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Na gestão do trabalho em saúde indígena observou-se falta de treinamento para nortear o cuidado no município de Guarulhos. Segundo o último censo do IBGE (2022), o município conta com 1.649 indígenas, 17 etnias que se apresentam em dois contextos distintos, na prática da gestão do cuidado. O contexto urbano e a aldeia multiétnica localizada no bairro Cabuçu, com nove etnias distintas, vivem de forma próxima de suas origens, sem demarcação de terra ou reconhecimento da Secretaria Especial de Saúde Indígena. A saúde diferenciada preconizada na Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas requer a necessidade de superar as disparidades de saúde enfrentadas no país. A capacitação de profissionais da rede municipal é um passo essencial para abordar lacuna, garantindo que comunidades tenham acesso e respeito às suas tradições, valores culturais e contribua para a construção da primeira linha de cuidado para populações indígenas em contexto urbano. A capacitação foi discutida para profissionais ligados às unidades básicas de saúde (UBS), em conjunto com lideranças, Projeto Xingu e Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas ligados à Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. Esses núcleos são pioneiros na valorização da formação de profissionais de saúde (indígenas e não indígenas), interculturalidade, integralidade e intersetorialidade, com o intuito de desenvolver saberes tradicionais dos povos originários em relação ao saber biomédico hegemônico
Esse trabalho tem como objetivo capacitar os profissionais da rede municipal de saúde para melhor compreender, respeitar e atender às necessidades específicas das comunidades indígenas presentes no território. Assim como fornecer informações culturalmente sensíveis sobre as práticas de saúde indígena, crenças e desafios enfrentados pelas comunidades; promover a comunicação eficaz entre os profissionais de saúde e os pacientes indígenas, superando barreiras linguísticas e culturais; desenvolver estratégias de atendimento à saúde que respeitem e valorizem a diversidade cultural das comunidades indígenas; e fortalecer a parceria entre os profissionais de saúde e os líderes indígenas, envolvendo-os ativamente no processo de tomada de decisões.
Foi realizado um treinamento com a equipe de profissionais com duração de 40 horas, dividido em seis encontros presenciais a cada 15 dias com dois grupos (mínimo 15 pessoas e máximo de 30) de diferentes de profissionais vinculados a princípio as unidades básicas de saúde (UBS) : Cabuçu, Soberana, Marcos Freire, Vila Fátima e Morros, priorizando gerentes e profissionais ligados diretamente às equipes da atenção primária. No segundo semestre 2023 a capacitação foi estendida para a atenção secundária e terciária com foco nos profissionais envolvidos nos hospitais maternidade e Ambulatório de Especialidades Médicas. As atividades foram supervisionadas pelos coordenadores do Projeto Xingu, Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas, lideranças, subsecretaria da Igualdade Racial e a médica de referência da saúde indígena indígena no município. Os temas abordados foram fundamentais para o entendimento do modo de viver no contexto urbano, aspectos antropológicos, sociais, conhecer o perfil epidemiológico, contribuir para a linha de cuidado em construção, promover ferramentas de trabalho, discutir o preconceito nos atendimentos e realizar uma vivência desses profissionais na Aldeia Multiétnica filhos desta Terra de Guarulhos, UBS Real Parque, Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas e Projeto Xingu em São Paulo.
Em um dos encontros, foi solicitado a elaboração de uma pesquisa sobre indígenas presente nos espaços urbanos atendidos pelas unidades participantes, e o número superou as expectativas oficiais dos registros nas UBS. Mobilizando as equipes para recadastramento seguindo criteriosamente a autodeclaração (raça/cor). Outro ponto de atenção, foi a questão do sistema operacional disponibilizado pelo Ministério da Saúde E-SUS, utilizado em algumas unidades piloto (como na UBS Cabuçu) e o Sistema Inteligente de Serviços da Saúde SISS Online, plataformas para atendimento na saúde do município de Guarulhos. Onde a auto declaração e identificação por etnias, não contemplava o reconhecimento etnico dessa população. Uma proposta de adequação foi realizada oficialmente para a secretaria de saúde que aprovou o ajuste e adequação para todas as 17 etnias presentes no município. Uma nova capacitação foi acordada entre as entidades para expandir o número de profissionais sensibilizados nesse próximo semestre devido à grande procura dos participantes que indicaram a outros profissionais e pelo estimulo gerado pelos gerentes das UBS’s. E como ponto máximo observamos um aumento no número de atendimentos da população indígena no município e a formulação de políticas públicas.
A equidade na saúde é um objetivo que deve ser perseguido incansavelmente, e a capacitação em saúde indígena é um passo significativo nessa direção. Espera-se que esse modelo de capacitação realizado no município de Guarulhos seja replicado em todo o país como modelo no atendimento para população indígena em contexto urbano, ajudando a construir um sistema de saúde mais inclusivo e com respeito à saúde diferenciada. Construir redes de apoio com instituições de referência para o atendimento dos povos indígenas como Projeto Xingu e Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas fortalece o Sistema Único de Saúde e demonstra o compromisso da gestão de saúde em oferecer atendimento de qualidade e culturalmente sensível a esse grupo específico.
Capacitação; saúde indígena; SUS
Carla Rafaela Donegá, Rafael Nunes da Silva, Amanda Prado Mascari, Victória Abreu Gatto, Regiane Vieira Souza, Andrea Cristina Garcia, Mayara Rosangela Pedroso Silva, Rosamaria Rodrigues Garcia, Douglas Rodrigues