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A reforma psiquiátrica iniciou-se no fim da década de 70 e mudou a compreensão sobre a saúde mental. Os profissionais passaram a questionar a doença mental e sua relação social, transformando a linha de cuidado a partir da introdução de tratamentos novos para o sofrimento psíquico e o conceito de reabilitação social gerando uma nova perspectiva de cuidado. Desde a década de 80 as discussões foram em torno do fim dos manicômios, começando a se articular a desinstitucionalização, como isso, os serviços começaram a usar instrumentos que interviam no sofrimento humano trazendo a reabilitação psicossocial. O primeiro Centro de Atenção Psicossocial foi inaugurado em São Paulo em 1987 e o primeiro Núcleo de Atenção Psicossocial surgiu em santos em 1989. O CAPS tem modelos de serviço para pessoas com transtornos mentais severos, trabalhando na reinserção social, trazendo a equipe articulada com família e comunidade. A reabilitação social aumenta as oportunidades para o usuário família e comunidade, valorizando a participação social. Assim, o acolhimento aos usuários e o PTS (Projeto Terapêutico Singular) é construído com foco nas necessidades individuais dos pacientes. O acolhimento usa a escuta ativa como instrumento, ajudando a dar respostas adequadas aos usuários (Ministério da Saúde, 2008). As oficinas do CAPS que são inseridas no PTS do paciente permitem os pacientes trabalhar os conflitos internos e externos.
Avaliar a importância que um atendimento multidisciplinar em Centro de Atenção Psicossocial tem na linha de cuidado de um paciente, auxiliando na retomada de autonomia, reinserção na família e estimulação das habilidades sociais em diferentes contextos, através de oficinas, atendimentos terapêuticos e intervenção com a família.
Estudo de caráter qualitativo, realizado mediante coleta de informações de prontuário. Através da reunião de equipe dos profissionais do CAPS II do Município de Catanduva foi escolhido um paciente para descrição e reflexão do processo de evolução do mesmo desde o momento da entrada e acolhimento no serviço até os últimos atendimentos prestados.
D.B.S, sexo masculino, 29 anos, evangélico, natural de Catanduva. Iniciou tratamento no CAPS II com diagnostico de esquizofrenia após alta no hospital psiquiátrico. O quadro do paciente iniciou aos 19 anos com agitação psicomotora, delírios e agressividade, tinha conflitos com o pai e dromomania, e em um dos episódios veio para Catanduva-SP. Fazia tratamento particular, porém teve uma resposta parcial. Primeira internação foi em 2021 com agitação psicomotora, insônia, heteroagressividade e delírios. Após ser acolhido no CAPS II teve recidiva da crise apresentando dromomania. Dessa vez, o mesmo buscou por conta própria o serviço, procurando a equipe, observando estreitamento de vínculo com a equipe, o mesmo foi encaminhado para outra internação, após segunda internação foi reinserido no serviço. Voltou para escola e conclui o ensino médio. Foi matriculado em aulas de informática por interesse próprio. Nas férias escolares voltou para o Rio de Janeiro, fortalecendo vínculos familiares fragilizados. Paciente ainda começou a frequentar academia e caminhar, no termino do supletivo iniciou curso técnico de designer gráfico. Graças as atividades terapêuticas, teve melhora de socialização e ficou mais comunicativo e funcional. Voltou a frequentar os cultos com a família que havia abandonado. Atualmente ainda tem desejo de cursar Direito e ajuda pai na igreja. Familiares relatam evolução do paciente em relação a rotina que era empobrecida, tendo melhora psicossocial.
Nesse sentido, além do bom preparo de toda a equipe multidisciplinar na realização do acolhimento e atendimento humanizado, tem-se que o espaço das oficinas terapêuticas precisa ter seus objetivos bem traçados, porque além de um momento de fala e voz para os pacientes com transtornos mentais, as oficinas precisam fazer sentido para a realidade de cada um, ajudando-os a construir novas trajetórias, na mesma medida em que desconstrói também preconceitos e estigmas. Essa nova maneira de pensar os usuários permitiu às oficinas que se tornassem ferramentas valiosas de cuidado e reinserção social desses indivíduos, pois, mediante o trabalho e a expressão artística, fazendo de seus ambientes espaços de socialização e interação, a base para isso estaria construída. Dessa forma, constatou-se que o serviço favoreceu o processo de consolidação de novas práticas em saúde mental, onde o sujeito em sofrimento psíquico, que anteriormente se encontrava em posição inativa e de exclusão, agora passa a ser inserido como participante de seu projeto de tratamento, com trocas e reconstrução constante de suas relações com o mundo e seu cotidiano.
REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL
Kézia Daiane da Silva Veitas, Juliana Dispatto Saravalli