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Esse relato conta a história de cuidado e assistência integral a uma idosa socialmente vulnerável e com insuficiência de suporte familiar e social. O Programa Acompanhante de Idosos – PAI é uma modalidade de cuidado domiciliar biopsicossocial à pessoas idosas em situação de vulnerabilidade social, que disponibiliza a prestação dos serviços de profissionais da saúde e acompanhantes de idosos, para apoio e suporte nas Atividades de Vida Diária (AVD) e para suprir outras necessidades de saúde e sociais. Paciente de nome fictício, Lourdes, de 82 anos, foi admitida no Programa Acompanhante de Idosos (PAI) de São Mateus em dezembro de 2021. Lourdes foi uma paciente violada de tantas formas a ponto de não saber mais diferenciar as violências que sofria. Vítima de um sistema excludente, opressor e violento. Essa história incomoda, e incomoda por que é verdadeira. Graças ao PAI nessa residência, felizmente, a história pôde caminhar por mais tempo, só que por outros trilhos. Esse relato exemplifica a importância do estabelecimento de Políticas Públicas aos idosos vulneráveis e como pode impactar na saúde da pessoa idosa.
Demonstrar como o cuidado em saúde pode dignificar uma vida com atenção integral mesmo com doenças crônicas avançadas, através do seu processo de fim de vida e até seu último suspiro
A ação iniciou-se com a visita de qualificação do caso em 08/12/2021 com a API e a Assistente Social, que resultou em sua admissão no Programa. Socialmente a paciente experenciava o isolamento social da pior forma, além de ser quase restrita ao contato com sua “cuidadora” – uma pessoa que prestava apoio pontualmente, e que a controlava emocionalmente e praticava violências no nível financeiro. Sua saúde fora negligenciada por anos. Sua saúde era frágil, hipertensa de anos e não controlada, insuficiência cardíaca, osteopênica, portadora do vírus da Hepatite C, com múltiplos cistos em pulmões, rins, fígado, sarcopênica e com demência. A API esteve presente nos desdobramentos do serviço de saúde e social, contribuindo pra que tudo que fosse pactuado no plano de cuidado pudesse acontecer. Com o passar dos atendimentos, para garantir a segurança da vida da dona Lourdes, identificamos que ela precisava receber cuidados além dos ofertados pelo PAI, sendo encaminhada para o Serviço de Assistência Social para compor fila de espera para Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI). No fim de vida a paciente recebia atendimentos diários da nossa equipe e, em todas suas recaídas, era submetida à nossa avaliação, encaminhada quando necessário e acompanhada pela sua API de referência, quando não por mais de uma. Enquanto aguardávamos por vaga de ILPI, em uma de suas recaídas fora assistida pela AMA e transferida para um serviço hospitalar, onde poucas horas depois veio a falecer.
Por meio de um plano de cuidado personalizado, Lourdes teve algo que pouco teve durante sua vida: ela foi vista. Conseguimos controle da sua situação financeira, corrigindo empréstimos e cobranças indevidas em sua aposentadoria. Diminuímos o controle às finanças pela cuidadora sem afastá-la do papel pontual de cuidado que já realizava. Lourdes conseguiu ter acesso à saúde e tratamentos de suas comorbidades. Teve seu lar reparado, limpo, e voltou a poder fazer escolhas, como por exemplo, o que vestir. Alimentação adaptada para sua condição respeitando suas preferências. Sua casa ficou mais segura com barras, cadeira de banho, novo fogão, micro-ondas, geladeira (de doação). No fim de sua vida, a sua cama, onde ficava exclusivamente, foi trocada de lugar para a equipe pudesse realizar transferências para o banho com segurança. Quando impossível, recebeu banho no leito. Quando Lourdes não conseguia levar o alimento à boca, cedemos nossas mãos. Ela não foi invadida por sondas e teve uma morte acompanhada em um serviço de saúde. Ela não morreu sozinha na sua casa, sem socorro. Nossa equipe assinou seu atestado de óbito para não ter desnecessariamente seu corpo submetido à autópsia (uma vez que a causa da morte era de conhecimento da equipe), providenciou sua vestimenta na cor que gostava e organizou seu funeral. No sepultamento estávamos nós (coordenadora, médico, enfermeira e APIs) e um líder religioso. Para dizer que não haviam outros, 4 vizinhos (que em morte) estiveram lá.
Os programas e políticas de saúde estão na nossa sociedade para subsidiar a população e reparar algo enquanto ainda é tempo, nesse caso apresentado em que se verificou tantas iniquidades na vida de uma pessoa, pode-se perceber a importância da assistencia e o cuidado. Obrigado PAI, obrigado SUS.
HUMANIZAÇÃO
João Paulo Rodrigues Duarte, Daiane Lopes de Almeida Geribolla, Ana Paula Moreira, Cristiane Penha Pita, Jailma de Oliveira Basílio