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O CAPs é o equipamento estratégico para a consolidação das políticas de saúde mental, é nele que diariamente os profissionais se defrontam com sujeitos excluídos e estigmatizados pela loucura, em alguns casos, a psicose como diagnóstico se apresenta como um contraponto aos meios de produção capitalista, limitando o acesso destes sujeitos ao trabalho formal. A produção psicótica enquanto lugar que ocupa na relação do sujeito psicótico com o mundo não compartilha das regras e leis sociais, neste sentido, o desafio do profissional é criar uma vinculação com este sujeito que permita a compreensão de sua subjetividade e a partir daí, pensar no processo de reabilitação psicossocial, visando estabelecer uma relação de pertencimento social que o inclua apesar das suas diferenças. A partir desta ideia surgiu a inspiração para este relato de experiência baseada nos objetivos da reabilitação psicossocial e os desafios na prática.
Analisar por meio de estudo de caso os desafios para implementação do Projeto Terapêutico Singular visando a reabilitação psicossocial.
Para realizar este estudo de caso foi analisado as informações contidas no prontuário do usuário, com base nos atendimentos realizados, o acompanhamento de sua rotina no serviço de saúde mental, sua adesão ao projeto terapêutico singular e ao tratamento no CAPs. Por meio do relato do caso pretendemos descrever e elucidar os desafios do trabalho do CAPs no atendimento a usuários com transtornos mentais graves e persistentes com ênfase na atuação em rede para favorecer o processo de reabilitação psicossocial.
Ele se apresenta como professor de artes e sua obra é seu meio de subsistência,com ela estabelece relacionamento, tem reconhecimento e pertencimento. O professor perdeu seus vínculos com o mundo, mas em seu delírio o trabalho é um meio de resgate. Primeiro perdeu a mãe, depois os direitos civis, mudou-se de estado e tiraram-lhe sua casa, que era herança. De volta ao território, morou na rua, mas manteve a esperança em reaver sua moradia. Retornou ao CAPs e seguiu a peregrinação pelos serviços para recuperar sua herança, enquanto esperava uma solução, encontrou no trabalho um apoio. Decidiu produzir sua arte e o CAPs virou seu ateliê, não no avisou e fomos surpreendidos com entrega dos materiais de trabalho que comprou. Ali reconhecemos seu desejo e apostamos neste “delírio”. Porém seus ganhos eram insuficientes e a perspectiva de futuro desfavorável, mas não desistiu de lutar pelo seu direito. Acionamos o ministério público, que legitimou o seu direito à moradia. A esta altura o “delírio” se aproximava da realidade, enfrentamos obstáculos e questionamentos, mas não recuamos, o brilho dos olhos dele nos convencia a seguir fiéis aos princípios da luta antimanicomial. Próximo de recuperar sua casa o professor sucumbiu as drogas, talvez por euforia ou medo. Compartilhamos o cuidado com o CAPs AD, o tratamento e a arte auxiliaram na recuperação. Já de alta, pegou as chaves do seu novo lar e começou um novo capítulo da sua história.
Considero o relato dessa experiência exitosa vislumbro a construção da identidade e da autonomia do sujeito no território por meio da reabilitação psicossocial em curso. Segundo Garcia e Reis (2018): “entende-se reabilitação psicossocial como uma atitude que possibilita oexercício da cidadania, assegura o poder contratual da pessoa com transtorno mental, habilita não somente o indivíduo ao meio, mas o meio ao indivíduo, instigando a sociedade à capacidade de aceitar o diferente, possibilita a valorização das potencialidades dos portadores de transtorno mental e trabalha as suas limitações; essas ações precisam ser articuladas entre cliente, serviços de saúde, família, comunidade, sociedade civil e Estado.” (p.43) O trabalho no CAPs nos confronta com a frustração e a impotência, apostamos na estratégia de cuidado em rede e no compartilhamento de saberes visando a reabilitação psicossocial. Não basta romper com os muros manicomiais, é necessário que preconceitos e estereótipos sejam atravessados para incluir o sujeito na comunidade apesar e considerando sua diferença. Conforme Reis (2018) “é importante que a Luta Antimanicomial seja uma constante na agenda da Saúde Mental buscando qualificar o cuidado e impedir retrocessos.” (p.11)
CAPs; reabilitação psicossocial; saúde mental.
Roberta Mota lopes