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A equipe do Consultório na Rua (eCR) é uma equipe da Atenção Primária à Saúde específica para a população em situação de rua, visando ampliar o acesso à saúde a este grupo populacional, que pelas condições de vida aumenta a vulnerabilidade a fatores que interferem na saúde. É uma equipe multidisciplinar, atualmente composta por enfermeira, assistente social, psicólogo, médica, agentes comunitários de saúde (ACS) e também contou com apoio, no último semestre, de residentes em terapia ocupacional. Muitas vezes a invisibilidade social dessas pessoas faz com que a população em geral “se acostume” com aquelas pessoas que sempre estão nas mesmas esquinas, sem que alguém pare efetivamente para ouvir a trajetória de vida na rua e como a equipe de saúde pode colaborar. Um recorte muito importante a se fazer é relacionado aos casos de gestação no contexto de rua. Foi observado pela equipe que as pessoas que estão em situação de rua e gestantes vivem em uma dicotomia: a sobrevivência, enquanto uma luta diária, e um propósito para o futuro, um projeto de vida, junto com a complexidade de outras questões como a dependência química e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), dentre outras.
Relatar o atendimento de uma equipe multidisciplinar à uma pessoa gestante em situação de rua e as estratégias utilizadas.
C. S. B., 30 anos, segunda gestação, uso problemático de crack e maconha, residia em uma área de ocupação, onde há um cenário de intenso uso de múltiplas drogas. Convivia com o companheiro neste local há cerca de três meses, também usuário de substâncias psicoativas. A usuária abordou a equipe do Consultório na Rua a fim de solicitar teste de gravidez. Relatou histórico de pré natal irregular, porém estava disposta a realizar o pré natal regularmente caso estivesse grávida. Ao constatar a gravidez, a equipe de Consultório na Rua articulou com a equipe da Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência e iniciou o pré natal. Teve boa adesão aos atendimentos médicos, odontológicos e do serviço social. Durante o pré natal, o companheiro da usuária foi privado de liberdade e a usuária aceitou ficar na casa de familiares que prontamente a acolheu. Foi realizada avaliação pela terapeuta ocupacional, residente da equipe do Consultório na Rua, na casa em que se fixou e durante a avaliação ficou claro que ela era independente nas Atividades da Vida Diária (AVDs), porém necessitava de auxílio nas Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVDs), principalmente relacionado à saúde. As estratégias adotadas durante a avaliação foram o acolhimento, anamnese para conhecer histórico ocupacional e avaliar demandas, orientações e iniciado genograma para identificar membros da família e compreender a dinâmica familiar e rede de apoio.
Foram realizados cerca de cinco atendimentos domiciliares pela equipe do Consultório na Rua. A paciente atualmente reside com a mãe e o primeiro filho, tem frequentado a UBS de referência e participado dos atendimentos do pré natal, mantendo-se abstinente do uso de substâncias psicoativas. Além disso, completou seu ciclo vacinal e optou por participar também do Planejamento Reprodutivo, onde passou pela enfermeira, assistente social e equipe médica, pois relatou que não gostaria de ter mais filhos. Foram apresentados os demais métodos contraceptivos disponíveis como implanon e DIU, porém a paciente optou pela laqueadura e não quis voltar atrás. Identificou-se que a paciente tem desejo de voltar a estudar para retomar um projeto de vida de trabalhar com culinária. Aprendeu artes manuais como geração de renda e como ocupação alternativa às telas nos momentos de lazer.
A experiência favoreceu à equipe de Consultório na Rua compreender algumas particularidades da gestante em situação de rua, identificando uma oportunidade para retomada de vínculos familiares e retomada de projetos de vida interrompidos. Percebeu-se que o vínculo com os profissionais também foi uma intervenção terapêutica, pois a gestação anterior e toda a trajetória na rua era marcada de muitas lembranças dolorosas, sendo a atual gestação momento oportuno para ressignificar essas experiências.
Pessoa em situação de rua, gestação
Melina Vitalino de Oliveira Silva, Lorena Gabriela Freitas Lima, Valdir Leite Machado Júnior, Tatiana Maria Coelho Veloso, Daise Cristina Alves de Paula, Juliana Cristina Dias, Maria Menezes Ferreira, Márcia da Silva Paulino