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Este trabalho traz como experiência o grupo terapêutico “Clube de Jogadores” no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (CAPS IJ) de Santo Amaro – SP. Os CAPS surgem como estratégia da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para a efetivação da Reforma Psiquiátrica e um novo modelo de cuidado à pessoa com transtorno mental, sendo um espaço de cuidado em meio aberto e comunitário, perto da família e sociedade. Dentre as modalidades de CAPS existentes, o CAPS IJ atende crianças e adolescentes de 0 a 18 anos incompletos com intenso sofrimento psíquico e/ou transtornos mentais graves e persistentes, buscando a reinserção e reabilitação social, evitando assim internações hospitalares desnecessárias e institucionalizações. Hoje, um dos desafios enfrentados pelos CAPS IJ é a adesão do público adolescente, devido à própria natureza desafiadora desse período de transição e a falta de manejo das equipes, que são compostas por adultos, trazendo resistências na busca de ajuda e adesão nos projetos terapêuticos propostos. A estigmatização associada aos transtornos mentais ainda persiste, além disso, a falta de compreensão sobre a importância do cuidado mental na adolescência, tanto por parte dos próprios jovens quanto de seus familiares, pode ser um obstáculo. Portanto, é essencial desenvolver abordagens sensíveis, inclusivas e personalizadas, que levem em consideração as peculiaridades do público adolescente, visando promover uma adesão mais efetiva aos serviços de saúde mental.
O objetivo deste trabalho é relatar a utilização de jogos de tabuleiro (boardgame) no projeto terapêutico singular (PTS) de adolescentes, correlacionando o interesse em atividades de jogos e videogames típicos desta população com a adesão aos tratamentos no CAPS IJ.
Desde a antiguidade os jogos são utilizados como atividades lúdicas e de interação social. Dentre os campos culturais e científicos nos quais os jogos podem ser pesquisados, destaca-se o viés psicológico e, por isso, os jogos têm conquistado cada vez mais espaço como ferramentas de análise e contextualização, principalmente entre o público infanto-juvenil. Juntamente com esses fatores, a abordagem de grupo de jogos no CAPS IJ soma também na utilização da ferramenta como forma de adesão ao tratamento, visto que dialoga diretamente com o interesse e contexto social do grupo. Embora o maior acesso de costume seja através dos jogos virtuais, outras possibilidades de jogos, como os de tabuleiro, são opções viáveis de terapêutica. O grupo “Clube de Jogadores” é formado por adolescentes de 12 a 17 anos acompanhados no CAPS IJ e foram escolhidos jogos de tabuleiro que pudessem trabalhar a socialização, tomada de decisão, desenvolvimento cognitivo, estratégia e resolução de problemas, interação face a face – incentivando a comunicação, cooperação e expressão das emoções entre os participantes. Isso fortalece as habilidades sociais e a construção de relacionamentos, sendo essas dificuldades comuns no comportamento do público atendido. Também os jogos se tornam ferramenta de avaliação pelos terapeutas e de construção de vínculos, podendo contar com uma visão mais dinâmica e livre das potencialidades e vulnerabilidades dos usuários, favorecendo uma clínica menos engessada e tradicional.
Os resultados obtidos na aplicação dos jogos, como ferramenta de intervenção em grupo, apontaram que é possível uma maior adesão dos adolescentes no CAPS quando os mesmos encontram recursos que fazem parte de seu contexto de vida. Além disso, observou-se uma maior interação e construção de vínculos entre os participantes e a equipe. Ademais, foi relatado por alguns adolescentes que levaram a prática para o ambiente doméstico com os familiares, evitando o isolamento social e promovendo a reinserção dos vínculos por vezes fragilizados. Os jogos de tabuleiro se revelaram instrumentos para a expressão de emoções e pensamentos, proporcionando um ambiente seguro e descontraído para os jovens compartilharem experiências. Essa expressão mais livre contribuiu para uma análise mais aprofundada das dinâmicas grupais. Além disso, a introdução de jogos específicos, projetados para promover a cooperação e a resolução de conflitos, resultou em uma melhoria na habilidade de trabalhar em equipe e encontrar soluções conjuntas, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais, essenciais para a reabilitação psicossocial proposta pelo CAPS. Os jogos também se destacaram como ferramentas para abordar questões específicas, como ansiedade, autoestima e habilidades de enfrentamento. A natureza estruturada dos jogos permitiu uma exploração mais direcionada dessas temáticas, proporcionando aos profissionais de saúde mental uma visão mais clara das necessidades dos adolescentes.
Conclui-se que a implementação desses jogos de tabuleiro no manejo de grupo no CAPS Infantojuvenil demonstrou resultados exitosos, contribuindo para o fortalecimento das relações interpessoais, o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais, o processo de autonomia e reabilitação dos adolescentes atendidos. Essa abordagem lúdica mostra-se promissora como abordagem terapêutica em contrapartida às práticas terapêuticas convencionais, proporcionando um ambiente terapêutico mais inclusivo e participativo.
jogos, adolescente, lúdico, cuidado mental
Laís Ladeia Borborema da Rocha