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A Febre Amarela (FA) é uma arbovirose causada por vírus mantido de forma endêmica e enzoótica em primatas não humanos (PNHs) por meio da transmissão por vetores culicídeos, dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Esse ciclo de transmissão é conhecido como ciclo silvestre da FA. No ciclo urbano, o mosquito sinantrópico Aedes aegypti age como transmissor do vírus. Não há possibilidade de erradicar o ciclo silvestre do vírus, portanto é de suma importância implementar abordagens voltadas para a identificação precoce da circulação do vírus. O Ministério da Saúde preconiza recomendações técnicas para a vigilância de epizootias em PNHs, visando prevenir a ocorrência de casos humanos e reduzindo a morbimortalidade em regiões suscetíveis. Neste contexto, a vigilância rotineira da FA dentro do município de Ribeirão Preto consiste no recolhimento de PNHs mortos, a partir de notificação de munícipes que contactam a Divisão de Vigilância Ambiental em Saúde (DVAS). Cada animal recolhido passa por necrópsia e é enviado para análise IHQ e de PCR para detecção do vírus amarílico no Instituto Adolfo Lutz. Em julho de 2016 foi notificada um PNH positivo para o vírus na zona urbana de Ribeirão Preto, a partir da qual foi possível detectar a epizootia em curso. A partir disso, em 2017 foi estruturada uma ação de monitoramento dos PNHs no município. Em 2023, notificações do vírus amarílico em três municípios próximos a Ribeirão Preto motivaram a retomada e reestruturação da ação de monitoramento.
OBJETIVOS A ação de monitoramento de PNHs desenvolvida em 2023 teve como objetivos: • Mapear as áreas verdes do município com ocorrência de primatas, estabelecendo contato com munícipes frequentadores das áreas; • Incentivar a notificação de morte de primatas por parte da população; • Informar a população sobre a FA, incentivando a procura de unidade de saúde para verificar o status vacinal; • Conscientizar a população sobre a importância dos PNHs como sentinelas na vigilância da FA; • Estabelecer novas áreas de interesse para a vigilância dentro do município.
No final de 2022 e início de 2023 foi notificada a presença do vírus amarílico em Uberaba-MG, Águas da Prata-SP e Vargem Grande do Sul-SP, sendo que neste último município foi registrado caso humano da doença. A ação realizada em 2017/2018 produziu uma listagem de áreas verdes na cidade e da ocorrência de PNHs nestas áreas. A partir desta listagem, em 2023 foi elaborado um mapa utilizando ferramenta do Google Maps, totalizando 402 áreas verdes iniciais às quais foi atribuído um número de cadastro. Foi designada uma dupla de agentes de combate à endemias para realizar o trabalho de campo, que consistiu em avaliar a área e preencher uma ficha referente a cada um dos pontos cadastrados. Cada local contou com caracterização da vegetação, presença/ausência de PNHs e histórico de óbitos. Para a abordagem, foram escolhidos munícipes residentes ou trabalhadores do entorno da área, capazes de informar sobre o histórico do local, hábitos dos primatas e o histórico de óbitos. A estes munícipes foi entregue um folheto informativo sobre a FA, incentivando a contactar a DVAS para recolhimento de possíveis PNHs mortos e também a verificar seu status vacinal na unidade de saúde competente. A ação se iniciou no dia 20/03/2023 e a equipe percorreu o total de 429 pontos cadastrados até a data de 29/05/2023.
A equipe de ACEs verificou o relato de presença de PNHs em 71,6% dos locais visitados, com uma predominância absoluta de primatas do gênero Callithrix (94,3%), extremamente adaptados ao ambiente urbano e periurbano. Também foram encontrados bugios (Allouata sp.) e macacos-prego (Sapajus sp.) em 12 e 5 pontos, respectivamente, sendo estes gêneros associados a regiões rurais e pouco urbanizadas. Dos locais avaliados, houve relato de mortes de primatas em apenas 16,4%. Em alguns locais, os munícipes abordados relataram desconhecer o serviço de recolhimento de primatas mortos fornecido pela DVAS, e inclusive relataram já terem dado destinação incorreta ao material, como enterro do cadáver encontrado. Este relato reforça a importância de ações como este monitoramento, que desempenha papel de educar a população quanto à importância da vigilância da FA e como as pessoas podem colaborar dentro de suas comunidades. Desde o início de 2023 até o mês de Agosto, foram coletados 39 primatas mortos, dos quais 27 puderam ser necropsiados. As amostras de tecidos e órgãos foram encaminhadas ao Instituto Adolfo Lutz, e todas as amostras enviadas tiveram resultado negativo para o vírus amarílico. A análise dos dados provenientes do monitoramento da FA em 2023 revela a presença de muitas populações de PNH amplamente distribuídas pelo território do município de Ribeirão Preto, bem como a importância da educação da população em saúde ambiental para a detecção precoce da circulação do vírus.
A vigilância ambiental da FA é complexa, e o papel dos primatas como animais sentinela é crucial, permitindo a detecção precoce do vírus antes que casos humanos ocorram, contribuindo significativamente para a redução da morbimortalidade. A ação, que associou a obtenção de dados, o contato com munícipes e a educação da população em saúde ambiental, é uma ferramenta importante na detecção precoce em caso de circulação do vírus amarílico. É importante reconhecer também que a vigilância ambiental requer constante revisão de suas estratégias para garantir os melhores resultados possíveis. A falta de informação sobre a febre amarela durante surtos do vírus pode resultar no pânico da população, levando ao assassinato de macacos, o que, por sua vez, pode prejudicar ainda mais os esforços de vigilância. Portanto, a educação da população em saúde ambiental desempenha um papel fundamental na abordagem abrangente da vigilância ambiental da Febre Amarela. Os esforços da DVAS neste sentido são fundamentais para a melhoria contínua da vigilância, prevenção da FA e promoção da saúde da população. A colaboração ativa da população, juntamente com a vigilância constante, são essenciais na prevenção da febre amarela e na promoção da saúde pública.
FEBRE AMARELA, EPIZOOTIA, PRIMATAS NÃO HUMANOS
Aline Maria Lucchetta, Andrea Perez Cimino Bergamo, Priscila Roberta Pavan, João Henrique Barbosa Toscano, Carolina Santos Silva, Roberta D\\\'Angelo Azevedo, Maria Lúcia Biagini