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Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) atendem pessoas com sofrimento psíquico grave. Dentre as ações vinculadas ao CAPS, destacam-se as oficinas terapêuticas, que buscam a reabilitação psicossocial utilizando-se de diversos recursos terapêuticos, como a música. Estudos mostram que a música exerce influências psicológicas sobre o comportamento do indivíduo. Possibilitando inserção social, redução da ansiedade, construção de autoestima e identidades , além de funcionar como importante meio de comunicação (ANDRADE; PEDRÃO, 2005). A música aumenta o bem-estar, capacita o relaxamento, estimula o pensamento e a reflexão, oferece consolo, acalma e proporciona mais energia (RUUD, 1990). Além disso, promove aumento da atenção e contato com o ambiente, estimula a memória e a atividade motora (LEÃO; FLUSSER, 2008) e, ainda, proporciona sentimentos de alegria, devoção, calma, entre outros (TAME, 1997). Fonseca et al. (2006) afirmam que a música promove o estabelecimento de um ambiente terapêutico, em que o usuário vai se sentir valorizado e acolhido. Sendo assim, a realização de uma oficina de música proporciona uma gama de respostas possíveis no âmbito psíquico. Para Radocy e Boyle (2012), as respostas são mediadas pelo contexto cultural e pelas experiências anteriores com música, isto é, pelo fator aprendizagem. Neste contexto, utilizando a música como recurso terapêutico, surgiu a “Rádio Biruta”, enquanto dispositivo de reabilitador em saúde mental.
O presente estudo objetiva relatar a experiência exitosa da Oficina Musical “Rádio Biruta” no CAPS Adulto Alvorecer de Santana de Parnaíba. Esta oficina proporciona um espaço de troca de experiências, construção de relação com o outro, memória, respeito e afetividade através da música. O momento de expressão é um instrumento importantíssimo na construção e reconstrução do eu. Quando o indivíduo consegue se expressar, colocar aquilo que de alguma forma estava encoberto, permite chances de novos aprendizados e de fortalecimento da personalidade, criação de habilidades, além de ressignificar emoções que estavam confusas ou perdidas. A música é utilizada como facilitadora na oficina, por proporcionar, com a sua capacidade de reconectar a pessoa com suas emoções, lembranças e sentimento de pertença.
A oficina musical é um grupo aberto que ocorre semanalmente com duração de 01 (uma) hora e 30(trinta) minutos na sala de atividades do CAPS III Adulto Alvorecer de Santana de Parnaíba. Os usuários se reúnem para ouvir suas canções preferidas, cantá-las, socializar, relembrar, trocar ideias e refletir a partir da música. Os encontros são conduzidos por uma psicóloga e um terapeuta ocupacional, convidando um membro participante a ser o facilitador, ocupando a posição de “locutor do dia”. Há possibilidade para escolha individual de até 13 músicas por encontro. A liberdade de escolha do repertório tem por objetivo garantir ao usuário sua autonomia na oficina. O repertório escolhido varia de acordo com as preferências musicais de cada participante, sem distinção de gêneros musicais. O “locutor”, dá as boas-vindas ao grupo e anuncia a abertura da oficina intitulada: “Rádio Biruta”. Em seguida as escolhas musicais do dia são anunciadas de modo aleatório, sendo tocadas e projetadas, para que todos do grupo acompanhem pelo audiovisual. Neste momento é permitido expressão de dança, canto ou acompanhamento sonoro. Enquanto é executada a música, há oportunidade de os membros falarem sobre o significado da letra, mensagem e lembranças que ela traz para cada um.
A Rádio Biruta é um grupo aberto e durante o ano de 2023 participaram em média 13 indivíduos, por encontro. Os usuários participaram da atividade a partir da construção de seu Projeto Terapêutico Singular (PTS), tendo indicação aqueles que se identificassem com a proposta da oficina. A escolha do nome da oficina ocorreu através de uma construção coletiva. A oficina foi um espaço em que o indivíduo pode redescobrir a sua capacidade produtiva e desenvolver seu sentimento de pertencimento ao grupo, alcançando a satisfação de autorreconhecimento, como proposto por Lappann-Botti (2004). Os encontros nesta oficina proporcionaram a possibilidade de valorizar a singularidade do sujeito, valorizando sua história e suas vivências e o impacto dessa singularidade no coletivo. Através da música pode-se estimular sensações e resgatar memória, trazendo a sensação de bem-estar, lembranças de acontecimentos do passado e do cotidiano, lembranças associadas ao sofrimento psíquico, à cultura religiosa e às pessoas participantes desta história. Com seu potencial reabilitador, através da utilização da música como recurso terapêutico na oficina, pode-se trabalhar junto ao usuário desde a tolerância a barulho ou a sons que não o agradassem, as percepções com relação ao outro, sem desconstruir sua capacidade expressiva. Possibilitou ainda a criatividade no uso de espaços, composições instrumentais, vocais, corporais, criando e ampliando relações por meios muito além do convencionalmente posto.
A Rádio Biruta vêm apresentando-se como um potente recurso para a reabilitação psicossocial dos usuários do CAPS. Através da oficina pode-se trazer singularidade quando se fala de emoções e de musicalidade. A musicalidade seja ela comunitária, solo ou em roda, é poderosa e capaz de acolher o indivíduo, ampliando seus contextos e valorizando vivências e potencialidades. Através da música se transcende um trabalho individualista. A música afeta e afaga, independente da distância de tempo que foram ouvidas. Nela há cultura, história, afeto, voz, sonoridade. Onde a música toca, ali nasce a capacidade criativa de agir, transformar e pensar de outras formas. A música é uma linguagem em forma sonora, capaz de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos, por meio do arranjo entre o som e o silêncio. Uma forma de expressão do indivíduo e influência por inteiro na afetividade, nas percepções, nos sentimentos e na criatividade. Compreender uma pessoa em sofrimento psíquico é olhar para ela além das necessidades médicas. É necessário a compreensão de que essa pessoa precisa resgatar sua autonomia. Para isso é preciso a criação de meios de expressão e é isso que se busca nas oficinas terapêuticas, em especial na Rádio Biruta.
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Cristiane Pinheiro Lima de Brito, Rafael Occhi da Silva, Natália de Cássia Alves, Lúcia Maria Pissolatti da Silva Navarro, Solange da Silva Rodrigues Rossone, Camila Aparecida Damasceno Lopes, Janaina Cruz Marini, Maria Silvia de Almeida Mello Freire, José Carlos Misorelli