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A esporotricose é uma micose subcutânea causada por fungos do complexo Sporothrix, encontrados naturalmente em solo, plantas e matéria orgânica em decomposição. Atingem habitualmente a pele, o tecido subcutâneo e os vasos linfáticos, podendo ocorrer comprometimento sistêmico em seres humanos e animais imunocomprometidos. Conhecida como doença de jardineiros, a partir dos anos 80, os gatos domésticos ganharam importância na transmissão zoonótica do fungo através de arranhaduras, mordeduras e contato com secreções, adquirindo dimensão de surto/epidemia em alguns estados brasileiros, tornando- se problema de saúde pública. Em cães e gatos a micose caracteriza-se por lesões dérmicas únicas ou múltiplas, ulceradas, sendo os gatos as maiores vítimas, podendo evoluir para óbito se não tratados. Hábitos de vida livre, brigas, rituais de acasalamento e a prática de afiar garras em materiais contaminados contribuem para a disseminação da doença. Ações de vigilância em zoonoses são importantes na identificação, controle e monitoramento dos animais positivos, garantindo o cumprimento das medidas de guarda responsável pelos tutores de animais, como domiciliamento de cães e gatos, esterilização cirúrgica e tratamento de animais positivos, prevenindo a transmissão para seres humanos e outros animais, assim como mapeamento de casos positivos e busca ativa através de ações integradas com os serviços de saúde, prevenindo a disseminação da doença no município.
Apresentar a situação epidemiológica da Esporotricose em cães e gatos no município de São Bernardo do Campo, demonstrando a importância das ações de vigilância e monitoramento de animais positivos por meio de ferramentas de fiscalização zoossanitária, partindo da investigação de casos suspeitos através de busca ativa e notificação de serviços de saúde, definição de animais positivos através de diagnóstico laboratorial ou clínico-epidemiológico, e monitoramento de animais doentes até a cura, visando o controle de uma doença de caráter zoonótico de importância à saúde pública, que vem adquirindo proporções importantes no município de São Bernardo do Campo e em municípios vizinhos.
O Centro de Controle de Zoonoses, através da fiscalização zoossanitária, vem realizando monitoramento de animais positivos no município de SBC desde 2017, quando houve a notificação do primeiro gato com esporotricose, utilizando as seguintes ferramentas: Priorização no atendimento de demandas de esporotricose originadas por notificação de médicos veterinários, informações de munícipes ou notificação de caso humano pela Vigilância Epidemiológica. – Identificação de animais positivos através de exames laboratoriais ou critério clínico epidemiológico; preferencialmente realizando visita à residência com intuito de avaliar o entorno e identificação do LPI. – Termo de Compromisso para proprietário de animal positivo, garantindo o isolamento do animal e tratamento, assim como orientações quanto às medidas de prevenção evitando transmissão para seres humanos e outros animais. – Criação de planilha para acompanhamento dos casos notificados. – Confecção de folheto informativo sobre Esporotricose. – Busca ativa de animais suspeitos através de ações em parceria com a Unidade de Saúde. – Acompanhamento do animal positivo até a alta médica veterinária, e direcionamento para esterilização cirúrgica. – Publicação da Nota Técnica nº 4/2022, instituindo Notificação Compulsória de Esporotricose animal no município de São Bernardo do Campo e criação de fluxo entre a Divisão de Zoonoses, a Vigilância Epidemiológica e o Departamento de Atenção Especializada para monitoramento de casos humanos.
Durante todo o período monitorado foram cadastrados 163 animais positivos, sendo 95,7% felinos. Evoluíram para óbito 20,2%, desapareceram durante o tratamento 0,6%, evoluíram para a cura 38% e 41,1% ainda estão em tratamento. Salienta-se que 48,5% dos casos positivos do Território 9 ocorreram devido a um surto ocorrido em um único endereço em 2020, onde funcionava um abrigo de gatos, onde eram mantidos cerca de 120 animais totalmente domiciliados e em tratamento, não representando neste caso uma situação de risco de disseminação da doença no município. A maior parte dos animais positivos no Território 3 concentra-se na Vila São Pedro e no Pq. São Bernardo com 31,9% dos casos, sendo sua maioria registrados em 2023 e em endereços diferentes, caracterizando uma situação de alta transmissibilidade, levando a uma intensificação de ações de fiscalização zoonsanitária visando mitigar o problema. Muitos desses endereços localizam-se na divisa com o município de Santo André, e observamos que a ausência de barreiras físicas como grandes avenidas ou córregos facilita o trânsito de gatos doentes entre os municípios, tornando-se uma problemática de nível estadual e nacional.
Através do presente trabalho pode-se perceber que o controle da esporotricose animal exige atuação conjunta intersetorial envolvendo vigilâncias, atenção básica e atenção especializada. É de grande importância a educação em saúde nas áreas endêmicas e de maior vulnerabilidade social, com foco na Guarda Responsável de Animais, principalmente quanto à importância do domiciliamento como prevenção de doenças em cães e gatos e práticas para coibir o abandono de animais doentes, além de políticas de controle populacional destes animais através de esterilização cirúrgica. É fundamental a busca ativa de animais suspeitos e identificação e acompanhamento de animais positivos. O tratamento da esporotricose quando obedecido o período de tratamento e diagnosticado precocemente tem surtido bons resultados, evoluindo para cura do animal. É fundamental criar protocolos de vigilância de esporotricose para animais de vida livre em nível municipal, estadual e nacional de forma a nortear as equipes de saúde, principalmente em áreas de maior vulnerabilidade social.
Vigilância; monitoramento; fungos; gatos
Marco Aurélio Ferreira, Adélia Toshie Honda Mitsumori