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As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) são abordagens terapêuticas que têm como objetivos prevenir agravos à saúde e fomentar a promoção e recuperação da saúde enfatizando a escuta acolhedora, promover a construção de laços terapêuticos e fortalecer a conexão entre pessoas, meio ambiente e sociedade. Elas fazem parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC). Uma das ideias centrais dessa abordagem é uma visão ampliada do processo de saúde e doença, assim como a promoção do cuidado integral do ser humano, especialmente do autocuidado. A auriculoterapia consiste no estímulo de zonas neurorreativas localizadas na orelha por meio de esferas de metal, agulhas ou sementes de mostarda, visando promover a regulação psíquico-orgânica do indivíduo. Foi incorporada no SUS mediante a portaria 971, de 03 de maio de 2006. A equipe NASF que apoia a UBS Tamoio, localizada em uma região vulnerabilizada do município de Jundiaí/SP, diante de um grande número de encaminhamentos de pacientes com queixa de dor e questões de saúde mental por profissionais da UBS propôs, em reunião de equipe com a unidade, a criação de um grupo de auriculoterapia em conjunto com os Agentes Comunitários de Saúde (ACSs) da UBS. Os atendimentos foram realizados entre janeiro de 2022 e junho de 2023.
A oferta dos atendimentos em auriculoterapia teve como objetivos: realizar uma triagem e qualificar a demanda de pacientes encaminhados à equipe NASF ou vindos por demanda espontânea com queixas leves de saúde mental (especialmente ansiedade e insônia) e/ou dor; oferecer uma alternativa não medicamentosa para estas queixas; estimular a auto-observação e o autocuidado nos pacientes; fortalecer a coparticipação dos usuários no cuidado e implicá-los em mudanças de estilo de vida.
Profissionais do NASF (fisioterapeuta, profissional de educação física e psicóloga) receberam formação teórico-prática em auriculoterapia. Ofereceram atendimentos em auriculoterapia por um período de duas horas semanalmente em uma das igrejas do território, mesmo local em que acontecem todos os grupos ofertados pelo NASF, com apoio dos ACSs. Não havia necessidade de agendamento. Os ACSs organizavam os usuários por ordem de chegada com uma senha e ofertavam material para higienização da orelha. No primeiro atendimento, os ACSs preenchiam uma ficha de registro com dados pessoais dos pacientes. Nesta ficha eram registrados dados dos atendimentos (queixas, pontos utilizados, comentários sobre a evolução do tratamento feitos pelo usuário, encaminhamentos, informações médicas relevantes, acontecimentos na vida do usuário, etc). Os atendimentos eram individuais e a privacidade garantida. Depois de colocadas as sementes na orelha, o usuário era orientado a estimular os pontos e observar efeitos sobre a queixa ao longo da semana. O paciente avaliava se houve melhora na queixa e, caso ela persistisse, podia retornar para uma nova sessão. O fim do tratamento era discutido com cada paciente.
No período em que o grupo foi ofertado, um grande número de pacientes teve a oportunidade de experimentar a auriculoterapia. Em cada encontro, foram atendidos entre 20 e 60 usuários de todas as faixas etárias, com maior prevalência de idosos. Com relação às principais queixas (dores, ansiedade, insônia), a maior parte dos pacientes relatou melhora importante. Usuários também relataram redução e mesmo interrupção do uso de medicação. Nos casos em que os pacientes referiram ter havido poucas mudanças pouco significativas, foram realizados encaminhamentos para avaliação médica, escuta psicológica individual ou para outras ações ofertadas pelo NASF, como grupo de atividade e/ou grupo de nutrição. O acompanhamento próximo dos pacientes também permitiu a elaboração de novas ações, como um grupo para pacientes com queixa de dor crônica e um grupo de manejo de ansiedade. A dinâmica da atividade, em que os usuários precisavam aguardar pelo atendimento em um espaço comum, favoreceu a interação entre eles, propiciando o reencontro de amigos e conhecidos que vivem no mesmo território. O período de espera também permitiu intervenções do ACSs, levando informações sobre ações de saúde e promovendo a interlocução entre os usuários e a UBS. Para a equipe NASF, a participação dos ACSs na atividade foi fundamental devido ao vínculo que possuem com os usuários.
Os benefícios da auriculoterapia para desconfortos físicos e psíquicos são bastante conhecidos. Na atividade realizada, observamos que a auriculoterapia também pode ser um instrumento potente para desenvolver a auto-observação e estimular a implicação dos usuários com seus processos de saúde. na configuração de atendimento individual, a escuta atenta dos relatos dos usuários permite o rastreamento de outras demandas de cuidado que podem ser ofertadas pela atenção básica e não têm outros fóruns para serem expressas. Finalmente, a presença dos ACSs foi um fator de fortalecimento do vínculo entre usuários e a UBS e a equipe NASF.
auriculoterapia, participação do paciente, ACS
Miriam Rechenberg, Marlon Roberto Beisiegel, Camila Raquel Piccollo Marcelo