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A Reforma Psiquiátrica levou à redução de leitos dos hospitais psiquiátricos e a desinstitucionalização de diversos pacientes que eram “moradores” dessas instituições, deixando inúmeros pacientes, já desvinculados da sociedade e familiares, com destino incerto. O Serviço Residencial Terapêutico é uma forma de moradia e acolhimentourbano, subsidiada pelos entes federal e municipal, como uma forma de reparação com as pessoas que foram privadas de liberdade e tratamento adequado por longos períodos. O SRT foi o 1º a ser implantado na cidade e atualmente conta com 11 moradores, sendo 10 egressos da Casa de Saúde Bezerra de Menezes de Rio Claro e 1 egresso do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Franco da Rocha, por ordem judicial. A maioria dos moradores deste serviço possuem necessidades e cuidados permanentes e mais específicos, são todos homens de faixa etária de 59 a 73 anos de idade, com variados níveis de transtornos mentais, alguns possuem acentuado nível de dependência, e outros possuem um leve comprometimento físico devido a senilidade. O trabalho da equipe revela a necessidade de comprometimento e dedicação com os moradores, para que eles possam se sentir realmente pertencentes àquela moradia, ofertando auxílio em suas necessidades diárias, estimulo a liberdade de escolhas e respeito a individualidade de cada um, para que assim resgatem suas personalidades, que provavelmente ficaram “escondidas” no passado, efetivando uma maior qualidade de vida para todos.
As ações realizadas pela equipe multiprofissional no Serviço Residencial Terapêutico se traduzem no comprometimento e dedicação dos profissionais com a transformação daquele serviço numa verdadeira residência, que oferta cuidado e principalmente afeto e laços sociais significativos aos usuários que ficaram mais de uma década isolados sem qualquer direito de liberdade e socialização em um leito psiquiátrico. Esse processo de reinserção social, só pode ser realizado através de um trabalho humanizado, com qualidade técnica, muito amor e respeito aos moradores, desenvolvendo uma evolução social e de autonomia, respeitando o nível de consciência e singularidades de cada um. O trabalho realizado pelos profissionais com empenho e persistência é carinhosamente chamado de “trabalho de formiguinha”, trabalho árduo, mas extremamente recompensador na evolução de cada um, pessoas que foram “esquecidas” ou com vínculos precários. A do SRT é um local de transformação.
A metodologia utilizada para a realização das ações humanizadas no processo de desinstitucionalização é baseada na atenção dedicada e afetuosa no trabalho com os moradores, sempre respeitando cuidadosamente as necessidades de cada um, ofertando um cuidado de maneira integral. A equipe procura atendê-los em suas principais demandas cotidianas, utilizando da comunicação verbal e carinho, estimulando a conversa e o retorno de perguntas que são simples, mas são tão importantes para eles no convívio de uma residência. Outro aspecto é a atenção e o ouvir, e também com cumprimentos diários, como: “Bom dia”, “Dormiu bem?”, “Está tudo bem?”. Questões aparentemente simples, mas que são importantes no dia-a-dia de transformar um serviço numa moradia. E nos dias em que eles se apresentaram, hipoativos, calmos, retraídos, desanimados, ou mesmo mais agitados, hostilizados, solilóquios, ou até agressivos, com certa mudança no comportamento comum diário, persistiu-se nos diálogos: “Você está sentindo alguma coisa hoje?”, “Precisa de ajuda?”, “Está com dor?”, “Quero te ajudar, pra que fique melhor”, “Pra te ajudar, precisa me falar”. E assim ao passar dos anos, através de inúmeras maneiras dialogadas por todos, persistindo e estimulando, encontramos a melhor maneira de manter a confiança, o respeito e o diálogo com os profissionais do seu convívio diário. Estimulando a comunicação e a participação deles, temos várias atividades disponíveis para quando quiserem e puderem.
As transformações apresentadas com a troca de um ambiente hospitalar para uma residência acolhedora são extraordinárias, como a melhora na saúde clínica, na fala, na autonomia, no comportamento, entre outros. O objetivo principal do serviço é a reinserção social, a interação entre os moradores, o despertar da autonomia e aperfeiçoar a comunicabilidade. Há muitos avanços perceptíveis em todos esses sentidos. A melhora na comunicação entre eles e entre as pessoas que fazem parte de sua vida. Eles se comunicam com as pessoas que prestam serviço no SRT, e com pessoas de fora de seu convívio. A “festinha” é um evento muito esperado e comemorado por todos, com direito a tudo: comida, bebida e decoração de aniversário e é claro o Parabéns cantado por todos. Quando participam dos eventos fora da residência, não temos qualquer intercorrência ou alteração comportamental, pelo contrário são sempre muito queridos e educados. Não precisamos do apoio do SAMU/192, para atendimento de crises há cerca de 3 anos Outro indicador é a diminuição de prescrição de medicamentos psicotrópicos que, desde há muitos anos, fazem parte dos tratamentos, revelando o sucesso da terapia desenvolvida naquele serviço e revelando a desimpregnação dos medicamentos. Nosso maior resultado de reinserção social, até o momento, foi a participação dos moradores nas Conferência de Saúde Mental: Municipal; e de um deles na Estadual em Águas de Lindóia e até na V Conferência Nacional de Saúde Mental em Brasília em 2023.
O relato da importância das ações humanizadas no processo de desinstitucionalização revela como os profissionais de saúde no SRT são potentes e que realizam uma forma de valorização da vida e na criação de um sentido para o efetivo cuidado em saúde mental. Também revela a importância negativa que os processos de enclausuramento e exclusão social fazem nos indivíduos e, por outro lado, o desenvolvimento de reintegração social fazem na melhoria destes com a cessação ou atenuação das doenças. Para transformar um serviço em uma moradia tem que ocorrer o encontro do paciente (egresso de um hospital) com a realidade perdida, com a verdadeira humanização das ações e do cuidado, não favorecendo o enclausuramento mascarado de contato com a cidade ou os ditos manicômios invisíveis. O manejo técnico/acolhedor da equipe do SRT é essencial para que ela não se torne um microssistema manicomial, superando a tradicional e repetida forma de cuidado que fragmenta o sujeito e impede a verdadeira reinserção psicossocial do indivíduo.
Desinstitucionalização, transformação, cuidado
Gisele Thiele, Nathalia C. G. de Almeida Rodrigues