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O Ministério da Saúde preconiza que o trabalho desenvolvido nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), enquanto estratégia da reforma psiquiátrica, proponha formas diferentes de lidar com o sofrimento psíquico, integrando a pessoa a um ambiente social e cultural, estimulando sua autonomia e sua integração familiar e comunitária. No movimento da Reforma Psiquiátrica no Brasil, as oficinas terapêuticas estão previstas como uma das principais formas de tratamentos disponibilizados nos serviços de CAPS. As oficinas destacam-se por se constituírem novas formas de acolhimento, de convivência, de mediações do diálogo e de acompanhamento que associa a clínica à política. Além disso, as oficinas detém grande importância no seu papel terapêutico e de reinserção social. Ao encontro do que propõe o novo cenário na Saúde Mental, a partir da demanda trazida pelos usuários do CAPS III Adulto Alvorecer em Assembleia Geral (outro dispositivo essencial na promoção da cidadania), surgiu a proposta de realizar a Oficina de Horta.
Este trabalho objetiva relatar a experiência exitosa com a Oficina de Horta do CAPS III Adulto Alvorecer do município de Santana de Parnaíba. A Oficina de Horta busca conscientizar os usuários sobre o plantio, o desenvolvimento sustentável e a preservação ambiental. Além disso, objetiva promover a capacidade para o trabalho em equipe, a cooperação, o respeito e o senso de responsabilidade. Valoriza, ainda, a importância do trabalho e cultura do homem no campo, o conhecimento de técnicas de cultura orgânica, promovendo práticas de educação ambiental e estimulando o olhar e o cuidado para si e para o outro. A horta inserida no contexto de CAPS permite ao usuário acompanhar todas as etapas da produção do alimento, desde a organização para a preparação da terra até o consumo do produto final após a Oficina Culinária.
A oficina de horta é um grupo aberto, realizado na área externa do CAPS, em uma área de aproximadamente 250m², onde são produzidos alimentos como: alface lisa, alface crespa, couve, cebolinha, salsa e quiabo. Também são cultivadas algumas plantas popularmente consideradas como medicinais como hortelã, alecrim, manjericão, erva cidreira e boldo, além da fruta banana. A rega da horta é realizada diariamente pelos usuários com o apoio da equipe, o plantio e a colheita da produção da horta é realizada semanalmente e entregue aos usuários participantes, para que os plantios sejam levados para suas casas como resultado benéfico do esforço gerado ou para que possam ser utilizados na produção dos alimentos da Oficina Culinária e da cozinha do CAPS. Os usuários do CAPS podem participar ativamente de todas as etapas da atividade, desde a escolha do melhor local para a horta, onde contempla com um maior período de sol; o preparo do solo com resíduos orgânicos provenientes da cozinha; delimitação dos canteiros com garrafas PET; a escolha das mudas que melhor se adaptam ao tipo de solo; o plantio das mudas, o cuidado com a horta, inclusive realizando a retirada das pragas; a capinagem em torno dos canteiros, a rega diária; o momento da colheita. As hortaliças, frutas e ervas produzidas pelo grupo são consumidas na unidade, fazendo parte das refeições diárias (chás, temperos e saladas) dos usuários, assim como da Oficina de Culinária.
Desde o início do projeto, em outubro de 2020, observou-se um grande engajamento por parte dos usuários da oficina, dos profissionais envolvidos diretamente nas atividades, dos profissionais da cozinha e da Oficina de Culinária em utilizar os insumos produzidos pela horta. Durante todas as etapas que envolveram a preparação da terra e dos canteiros, seleção, aquisição de mudas e plantio, os usuários mostraram-se engajados, apropriados e preocupados, responsabilizando-se, dedicando-se e envolvendo-se nas atividades propostas. O cuidado com a terra foi um recurso terapêutico que fomentou as interações sociais e a ampliação das possibilidades de olhar o cuidado para si e para com o outro. A oficina, em seu caráter terapêutico e reabilitador, promoveu a socialização, incentivou a utilização de materiais recicláveis e ampliou o repertório ocupacional dos usuários. Muitos participantes relataram que a atividade despertou o interesse pelo plantio e reproduziram uma horta em casa, utilizando as mudas levadas e assim promoveram uma alimentação saudável para a família. A horta tornou-se, ainda, uma estratégia de educação alimentar e nutricional, conscientizando os usuários sobre o cultivo e aproveitamento dos alimentos, o desenvolvimento sustentável e a preservação ambiental, implantando a agricultura orgânica como uma opção alimentar.
A oficina de horta, inserida no CAPS, ofereceu o cuidado através da ampliação de vivências e da aquisição de novos conhecimentos. Atuou como espaço promotor de saúde, estimulando o protagonismo dos usuários na atividade. A construção coletiva do protagonismo incitou a saída da condição de paciente para uma postura autônoma e o colocou como ator principal em seu processo de reabilitação. A atividade que envolveu o cultivo na horta e a produção de alimentos proporcionou aos usuários o sentimento de pertencimento através de momentos prazerosos, possibilidade de busca e compartilhamento de conhecimentos e incentivo a consumo de alimentos saudáveis, sustentáveis e de baixo custo. Este dispositivo mostrou-se um potente recurso de cuidado, sendo promotor de reinserção social e lazer. Assim, através dessa vivência significativa e da participação ativa em todas as etapas da ação, que são interdependentes, produz mudanças subjetivas na vida dos usuários envolvidos sendo um importante recurso de reabilitação psicossocial.
CAPS, horta, oficina, saude mental
Claudia Paola Saavedra Schuster, Rafael Occhi da Silva, Rodneia Maria Brostoline, Natalia de Cassia Alves, Lucia Maria Pissolatti da Silva Navarro, Camila Aparecida Damasceno Lopes, Janaina Cruz Marini, Jeferson Giovan Volkweis, Maria Silvia de Almeida Mello Freire, José Carlos Misorelli