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O município de Jundiaí, desde 2015, realiza apoio matricial às equipes da atenção básica. Durante as reuniões de matriciamento entre CAPS e UBS/NASF, foi observado o distanciamento dos usuários frente aos cuidados em saúde mental de modo ampliado, com prevalência de acesso a consultas médicas e pouca inserção em atividades coletivas. Diante disso, a equipe refletiu sobre a potencialidade de um espaço grupal que ocorresse em cenário composto pela história social dos usuários. Conforme aponta o autor Milton Santos, “o território é o chão e mais a população […], o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em território usado, utilizado por uma dada população. (Santos, 2001, p. 96). Neste sentido, foi proposta a realização de um grupo de referência no território, compreendendo que este desempenha um papel crucial, promovendo apoio social e troca de experiências entre os usuários. A vinculação com o território fortalece a integração local, facilitando o acesso aos serviços e promovendo a inclusão social dos indivíduos atendidos. Essa abordagem contribui para a construção de redes de apoio e para o desenvolvimento de ações mais contextualizadas e efetivas.
Propiciar maior circulação dos usuários no território, respeitando a singularidade dos sujeitos, a partir da sua história de vida naquele bairro e possibilidades de contratualidade no território; ofertar encontros que propiciem estreitamento de vínculos entre os moradores, a partir de experiências compartilhadas do bairro; proporcionar vivência de horizontalidade entre equipes de saúde e usuários com necessidades de cuidado em saúde mental; promover o reconhecimento do território pela equipe a partir do olhar dos usuários; fortalecer pertencimento e apropriação dos usuários no território; aproximar os usuários das propostas coletivas da UBS.
As reuniões de matriciamento acontecem mensalmente na UBS, com profissionais dos CAPS II, IJ e AD, além da equipe do NASF. Neste espaço, foram iniciadas discussões sobre como o arranjo dos grupos de referência no território, em parceria com a UBS, poderiam contribuir para a produção de novos sentidos de relações entre usuários e equipes, assim como descentralizar os atendimentos do enfoque exclusivamente medicamentoso. Neste sentido, foi pensada a realização de grupos de referência, inicialmente trimestrais, no território matriciado. Avaliou-se que seria importante a realização em espaços públicos, com música e piquenique para compartilhamento de vivências e realização de um lanche coletivo, visando à aproximação informal entre os participantes. O primeiro encontro foi realizado em novembro de 2023, em uma praça sugerida pelos usuários e profissionais da UBS. Foi composto por duas agentes comunitárias de saúde da UBS, terapeutas ocupacionais do NASF e do CAPS, psicóloga e psiquiatra do CAPS, e usuários inseridos neste serviço. O próximo grupo está marcado para acontecer em março de 2024 e tem como proposta ampliar a participação para usuários de saúde mental que podem ou não estar inseridos nos CAPS, ampliando assim as ofertas de cuidado para usuários acompanhados pela UBS.
Avaliou-se que o dispositivo ofertado favoreceu que os usuários pudessem trazer suas histórias e sentimento de pertencimento ao bairro, suas percepções sobre os serviços de saúde e lazer, bem como a circulação no território. Foi possível, também, articular relatos com atividades ofertadas pela UBS e pelos CAPS. Destacou-se a aproximação dos usuários entre si e junto às equipes, que puderam compartilhar experiências e atividades cotidianas. As ACSs trouxeram vivências como moradoras do território e profissionais de saúde, nesta intersecção, que favorece o engajamento e a apropriação do território. O dispositivo grupal em espaço público, a partir de interação não estruturada entre os profissionais e usuários, facilitou a aproximação entre os usuários, promovendo reflexões sobre o sentido do morar, pertencer a um bairro, com as ofertas de lazer, cultura, saúde, educação e circulação social que este promove. Foi possível que as equipes estivessem em cena para contribuir na tecitura dessas redes quentes, tal como Passos (2004) apud Emerich conceitua: “não há como escaparmos de redes no contemporâneo e, por isso, a estratégia é a de construirmos redes de resistência: redes quentes, isto é, redes não homogeneizantes, mas redes sintonizadas com a vida, redes autopoéticas”. Assim, a compreensão do cuidado ampliado territorial, apoiado pelas equipes dos serviços de saúde, possibilitou a produção de subjetividades, promoção de saúde, considerando as singularidades deste território.
Para além dos resultados já alcançados, planeja-se que os grupos de referência possam ocorrer com mais frequência, conforme passem a compor a rotina de cuidado dos usuários. Além disso, está planejada, para os próximos encontros, a produção de desenho cartográfico, para que os usuários nos apresentem o território em suas possibilidades concretas de ocupação e acesso, articulando assim a rede subjetiva de pertencimento e conexão dos moradores. Desta forma, buscando construir uma assistência mais humanizada e próxima dos usuários, que os convida a produzir novos modos de vida, a partir do encontro com o outro, respeitando a diversidade, de modo a integrar os serviços de saúde mental com a comunidade.
Apoio matricial, grupo de referência, território
Ana Cláudia Ramos Fidencio, Luciana Januária Barbosa, Dagmar Ribeiro Imidio Pavan, Valdineia Paula da Silva