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Ao considerar a pulsão de morte presente no público atendido no CAPS AD, mas também nossos movimentos para sustentar as pulsões de vida, nas provocações para o reatamento de laços e em direção a novos investimentos a partir do que é possível para cada um, construímos cotidianamente norteadores para as tratativas para mudanças de hábitos e encontro de novos prazeres nas singularidades. Quando em agosto de 2023, em reunião de equipe, discutimos qual seria a proposta de ação para o Setembro Amarelo (campanha de prevenção ao suicídio), que trazia como lema: “Se precisar, peça ajuda”, avaliamos as ações dos anos anteriores. A maior parte delas esteve voltada à formação da equipe ou da rede de saúde, bem como direcionada para a revisão dos processos de trabalho que culminasse em maior prontidão para as situações de crise e ideação suicida. Sendo assim, fazendo as conexões entre a clínica e a campanha, pensamos na possibilidade de iniciar um espaço coletivo que comportasse a singularidade na interface com aquilo que está na cultura, considerando a arte como possibilitadora da experimentação de si, do outro, com o outro e de um outro jeito. Nasceu assim o Projeto do Sarau do CAPS AD III.
1- Favorecer o acesso à arte e cultura; 2- Ampliar as práticas expressivas e comunicativas no cotidiano do serviço e nos sujeitos; 3- Fortalecer o protagonismo do usuário; 4- Estimular itinerários e projetos individuais e coletivos para a vida.
Ficou definido que o Sarau seria bimensal, no período da tarde. Sempre com divulgação prévia nos espaços físicos do prédio, com mobilização nos espaços grupais, bem como poderia ser articulado com a produção de oficinas terapêuticas existentes. A organização do Sarau ficou inicialmente a cargo da equipe técnica, especialmente de 02 profissionais, que mobilizariam os demais profissionais, se necessário. Mas no decorrer do processo da implantação deste ponto de arte e cultura, a participação efetiva dos usuários do serviço na organização estava prevista. A oferta de café da tarde diferente e de um mimo como lembrança e marca estavam na composição prevista para cada Sarau.
O 1º Sarau (28/09/23) foi divulgado nas Oficinas Terapêuticas, espaço de convivência e recepção. Aconteceu com uma instalação poética na sala multimídia, começando com a “Sacola da Poesias” – diferentes poetas foram apresentados e o convite para a leitura foi feito. Na sequência, cantores e instrumentistas profissionais e amadores, que ensaiados ou no improviso, revezaram-se no palco; alguns declamaram poesias. A tarde teve fim com combinados: início da Oficina de Música e a data do próximo Sarau – 23/11. Entre o 1ª e 2º, na Oficina de Pintura ele foi batizado: Arte que Transforma. Foi criada uma marca, “colorida e diferente”. O 2º Sarau foi temático: a Negritude em pauta. Uma Roda de Conversa sobre poetas negros (Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda e Machado de Assis), cartazes e livros à disposição para olhares e leituras. Conversa fluiu, histórias pessoais emergiram. Um convidado, apresentações ensaiadas na Oficina de Música, apresentações poéticas. As Bordadeiras de Minas Gerais, em homenagem a Milton Nascimento, foram apresentadas com a música Maria-Maria e com ela dançamos, encerrando a tarde com a Dança Circular. De lá para cá, conversas na convivência aconteceram para pensar a organização do próximo Sarau, em 18/01. As conversas fluíram para o Teatro, especialmente o de Improviso.O riso no radar. Oficinas pontuais com pequenos grupos motivados à experimentação do teatro de improviso em esquetes, a partir de personagens construídos coletivamente.
O Projeto virou Ação e na ação outros pares têm construído seu protagonismo e seus itinerários. Percebo que esta ação tem provocado encontros inusitados, criativos e reflexivos no cotidiano do CAPS AD. Percebo usuários mobilizados para a participação, construção e manutenção deste espaço-cena. O CAPS AD é um serviço especializado e estratégico na Rede de Atenção Psicossocial para atender as pessoas que fazem uso problemático das drogas, o que não significa ser um espaço para falar das drogas, mas sim das histórias e de projetos de Vida. Deve abrir um leque de possibilidades, ou seja, ser múltiplo em suas ofertas terapêuticas e fundamentalmente acompanhar o sujeito em seu itinerário. Ser trabalhador de um CAPS AD é estar implicado eticamente com o sujeito, em suas escolhas; é reconhecer os diferentes papeis e possibilidades de cada sujeito. E assim, seguimos para o nosso 3º Sarau Arte que transforma.
saúde mental; protagonismo; arte; cultura; álcool
Káthya Bertolini