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Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), espera-se para o triênio de 2023- 2025 o surgimento de aproximadamente 40 mil novos casos por ano de cânceres em região de cabeça e pescoço, dos quais cerca de 15 mil serão lesões da cavidade bucal. Ainda que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), 50% dessas lesões possam ser evitadas e o índice de cura chegue a 80% quando é realizado o diagnóstico precoce, a projeção para as próximas décadas de acordo com a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC, sigla em inglês) é que a incidência aumente significativamente nos próximos anos na América Latina e, infelizmente, aproximadamente 80% dos casos são diagnosticados de forma tardia, o que resulta, muitas vezes, em tratamentos complexos e mutiladores, que diminuirão de forma considerável a qualidade de vida dos pacientes, além de gerarem um gasto significativo para o sistema de saúde, o que torna necessária a realização de ações de prevenção e diagnóstico precoce não apenas das lesões de câncer já instaladas, mas também e, principalmente, às lesões precursoras do câncer bucal, denominadas lesões pré-malignas, ou potencialmente malignas.
O objetivo desta ação foi, portanto, qualificar as equipes de saúde bucal do município de São Sebastião e realizar um estudo epidemiológico para avaliação populacional quanto aos fatores de risco do câncer bucal, assim como rastreamento das lesões de cavidade oral e posterior encaminhamento para o serviço de atenção especializada para a realização, quando necessário, das biópsias, exames histopatológicos e confirmação de diagnóstico para posterior encaminhamento aos serviços de referência para tratamento.
Em reunião da equipe da odontologia, todos os profissionais receberam instruções de reforço quanto às técnicas de anamnese e exame clínico/físico com foco ao diagnóstico de lesões da cavidade oral e foram calibrados para o preenchimento de um formulário padronizado onde foram coletados os dados dos pacientes, os possíveis fatores de risco aos quais os pacientes pudessem estar expostos (tabagismo, etilismo, exposição solar, dispositivos protéticos mal adaptados ou hábitos parafuncionais e histórico familiar) e a existência de lesões bucais. Na existência de lesões, o profissional deveria assinalar no formulário o tipo de lesão, tempo de duração, coloração, sintomatologia, localização e tamanho. Os profissionais foram instruídos a realizar o estudo em todos os pacientes acima de 18 anos que estivessem passando em primeira consulta odontológica nas unidades de Estratégia de Saúde da Família do município além dos pacientes cuja avaliação foi realizada pelas equipes de prevenção nas instituições por elas atendidas. As fichas foram encaminhadas periodicamente pelas equipes para que os dados fossem devidamente tabulados e os pacientes com lesões foram encaminhados para reavaliação no Centro de Especialidades Odontológicas onde foram realizados os exames complementares e encaminhamentos em caso de necessidade.
As avaliações foram realizadas entre 2 de maio e 31 de julho de 2023, período no qual 934 pacientes foram atendidos, sendo 350 do sexo masculino e 584 do sexo feminino com idades entre 18 e 93 anos. No que diz respeito aos fatores de risco, 83 relatam ser apenas tabagistas, 47 são ex-tabagistas, 199 relatam consumir exclusivamente bebidas alcoólicas, enquanto 209 pacientes referem consumir tabaco e álcool concomitantemente; 373 pacientes relataram se expor ao sol com frequência, 235 pacientes fazem uso de próteses, 406 relatam algum hábito parafuncional, e 410 relataram histórico pessoal ou familiar de câncer. Quanto à incidência das lesões bucais, 104 pacientes apresentaram em exame clínico algum tipo de lesão na cavidade bucal. A mucosa jugal e lábio inferior foram os sítios de maior prevalência das lesões com 28 e 26 casos. Manchas e placas foram as lesões de maior incidência com 42 e 33 casos respectivamente. Chama atenção o fato que dos 26 pacientes que apresentaram lesões em lábio inferior 18 (69,2%) relataram se expor ao sol, o que causa preocupação com a possível incidência elevada de queilite actínica, uma lesão potencialmente maligna e que se não diagnosticada e acompanhada pode progredir para lesões de carcinoma em lábio. Quanto ao aspecto clínico, as lesões avaliadas foram predominantemente leucoplásicas totalizando 51% dos casos, seguidas das lesões eritroplásicas com um total de 35%. Durante o estudo foram diagnosticados 4 casos de câncer bucal.
Diante do crescente número de casos de câncer bucal no Brasil é fundamental que sejam desenvolvidos estudos que visem a instituição de políticas para prevenção e tratamento dessas lesões. Compreendendo a necessidade do diagnóstico precoce, este estudo teve por objetivo rastrear os casos de lesões de boca e mapear o município no que diz respeito a exposição da população aos fatores de risco, avaliando cerca de 1,5% da população do município na faixa etária estipulada foi avaliada entre os meses de maio a julho de 2023. Ainda que a maioria dos casos de câncer bucal ocorram em pacientes do sexo masculino, acima dos 40 anos, tabagistas e etilistas, estudos vem apontando um aumento significativo no número de casos em paciente mais jovens e sem o envolvimento com tais fatores de risco, o que nos levou a aumentar a abrangência dos estudo quanto à idade e aos novos potenciais fatores desencadeantes destas neoplasias, como trauma, estresse e fatores genéticos. Os dados coletados nos permitirão desenvolver ações e políticas de saúde voltadas ao combate ao câncer bucal com maior efetividade, promovendo uma avaliação mais acurada do desenvolvimento das lesões de boca, assim como seu diagnóstico precoce e tratamento mais rápido e efetivo.
Câncer Bucal, Diagnóstico Precoce, Prevenção
CAIO CESAR DE SOUZA LOUREIRO, DANIEL KAKIMOTO DE CAPITANI