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Com o processo de desinstitucionalização na década de 80, sob o enfoque de revisão das políticas de saúde mental e desospitalização de pessoas em sofrimento mental, ocorreu o fechamento de manicômios e (re)inserção dos usuários em seus territórios. Neste contexto, a atenção Primária à Saúde (APS) firmou-se como primordial na Rede de Atenção Psicossocial, proporcionando a busca por exercício da cidadania em relação aos determinantes sociais do processo saúde-doença (BRASIL, 2011). A Política Nacional de Atenção Básica (2011), destaca a Estratégia da Saúde da Família (ESF) como prioritária para o fortalecimento e expansão da APS. Com objetivo de ampliar a resolutividade da APS, foram criados os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), uma equipe multiprofissional, visando garantir de maneira integral os cuidados para a população adstrita. Seguindo esses pressupostos, foi criado, em 2018, na Unidade de Saúde da Família (USF) do Vitória Régia um grupo denominado União, Força, Guerreiros (UFG). Grupo aberto para pessoas maiores de 18 anos com demandas de sofrimento mental. Ocorria semanalmente, sob a coordenação de uma residente de Psicologia do programa de pós-graduação em Saúde da Família e Comunidade e duas Agentes Comunitárias de Saúde (ACS). No entanto, em 2020, com a pandemia pelo novo coronavírus, o grupo foi finalizado. Assim, considerando a incipiente Reforma Psiquiátrica no país e o papel da APS na atenção a demandas de saúde mental, o grupo UFG foi retomado.
Retomar o grupo UFG como espaço de escuta qualificada para expressão de vivências para pessoas com demandas de saúde mental como cuidado em saúde.
O método utilizado para apresentação do trabalho é o relato de experiência, de caráter descritivo, que segundo Grollmus e Tarrés (2015), trata-se de uma escrita que relate um acontecimento vivido. A partir de discussões com as ESFs, gestão local e preceptoria, avaliou-se a necessidade de retomada do grupo UFG. O grupo, embasado principalmente na Psicologia Social, tem como autores principais Pichon-Riviére, José Bleger e outros, visando o sujeito em seu coletivo, na atenção integral e produção de autonomia (BRASIL, 2013). Assim, considerando esta demanda, o UFG foi retomado pelo atual Psicólogo Residente, uma ACS e contou com a participação de uma residente de enfermagem em um dos encontros com psicoeducação sobre doenças crônicas. Nos meses de abril e maio de 2023, foram realizadas a divulgação do grupo por meio de cartazes, falas em sala de espera e divulgação do fôlder em mídias da USF. Foi estabelecido um contrato de corresponsabilização pelos participantes, alinhando as expectativas, delimitando objetivos e os temas, sendo aberto a possibilidade de avaliar as atividades realizadas. Nos encontros, focou-se no acolhimento das demandas, no fortalecimento de vínculos, aproximação do dia-a-dia da população, fugindo da mera orientação e relação hierarquizada. Ao fim de cada encontro, foi passado uma lista de presença e anotação sobre os principais temas debatidos no dia, para que assim, pudessem ser analisados posteriormente.
Foram realizados 12 encontros, contando com uma média de 3 a 4 participantes por encontro. No grupo, houve reflexões e troca de vivências sobre diferentes temáticas, como violência no bairro, papéis de gênero, sinais de ansiedade, sinais de depressão, doenças crônicas, conflitos familiares, medos, perdas, luto e vivências com desastres naturais. Em todos os encontros, privilegiou-se a escuta não punitiva e valorização dos saberes culturais e singulares presentes, assim, focando no desenvolvimento de habilidades e estratégias de enfrentamento que trouxessem o sujeito como protagonista de seu cuidado. Observou-se a aproximação dos participantes em cada encontro, sensibilizando-se pelas vivências dos outros por meio da identificação, fortalecendo assim, o senso de comunidade e apoio mútuo. Incentivou-se a participação e reconheceu-se o saber popular, construindo de forma coletiva e social as verdades sobre os fatos, focando em relações horizontais e humanizadas. Neste sentido, destaca-se a participação da ACS como relevante, uma vez que é moradora do bairro, conhecendo as estruturas e normais sociais, facilitando a identificação e criação de vínculos.
Considerando o exposto, no que se refere ao atendimento para pessoas que demandam de cuidado em saúde mental, a APS é um ponto estratégico fundamental, já que há a proximidade da comunidade e território, reconhecendo seus contextos socioculturais. No entanto, a articulação de ações de grupo na nesta USF, mostrou-se um desafio dado as limitações do espaço físico para acontecer o grupo que garantisse o sigilo. Para operacionalizar a retomada do grupo, foi preciso articular com a USF que o convite de cada participante, fosse sinalizado aos coordenadores do grupo, para que assim, avaliassem lotação da sala. Observou-se nas dinâmicas do grupo que é possível oferecer o cuidado para além do saber médico, valorizando o saber popular, favorecendo autonomia e apoio em seu cuidado, sendo uma forma de transformação do cuidado a pessoas em sofrimento mental. Assim, ocorre o empoderamento desses usuários na solução de problemas, embasadas em recursos pessoais e comunitários. Ademais, cumpre-se com o papel da APS, juntamente com o NASF, na oferta de serviços que exigem baixa tecnologia na atenção a esses usuários, atendendo a demanda de saúde mental em seus territórios.
saúde mental, atenção primária em saúde, grupo
JHONATAN SALDANHA DO VALE