mês mais seco. De acordo com o mapa de distribuição das cascavéis, as mesmas estão concentradas nas regiões central e sudeste do estado de São Paulo, justamente onde se encontram as formações vegetais de cerrado e florestas mistas abertas. Os mapas de probabilidade para dois cenários futuros 2050 e 2100 revelam uma mudança progressiva nas áreas de distribuição desta serpente. A sua ocorrência diminui drasticamente na região central e passa a ficar mais restrita a região sudeste do estado paulista, principalmente no vale do rio Paraíba. Nossos resultados indicam que a distribuição desse gênero de serpentes será bastante afetada pelas mudanças climáticas, relacionadas, principalmente, com à temperatura e precipitação. As alterações na distribuição dessa serpente, podem levar a uma amplificação dos acidentes ofídicos de uma determinada área do estado de São Paulo, já que se espera que as zonas de co-ocorrência entre seres humanos e espécies venenosas também variem espacialmente e temporalmente.
A utilização das análises espaciais empregadas nesse trabalho, mostraram muito eficientes para determinar a evolução espaço temporal da ocorrência das cascavéis no estado de São Paulo. Assim, a quantificação dessas áreas de risco constitui em uma atividade fundamental para a qualificação dos profissionais de saúde. A reorganização da distribuição espacial desse gênero de serpente, pode proporcionar uma maior interação (contato) entre essa espécie e o ser humano o que amplifica a probabilidade da ocorrência dos acidentes na porção sudeste do território paulista. Embora o aporte dos insumos de soro crotálico, estejam bem homogêneos no estado de São Paulo. Os resultados apresentados aqui são de suma importância para qualificar as equipes assistenciais de saúde em relação ao reconhecimento dos quadros clínicos, a indicação da soroterapia adequada de acordo com as características da região geográfica de ocorrência dessa serpente. Estas premissas são fundamentais para a diminuição da letalidade e do número de pacientes sequelados em detrimentos aos efeitos deletérios do veneno crotálico.
Mudanças Climáticas, Crotalus, serpentes.
Thiago Salomão de Azevedo, Gisele Dias de Freitas