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Este trabalho trás o olhar da equipe multiprofissional do Hospital Municipal Vila Santa Catarina referência em oncologia e cuidado paliativo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o cuidado paliativo é uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e suas famílias que enfrentam problemas associados a doenças ameaçadoras à vida. Trazemos um relato de caso de um paciente que teve durante a sua internação progressão de doença a despeito do tratamento oncológico ofertado. Em decorrência da gravidade da doença, o paciente foi submetido a traqueostomia e permaneceu dependente de pressão positiva nas vias aéreas (BIPAP) apresentando, assim, limitação para sua independência. Em vigência de uma via aérea cirúrgica definitiva associado a uma doença de base incurável e sem perspectiva de tratamento oncológico que modificasse o curso da doença ou revertesse sua funcionalidade foi definido em reunião familiar e em safety da oncologia, UTI e cuidados paliativos que o paciente não seria candidato a novas medidas invasivas e que o foco do tratamento seria em paliar sintomas. Naquele momento, o paciente se encontrava em ECOG 4 porém lúcido e orientado no tempo e espaço e compreendendo sua situação. Dessa forma a equipe percebeu que seria necessário ajustar seu plano terapêutico em conjunto com o próprio paciente como parceiro do cuidado através da escuta ativa e compreensão de seus anseios, bem como respeito aos seus valores garantindo também conforto e dignidade
Através de uma boa e segura prática baseada em evidência, o objetivo foi proporcionar a melhor experiência possível para o paciente, família e colaborador. Esse modelo de cuidado também visou proporcionar maior engajamento e consequente integração com o adequado gerenciamento do trabalho em equipe, paciente e família focando na experiência e valores do paciente, o que foi fundamental para o êxito no cuidado humanizado, integrado e holístico.
Pela impossibilidade de desmame da traquestomia, a fonoaudiologia com o uso de válvula fonatória proporcionou a comunicação do paciente e família, houve liberação de porções de comida, já que comer era um valor importante para ele. Desta maneira, inclusive no dia do seu óbito foi possível conceder seu último desejo que era se alimentar. Devido a limitações do seu quadro clínico recebeu intervenções para posicionamento funcional favorecendo conforto, prevenção de lesão por pressão e de agravos decorrentes do imobilismo, objetivando o alcance da alguma independência nas ABVDs com o apoio da terapia ocupacional. Em trabalho conjunto da equipe médica e de fisioterapia alcançamos um bom controle de sintomas, principalmente dor e dispneia, boa adaptação ao BIPAP durante o período de internação, mobilização precoce, proporcionando bem-estar e dignidade até seu último momento. O paciente recebeu visita das suas netas (menores de idade), que foi um desejo manifestado ao compreender a proximidade da sua finitude. Estes encontros ocorreram conforme protocolo institucional, com apoio da psicologia através de atendimento prévio garantindo instrumentos para lidar com o contexto da UTI e novo atendimento ao final para manejo das emoções desencadeadas e assim asseguramos um impacto emocional positivo tanto para o paciente como para as crianças. Posteriormente, o paciente seguiu em acompanhamento psicológico, sendo possível trabalhar a finitude e sentimentos relacionados a este cenário.
Através do cuidado centrado no paciente conseguimos melhorar de forma significativa a jornada do paciente independente do caráter de terminalidade da doença de base compreendido pela equipe, pelo próprio paciente e seus familiares. Com atenção aos detalhes entendemos o que era mais importante para ele e ao plano terapêutico que neste caso foi a saída do leito, alimentação, comunicação, mesmo de forma adaptada e a presença dos familiares. Pautados nos valores institucionais e garantindo a segurança foi possível a deambulação assistida até o último dia de sua vida, adaptação de válvula de fala para comunicação e alimentação. Durante as visitas multiprofissionais e já com a comunicação adaptada conseguimos favorecer desejos do paciente como comer danone de morango gelado e brigadeiro de colher. A cada deambulação e desejos que foram possíveis conceder era sempre acompanhada de um sorriso, expressão de satisfação e gratidão. Esta experiência nos impulsionou a transpor nossas expectativas iniciais e utilizar nossa criatividade e cooperação entre toda equipe da UTI e áreas do hospital de forma a garantir o melhor cuidado ao paciente, aprendizado que com certeza replicaremos em outras oportunidades.
No contexto de pacientes graves e complexos como no caso de pacientes oncológicos em unidade de terapia intensiva o desfecho, muitas vezes, contraria nossas melhores aspirações e programação de tratamento, porém a linha do cuidado até o último momento da sua vida deve ser centrada na visão do paciente como participante e beneficiário deste cuidado. Durante a jornada do paciente conseguimos garantir esta máxima de um cuidado continuamente aprimorado e parceria ativa com os parceiros do cuidado e o próprio paciente, objetivando um planejamento terapêutico multiprofissional focado nos valores individuais e de seus desejos. Com o trabalho em equipe baseado na confiança e no propósito compartilhado foi possível não só garantir o cuidado centrado no paciente como também o impacto positivo aos colaboradores promovendo maior sensação de satisfação a todos e com isso um maior engajamento, menor risco de sofrimento por parte de quem cuida e a educação continuada pelo envolvimento e participação ativa na construção e customização do plano terapêutico.
missão, lições
ANA PAULA PIRES BOLSONI OKUDA, Natallie do Carmo Prado Bianchini, Monique Buttignol Shibata, Aline de Carvalho Pereira