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A dengue é uma arbovirose causada por quatro sorotipos diferentes de vírus do gênero Flavivirus. A sintomatologia clínica é caracterizada principalmente por febre alta, cefaléia, mialgias, dor retroorbitária, e exantema. A Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgou que no ano de 2023 mais de 5 milhões de casos foram registrados mundialmente. Dessa quantia de enfermos, mais da metade (2,9 milhões) foram anotados no Brasil. As áreas tropicais e subtropicais entre os paralelos 30º Norte e 40º Sul, são as regiões que possuem o limite climático ótimo para o desenvolvimento dos mosquitos vetores, pois essas áreas são influenciadas principalmente pelos regimes de chuvas e de temperatura. Em contrapartida, as mudanças climáticas podem ser responsáveis por alterar esses padrões climáticos, já que a frequência de dias mais quentes e chuvosos irão aumentar. Isso proporcionará, em um futuro não muito distante, no aumento da população do mosquito Aedes aegypti e consequentemente na deflagração de epidemias de dengue, da febre chicungunya e zika, devido a ampliação da população o exposta à estas enfermidades. Essas circunstâncias, ocasionaria emergências em saúde públicas recorrentes com o número de pessoas infectadas e óbitos cada vez maior. Além disso, outras consequências do aumento das epidemias de dengue estão relacionadas a sobrecarga dos sistemas de saúde tanto em relação ao n[úmero de internações quanto a quantidade de insumos utilizados.
O objetivo deste trabalho foi investigar os efeitos potenciais do aquecimento global na expansão geográfica das áreas de risco do mosquito Aedes aegypti, em 2050, utilizando o cenário de maior magnitude, proposto pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
O procedimento metodológico para a amostragem do mosquito Aedes aegypti baseou-se no monitoramento entomológico realizado através de ovitrampas. O município de Santa Bárbara d’Oeste – SP realiza, desde 2020, a vistoria de 168 armadilhas distribuídas homogeneamente pela área urbana. As ovitrampas são recolhidas semanalmente para a contagem dos ovos. Após a compilação do banco de dados foi efetuada uma análise de homogeneidade com o intuito de verificar os limites máximo e mínimos de risco da ocorrência do mosquito. Os dados climáticos foram obtidos na base de dados WorldClim-Global. Os elementos climáticos futuros, para o ano de 2050, foram reunidos, usando o modelo climático MIROC5, para um cenário preditivo no qual a temperatura global aumentará mais de 2,0ºC. A distribuição biogeográfica das áreas de risco foi compilada no software Maxent. Esse instrumento emprega inteligência artificial para predizer a sua possível distribuição no município. Dessa forma, foi realizado uma análise de Componentes Principais (PCA) para selecionar as variáveis climáticas de maior relevância. Após esse procedimento, foi construído um mapa, para o ano de 2050, com a probabilidade da ocorrência das áreas de risco do mosquito Aedes aegypti.
O resultado da análise de homogeneidade mostrou que quando a positividade das ovitrampas é superior a 45.8%, o risco de ocorrência do mosquito Aedes aegypti é alto. Através da PCA das variáveis climáticas foi possível identificar que: a temperatura do mês mais quente, a precipitação no trimestre mais seco, a precipitação anual e a precipitação no trimestre mais quente, foram as variáveis mais importantes na distribuição desse culicídeo. O mapa das áreas de risco, apresentou uma probabilidade de ocorrência de 80% das armadilhas estarem acima do limiar máximo para o risco de ocorrência do mosquito. Contudo, tais áreas estão concentradas nos bairros centrais, leste e nordeste do município. O mapa de probabilidade para o ano de 2050 revelou uma mudança significativa nas áreas de distribuição do Aedes aegypti. Embora a probabilidade de ocorrência tenha diminuído para 74%, a área geográfica de disseminação desse culicídeo atingiu toda a área urbana municipal. Entretanto, nota-se que haverá uma migração no padrão geográfico do risco de ocorrência do mosquito. Onde as porções da cidade que apresentavam elevada circulação deste inseto nos dias atuais, terão uma diminuição na probabilidade de ocorrência de 9%. Em contrapartida, nas áreas onde a circulação do mesmo é baixa (25%), em um futuro próximo, poderão ser consideradas como áreas de risco da ocorrência do mosquito transmissor dessa arbovirose, pois passarão a ter 74% de chances de ter populações de Aedes aegypti estabelecidas.
Nossos resultados indicam que a distribuição desse culicídeo será deveras afetado pelas mudanças climáticas, relacionadas, principalmente, com a temperatura e precipitação. A utilização do modelo estatístico de projeção de cenários utilizados nesse trabalho, mostrou-se extremamente competente na determinação das áreas de circulação do mosquito Aedes aegypti. A detecção de novas áreas de risco estabelece a celeridade principal na tomada de decisões em saúde pública. O conhecimento da distribuição espacial desse culicídeo, pode ser crucial nas deliberações a serem adotadas tanto em relação ao combate ao vetor, quanto às medidas de prevenção e de planejamento de capitação de insumos, para o tratamento dos enfermos e diminuição do número de óbitos.
Mudanças Climáticas, Dengue, Aedes aegypti
Thiago Salomão de Azevedo, Wilson José Guarda, Luiz Eduardo Chimello de Oliveira, Jéssica Caroline Sebastião, Rafael Piovezan