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Na sociedade ocidental contemporânea, tem surgido uma tendência em evitar falar sobre a morte, o que acaba tornando esse assunto um tabu. Como resultado, lidar com o luto tem se tornado uma tarefa mais desafiadora e, em certos cenários, pode acarretar questões relacionadas à saúde. O ser humano transita por diferentes etapas do ciclo vital que o aproxima cada vez mais do destino inevitável que é a finitude do ser, todavia, diante da imprevisibilidade da vida, haverá situações que poderão precipitar o encontro com a morte, sendo dos mais difíceis, decerto, a perda de uma pessoa querida. A morte em um grupo ou família pode se tornar um dos momentos mais desorganizadores e geradores de emoções difíceis, sendo o luto um processo emocional intenso próprio da situação de morte, marcado pela incomensurável dor de perder e sentir a ausência de quem se ama. A vista disso, o presente trabalho traz um relato de experiência em Saúde Mental realizado com pessoas enlutadas na UBS Palmeiras, região Sul de Suzano–SP. A iniciativa se deu em razão da constante demanda de pessoas buscando o serviço de saúde mental da UBS, trazendo queixas de questões primárias ou secundárias relacionadas ao luto. Diante dessa necessidade começou-se em abril de 2023 um serviço de acolhimento em modalidade grupal aos usuários em sofrimento devido ao luto, fortalecendo assim o trabalho de assistência saúde mental da UBS.
Temos por objetivo, através do grupo terapêutico, ofertar espaço e acolhimento às pessoas que vivenciam o processo do luto, trazendo a compreensão de que se trata de uma vivência dinâmica, multidimensional, individualizada e natural. Buscamos favorecer o intercâmbio grupal e a troca de experiências através do relato de história de vida, visando a ressignificação da morte, enfrentamento e elaboração de uma nova relação a ser construída com o ente falecido e o refazimento da vida diante das mudanças apresenta-das, intentando evitar possíveis agravamentos em saúde mental devido a um luto não elaborado.
O trabalho é ofertado para usuários da UBS Palmeiras que buscam atendimento em saúde mental para queixas relacionadas ao luto. Trata-se de um trabalho realizado em modalidade grupal, quinzenalmente, com duração de 1h30, sem quantidade fixa de participantes, coordenado por dois psicólogos atuantes na UBS. Constitui-se um grupo terapêutico, aberto, em que cada participante determina seu próprio tempo de permanência, tendo como público alvo pessoas adultas em processo de luto. Durante os encontros são trabalhadas questões emocionais, psicológicas e práticas envolvendo o processo de luto, tendo como ênfase o relato pessoal e compartilhamento de vivências com os demais participantes, fomentando o encorajamento para que juntos encontrem a ressignificação da perda. São utilizadas reflexões, histórias, músicas e poemas como material de apoio.
No decorrer do trabalho foi possível notar que os participantes fizeram e fazem bom uso do espaço no propósito de se sentirem a vontade para determinar seu próprio tempo de permanência no grupo e até mesmo retornarem caso sintam necessidade, a despedida do grupo participa do processo de poder dizer adeus e seguir em frente com a própria vida. Observou-se também que o espaço proporcionou a essas pessoas, oportunidade para expressar e compartilhar momentos dolorosos referentes a perda, reviver quantas vezes forem necessárias momentos difíceis e também felizes para elaboração e ressignificação do luto, pois muitos não encontram espaço para essa partilha no ambiente doméstico. O formato de grupo favorece a construção do pensar coletivo, trazendo a compreensão da dor compartilhada e fortalecimento em conjunto, onde aqueles que já caminham para um processo de aceitação auxiliam os que acabam de chegar e que se encontram mais fragilizados
É entendido que o processo de luto provoca uma grande mobilização devido ao rompimento de laços afetivos construídos, muitas das vezes, ao longo de uma vida, embora seja um processo natural, para algumas pessoas pode se tornar algo de difícil elaboração. O enfrentamento permite ao sujeito superar o conflito e adaptar-se à nova realidade, o que não significa esquecimento, mas a possibilidade em dar continuidade à sua vida apesar da perda sofrida. Diante disso, viu-se a importância em ofertar um lugar de fala para aqueles que sofrem de saudade por quem não vai voltar, criar um momento facilitador para a elaboração do luto, de modo a promover o movimento de busca para o reinvestimento da vida. Dessa maneira, acredita-se que esse trabalho com pessoas enlutadas possa evitar possíveis adoecimentos e complicações devido ao luto não elaborado, tornando a UBS referência de rede de apoio, atuando na promoção de saúde mental, bem como pósvenção aos sobreviventes enlutados por suicídio.
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Camile Larissa Ferreira, Cleber Pereira da Silva