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Com a Reforma Psiquiátrica de 2001 um novo olhar foi direcionado às políticas públicas de redução de danos no Brasil. Utilizando-se práticas psicossociais, são propostas abordagens que considerem o indivíduo na sua integralidade e não apenas na sua dependência em álcool e outras substâncias. Os fatores emocionais, familiares, financeiros e sociais estão fortemente envolvidos nessa situação e devem ser considerados relevantes pelas equipes que atuam na saúde pública. A luta que enfrentamos não é somente contra o vício das drogas, mas também contra o estigma social, preconceito, situações de vulnerabilidade (socioeconômica, emocional , psicológica). Portanto, é importante conhecermos, respeitarmos os direitos humanos que entre outras coisas garantem que todos sejam tratados com igualdade e respeito independente da relação da pessoa com o uso de drogas. É importante que a equipe procure entender todas as complexidades e polêmicas que envolvem o proibicionismo e a criminalização do uso. A redução de danos propõe a equipe promover uma visão humanizada e acolhedora ao paciente, seus familiares e a comunidade através da comunicação, empatia, troca de conhecimentos, experiência e informações com a responsabilidade de mostrar as pessoas a importância da sua participação na sociedade, dos cuidados com a saúde física e mental, prevenção de doenças e como conviver com os próximos, reduzindo danos e prejuízos acarretados pelo uso abusivo de álcool e ou substâncias psicoativas.
Relatar as experiências, perspectivas, impressões no período de oito meses, adquiridas com a participação dos profissionais nos grupos de Redução de Danos do CAPS AD Taboão da Serra, com o objetivo de reunir aprendizados que possam ser compartilhados com a equipe multiprofissional para aprimorar as ações visando o melhor atendimento a comunidade que utiliza os serviços.
O método consiste em reunir os relatos , percepções, experiências e expectativas dos mediadores responsáveis por dois grupos realizados em horários distintos (manhã e tarde) , uma vez por semana com duração de aproximadamente uma hora. Estabelecemos que a estratégia de grupo seria baseado no modelo de roda de conversa, com abordagem horizontal onde os temas seriam conduzidos conforme a demanda apresentada pelos pacientes e em momentos propícios incluímos temas relacionados com as ações de redução de danos utilizando roteiros e materiais fornecidos pelo Ministério da Saúde e instituições não governamentais, para debates e reflexões, sendo assim estimulando a troca de experiência entre todos os participantes, evitando a hierarquização do saber, como defendia Franco Basaglia. Para evitar o absenteísmo, já era adotada a prática da medicação supervisionada, onde o medicamento é liberado semanalmente somente após as reuniões.
Os grupos ocorreram todos os dias do período proposto, com a quantidade variável de 10 a 15 participantes todos do sexo masculino, com idades entre 20 e 65 anos; sobre o uso de álcool e substâncias também obtivemos variados perfis, personalidades distintas, participantes ativos e até formação de “lideranças”, relações de respeito tanto entre os participantes como para os mediadores. Houveram muitos momentos de apoio mútuo e aconselhamentos dos participantes que se encontravam mais estabilizados aos que apresentavam sérias recaídas. Muitas vezes a participação do profissional foi apenas dar a voz, permanecer em escuta ativa e regular o tempo de fala dos envolvidos, dado tamanha importância do discurso e necessidade de desabafo dos mesmos para relevância do tratamento. Em alguns momentos foi necessário chamar a atenção de alguns participantes, devido ao efeito uso de álcool e substâncias usadas antes da reunião, atrapalhando o curso das conversas e com isso propomos que os mesmos tentassem comparecer sem fazer o uso. Tivemos ótimos resultados visto que houve melhora na atenção. Nesse período tivemos poucas desistências, com alguns pacientes se ausentando devido ao início de um novo emprego e outros que partiram para a abstinência voluntaria, migrando para os grupos de prevenção de recaídas.
A redução de danos junto com a Reforma psiquiátrica nos convida para uma transformação de paradigmas. Discursos com conteúdos proibicionistas , punitivos, julgamentos de valores não cooperam com as etapas do tratamento, pois devemos considerar que cada pessoa tem o seu próprio tempo de resposta. Concluímos o grande beneficio para os profissionais das equipes multidisciplinares em trabalharem com o intercambio de saberes, atos de cuidado conjuntos e compartilhamento de conhecimentos, além de aprimorarmos a nossa escuta para um atendimento mais humanizado e acolhedor. Segundo Focualt, Existem momentos na vida em que a questão de saber se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou refletir.
capsad; Redução de Danos; Equipe Multiprofissional
Berta Lúcia Hira, Caroline Ferreira De Meo Maddalena De Almeida, Geiza Mascarenhas Santos, Eduardo Cezário Marciano, Sergio Ricardo Matias, José Alberto Tarifa Nogueira