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A obesidade é uma doença complexa, de origem multifatorial com diversas etiologias envolvidas em seu surgimento, que podem ser de natureza individual, coletiva, social, econômica, cultural e ambiental. Trata-se de uma condição clínica que não está relacionada apenas a atitudes e comportamentos individuais, mas também ao envolvimento de importantes fatores de ordem genética. O Brasil está entre os países com os maiores índices de obesidade no mundo. Constatou-se que uma em cada cinco pessoas (22,4%) tem a doença, e mais da metade da população (57,2%) está acima do peso (Ministério da Saúde, 2022). O crescimento da obesidade confere grandes impactos para os sistemas de saúde, e essas consequências não se limitam aos custos econômicos. Entram nesse escopo, os custos sociais, como a diminuição da qualidade de vida, a perda de produtividade, a mortalidade precoce e os problemas relacionados às interações sociais. Cabe destacar os benefícios ao priorizar e investir num conjunto de estratégias de prevenção e instituição de linha de cuidado da obesidade para deter o avanço ou reduzir a prevalência da doença. Dentro dessa perspectiva, foi implantado, no ano de 2022, o Núcleo Especializado em Obesidade e Metabolismo do Município da Praia Grande- SP (NEOM-PG), fruto de um plano de trabalho elaborado por vários atores: gestores, técnicos e administrativos, da Secretaria de Saúde (SESAP), com olhares voltados à complexidade das demandas e necessidades de saúde da população.
Promover e desenvolver a linha do cuidado integral aos pacientes com obesidade e distúrbios metabólicos do Município da Estância Balneária de Praia Grande por meio de uma abordagem em equipe Interprofissional.
O primeiro passo, diga-se de passagem, grande desafio, foi estruturar a equipe Interdisciplinar para realização dos atendimentos ambulatoriais, composta por médico endocrinologista, nutricionista e psicólogo. Depois, organizar a estrutura física do local de atendimento, com equipamentos e adaptações apropriadas para o atendimento desse público. Para em seguida, construir o marco regulatório com elaboração de protocolos e fluxos que respondiam aos critérios, embasados pela equidade e transparência das filas inseridas no sistema de informação do município, como também, a sua aprovação nas várias instâncias, dentre elas, o Conselho Municipal de Saúde (COMUSA). A operação de um serviço dessa magnitude necessitou de um esforço muito grande do trabalho em rede, principalmente, no que tange à Educação Permanente e Continuada dos profissionais, sendo realizadas visitas às unidades de saúde e capacitações focais com o intuito de prepará-los melhor para o manejo das especificidades que envolviam esse novo serviço. Ressalta-se, a importância da implementação de instrumentos e ferramentas avaliativas, para além da dimensão do controle e monitoramento, mas com olhares voltados à clinica ampliada centrada na singularidade de cada caso, por meio da construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) e Trabalhos em Grupos (TG), incluindo o paciente como protagonista do processo saúde-doença.
Frente a uma demanda reprimida de alguns anos, estagnada, refém de poucas ofertas de referência e contra-referência, dependentes de outras entidades e instituições, no seu primeiro ano de implantação, o NEOM-PG realizou em torno de 100 primeiras consultas, com uma média de 8 a 10 mensais, fora retornos e TG, perfazendo uma redução em torno 40% da fila. Sobre os casos encaminhados à Cirurgia Bariátrica para o Hospital Guilherme Álvaro (HGA) por meio do Sistema de Regulação Estadual (SIRESP/CROSS), única referência, foram encaminhados uma média de 2 pacientes por mês, com todos os exames necessários prontos, seguindo os protocolos desse sistema. Importante ressaltar que os atendimentos são realizados no Centro de Especialidades Médicas Ambulatoriais e Sociais (CEMAS), do município da Praia Grande- SP, em um único período semanal, sextas-feiras pela manhã, devido as dificuldades das agendas dos profissionais estatutários da equipe que realizam outras atribuições no âmbito municipal. Contextualiza-se que, apesar da complexidade na operação desse serviço, o grande avanço se deu na desconstrução de paradigmas atrelados ao cuidado dessa população acometida por essa doença e das várias nuances que as envolve, principalmente, referentes aos Determinantes Sociais de Saúde (DSS).
A obesidade afeta a função psicossocial, já que indivíduos com obesidade são frequentemente expostos à desaprovação pública. Esse estigma é visto na educação, economia e saúde, entre outras áreas, sendo necessário, pois, um esforço conjunto de todos esses setores no enfrentamento dessa realidade. A obesidade adulta está associada a uma redução acentuada na expectativa de vida. Tem sido sugerido que o aumento constante da expectativa de vida observado nos últimos dois séculos pode terminar devido ao aumento da prevalência de obesidade, indo de encontro a todos os avanços tecnológicos da medicina moderna. Enfim, promover a linha de cuidado à obesidade e doenças metabólicas, bem como às condições relacionadas, representa um enorme impacto econômico aos sistemas de saúde, uma vez que possibilita a redução de gastos diretos com saúde e indiretos, como a perda de produtividade no trabalho e menor renda familiar.
Obesidade, Linhas de Cuidado, Protocolos
Eduardo Yabuta Silveira