Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A arteterapia foi incorporada há apenas cinco anos pelo Mistério da Saúde ao SUS como uma das Práticas Integrativas e Complementares – PICS, mas já se figurava na saúde mental como umaoficina terapêutica de expressão artística. A arteterapia, segundo Cláudia Cavicchia é tida como uma “prática expressiva artística, visual, que atua como elemento terapêutico na análise do consciente e do inconsciente”,“favorecendo a saúde física e mental”do indivíduo. Ela“pode ser explorada com fim em si mesma (foco no processo criativo, no fazer) ou na análise/investigação de sua simbologia (arte como recurso terapêutico)”se utilizando de “instrumentos como pintura, colagem, modelagem, poesia, dança, fotografia, tecelagem, expressão corporal, teatro, sons, músicas ou criação de personagens”. Desde 2019 o CEAPS não contava com uma artesã para dar vida ao serviço através das oficinas de arteterapia, bem como através de ações de ambiência. Em maio de 2023 o CEAPS foi contemplado com a contratação de uma artesã através do contrato de gestão estabelecido entre a Secretaria Municipal de Saúde e a OSS Mahatma Gandhi. Desta forma, o desafio da artesã ao assumir a função após este vácuo girava em torno de vários aspectos: construir espaço adequado, resgatar o mobiliário e materiais existentes espalhados pelo prédio; vencer as resistências dos atendidos com esta nova abordagem de intervenção; além de desconstruir junto aos profissionais um espaço imaterial desta diferente forma de cuidado.
• Implantar a oficina de arteterapia no serviço; • Fomentar a ambiência do serviço a partir das cores da arte; • Organizar agenda da profissional beneficiando todos os atendidos; • Favorecer os encontros entre a arteterapia e as demandas das pessoas atendidas.
O desafio foi de criar espaço de ambiência: selecionar o mobiliário, garimpar os materiais existentes, tornar o espaço acolhedor, pintar a sala. A artesã foi convidada a participar da reunião de equipe técnica semanal, aproximando-a da equipe, permitindo a troca de saberes, somando conhecimento e dividindo experiências. Após troca de experiências, a estratégia escolhida pela equipe foia transferência de vínculo entre as profissionais, ou seja, a artesã passou a participar de todos os grupos semanais no primeiro mês desde sua chegada. Assim, teve a oportunidade de conhecer e explicar aos atendidos sobre seu trabalho, além de apresentar a sala de arteterapiapara todos, as reações foram as mais diversas, felicidade e empolgação para alguns, outros resistentes e desconfiados. A postura da artesã aberta e receptiva às possibilidades de produção do artesanato, foi muito valiosa, pois as atendidas faziam crochê, tricô, bordado dentre outras habilidades, sentiram-se reconhecidas e encontram espaço de valorização do seu saber. Os encontros nos grupos implantados e aspropostasde intervenção através da arte, coordenada pela artesã e técnicas do grupo, possibilitaram a desconstrução de resistências e maior familiaridade com a artesã e com sua sala. Assim, estava implantada a oficina de arteterapia, com sala dedicada à atividade, cheia de cores e aconchego, além da decoração receptiva aos atendidos que precisam de técnicas expressivas para entrar em contato com sua subjetividade.
No momento, as oficinas de arteterapia possuem forma e consistência, ainda que o trabalho esteja em constante desenvolvimento, como algo vivo,sempre com mudanças e adequações. São realizados 5 grupos semanais, sendo 2 para mulheres – em um deles é uma atendida quemcompartilha seus conhecimentos e técnicas com o crochê, 1 grupo de idosos e 1 grupo de jovens, demonstrando a amplitude e diversidade. Em 1 grupo é realizada uma abordagem diferente, onde o encontro se dá através de uma sessão de cinema, e da organização de um brechó. Destacamos algumas impressões e devolutivas dos atendidos durante as oficinas de arteterapia, nestes 4 meses, com a transcrição de algumas falas: • “Nunca imaginei que iria gostar tanto de costurar”- A. • “Fiquei surpreso ao ver que de um objeto quebrado (CD) iria conseguir fazer algo tão lindo” (caixa de mosaico)- H. • “Me sinto parte integrante do CEAPS e é realizador poder fazer uma festa grandiosa” (referindo-se à festa julina)- E. • “Aqui a gente pode fazer, cantar, falar, realizar… enfim se expressar, sem medo de crítica, de julgamentos”- C. • “ Gosto muito de vir aqui antes de ir para o trabalho, aqui me sinto fortalecido” – L. Verifica-se que foi possível a implantação da oficina com eficiência, não só pela criação dos grupos e de agenda de trabalho, mas também pela assiduidade dos participantes e sobretudo pelo relato dos atendidos evidencia-se o sentimento de orgulho e pertencimento identificados com a proposta terapêutica deste trabalho
A implantação da oficia de arteterapia foi e tem sido um desafio à medida que se propõe a não ser mero passatempo ou entretenimento, mas sim uma forma de linguagem que permite à pessoa comunicar-se com os outros, a expressão do não verbal e a possibilidade de mesmo sem passar pela consciência, organizar percepções, sentimentos e sensações. Além disso, este trabalho alinha-se com o proposto por Philippine, a qual apresenta arteterapia não apenas como uma ferramenta de intervenção, mas coloca o profissional como parte do cuidado, “é preciso mudar o modo de ver, sentir e agir com o sofrimento mental e que o profissional faz parte do processo de reabilitação, não podendo atuar apenas como um mero observador.”. Conclui-se que a implantação da oficina de arteterapiavem compondo e contribuindo para cada vez mais para prosseguir na lógica biopsicossocial em detrimento ao modelo biomédico e manicomial. Favorecendo o “empoderar”, o pertencimento à um local acolhedor e com livre acesso, onde o único objetivo é garantir a autonomia dos atendidos, a liberdade, promovendo espaços de integração, cuidado integral e assistência multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar.
Arte, possibilidades, bem-estar e reconhecimento
Eliana Cristina Fischman Passador, Rosicler Gomes Junqueira, Matheus Martins Garcia, Alessandra Maria Pedroso, Paula Roberta Pedruci Leme, Carmem Silvia Guariente