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A hanseníase é uma doença infecciosa crônica que afeta majoritariamente nervos periféricos e pele. Pode gerar danos neurológicos como neurites, dor neural, perda de sensibilidade em mãos e pés, perda de força muscular, atrofia e garras. Na pele, leva a lesões com redução de sensibilidade. Quando detectada tardiamente pode acarretar sequelas irreversíveis que contribuem para o estigma e preconceito. O cuidado da hanseníase ocorre majoritariamente em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Recomenda-se que a Atenção Primária a Saúde (APS) seja a responsável pelo cuidado da maioria dos casos. Em Ribeirão Preto/SP, até 2017 o cuidado da hanseníase era realizado exclusivamente em unidades de referência de níveis secundário (centros de referência) ou terciário (hospitais). Em 2018 foi iniciado o processo de descentralização para a APS, que envolve capacitações teóricas online e presenciais, busca ativa com Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH) e capacitações práticas para a avaliação dermato-neurológica dos indivíduos com suspeita. Os casos de hanseníase detectados passaram a fazer o tratamento na APS, com apoio matricial. Além disso, a partir do final de 2019 foi pactuado com consultórios privados o acompanhamento clínico nessas unidades, sendo a dispensação do tratamento realizada em farmácias da rede SUS. O manejo da hanseníase por dermatologistas em clínicas privadas ainda é pouco explorado como possibilidade de diagnóstico e seguimento.
1) Apresentar dados coletados em questionário padronizado distribuído no segundo semestre de 2022 para dermatologistas sócios da Sociedade Brasileira de Dermatologia, atuantes em clínicas privadas de Ribeirão Preto/SP. O questionário visava entender como os dermatologistas que atuam na rede suplementar de saúde se posicionam quanto ao cuidado de hanseníase em consultórios privados. 2) Relatar o impacto da descentralização do cuidado para APS e consultórios dermatológicos privados nos indicadores epidemiológicos e demográficos da hanseníase em Ribeirão Preto/SP.
O processo de descentralização do cuidado para a APS foi iniciado em 2018 e foi completado em 2023, sendo que todas as unidades de APS já receberam as capacitações em pelo menos uma ocasião. Foi distribuído questionário padronizado para dermatologistas que atuam na rede suplementar de saúde de Ribeirão Preto. O questionário era composto por 20 questões que incluíam, dentre outras, se o profissional já atendeu ou se está acompanhando algum caso de hanseníase em consultório privado, se realiza avaliação de contatos em consultório, se procede habitualmente anamnese com busca ativa de sinais e sintomas da hanseníase, se sente-se apto a realizar testes de sensibilidade tátil com estesiômetro, se considera-se apto a realizar baciloscopia de raspado dérmico e se já prescreveu tratamento com poliquimioterapia (PQT) em consultório privado. A partir da ampliação das portas de entrada, com possibilidade de cuidado da hanseníase em unidades de APS e consultórios privados, realizou-se estudo exploratório e descritivo retrospectivo com análise de indicadores epidemiológicos (número de casos novos, taxa de detecção de casos novos, tipo de unidade notificadora, grau de incapacidade física no momento do diagnóstico) e demográficos (raça/cor e escolaridade) oriundos do banco SINAN. A análise incluiu as notificações realizadas entre 01/01/2013 até 31/12/2022 e foi realizada conforme as orientações do Ministério da Saúde¹.
Foram recebidas 36 respostas no questionário distribuído aos dermatologistas. A maioria dos profissionais já havia atendido pacientes com hanseníase em consultório (64,7%), porém apenas 23,5% estavam acompanhando algum paciente na época da pesquisa. Observou-se boa qualificação dos profissionais, sendo que 67,6% responderam que habitualmente fazem anamnese com busca ativa de sintomas da hanseníase e a mesma proporção sentia-se segura para proceder avaliação de sensibilidade com estesiômetro. No entanto, 82,4% responderam que nunca haviam iniciado PQT em consultório. Quanto à análise do banco SINAN, observamos alteração no perfil de endemicidade, passando de média endemia em 2017 (taxa de detecção anual 9,7 casos/100.000 hab) para alta endemia em 2022 (17,1 casos/100.000 hab). O aumento da detecção de casos novos deveu-se majoritariamente às unidades de APS (26% das notificações em 2022) e consultórios privados (18% das notificações em 2022). Observamos tendência de queda no Grau de Incapacidade Física 2 (GIF2), que representam incapacidades irreversíveis e indicam diagnóstico tardio. Em 2017, 12% dos pacientes apresentavam GIF2 no diagnóstico, já em 2022 esse grupo representava 9% dos casos. Quanto à escolaridade, pessoas com ensino médio ou ensino superior representavam 13,9% dos casos em 2017 e passaram a representar 31% em 2022. Além disso, pessoas brancas representavam 37,4% dos casos notificados em 2017 e passaram a representar 60,2% em 2022.
A hanseníase apresenta alta endemicidade em Ribeirão Preto/SP, sendo importante que serviços de saúde públicos e privados mantenham alta capacidade de suspeição. A análise das respostas ao questionário indica que a maioria dos dermatologistas atuantes em consultórios privados tem contato com pacientes com hanseníase, no entanto a maior parte desses profissionais desconhece a possibilidade ou ainda não se sente apto para realizar o tratamento com PQT no cenário privado, dando preferência a encaminhar os pacientes para unidades SUS. A descentralização do cuidado da hanseníase para a APS e para consultórios privados provocou mudança no perfil epidemiológico, perfil de cor e de escolaridade dos casos novos notificados, apontando para possibilidade de endemia oculta em grupos populacionais que habitualmente não procuram unidades SUS em demanda espontânea, dependendo de busca ativa e ampliação do acesso para a APS e rede suplementar de saúde para atingir esses grupos populacionais. A ampliação do acesso contribui para o diagnóstico precoce e quebra da cadeia de transmissão.
hanseníase, vigilância em saúde, atenção primária
Helena Barbosa LUGÃO, Ana Paula Ribeiro DÔREA, Josely Mendonça Pereira PINTYÁ, Denise Bergamaschi GIOMO, Luzia Márcia Romanholi PASSOS, Heloisa da Rocha Picado COPESCO, Mateus Mendonça Ramos SIMÕES, Filipe Rocha LIMA, Cinira Magali FORTUNA, Marco Andrey Cipriani FRADE