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Este trabalho retrata a experiência do município de Araçatuba com relação à reorganização da agenda odontológica, destacando-se a necessidade de se rediscutir um modelo de agenda mais otimizado e humanizado. A Resolução 12, de 11 de janeiro de 2020, da Secretaria de Estado da Saúde, estabelece as diretrizes da Política Estadual de Saúde Bucal. Pouco tempo após sua publicação, a OMS decreta, em março de 2020, a pandemia de Covid-19. Neste período, seguindo-se diretrizes e orientações quanto à adaptação dos atendimentos odontológicos durante a pandemia, ocorreram algumas mudanças e, dentre elas, o agendamento de pacientes com aumento no tempo de consulta para se fazer o maior número de procedimentos possíveis na mesma sessão. Com início da vacinação e melhora no quadro epidemiológico do município, os atendimentos eletivos começaram a retornar à sua normalidade e, em agosto de 2021, foi enviado às Equipes de Saúde Bucal (ESB) da APS de Araçatuba documento contendo as diretrizes para reorganização da agenda odontológica no município, estabelecendo, além da divisão das vagas em grupos prioritários e não prioritários, conforme estabelece a Resolução SES 12, o tempo de consulta permanecendo a ser de 60 minutos, o mesmo tempo estendido utilizado na pandemia. A decisão de se manter este período de consulta veio por conta da experiência positiva relatada pelos profissionais e por resultados promissores nos indicadores assistenciais.
Objetivo Geral: Melhorar a qualidade da assistência odontológica ofertada na APS, garantindo acesso, resolutividade, aumento da qualidade do serviço, otimização do período de atuação e do custo-efetividade. Objetivos específicos: Analisar a viabilidade de uma agenda odontológica baseada em atendimentos de 60 minutos; Descrever modelo de agenda odontológica da APS de Araçatuba; Apresentar indicadores e dados de produções, comparando períodos onde os agendamentos eram realizados a cada 30 minutos e 60 minutos.
A agenda odontológica com atendimentos eletivos de 60 minutos foi vista como uma forma promissora de otimizar a assistência, o que gerou a percepção nos gestores de Araçatuba de mantê-la mesmo após as piores fases da pandemia. O envio das diretrizes para reorganização da agenda odontológica da APS, em agosto de 2021, fundamentada na Resolução SES 12, direcionou a organização da agenda baseada em vagas direcionadas especificamente a grupos prioritários, não prioritários, urgência e ações coletivas e externas (visita domiciliar, ação em escolas por exemplo), com porcentagens preestabelecidas para cada um, execução da classificação de risco, além do motivo principal desta experiência, que é o período de 60 minutos para cada consulta eletiva. Desta maneira, os profissionais da saúde bucal planejaram as agendas de sua equipe, considerando o perfil populacional e social de cada área. É importante salientar que, nas diretrizes, os valores percentuais estipulados para cada grupo não eram engessados, e poderiam ser modificados, desde que justificável. Desde então até os dias atuais, este modelo de agenda se mantém em Araçatuba e tem gerado bons resultados nos indicadores assistenciais. Para exposição e análise das variáveis quantitativas, os dados da produção das ESB foram extraídos do e-SUS, e serão comparados dois períodos distintos: 1º quadrimestre de 2019 (ano com agendamento baseado em consultas de 30 minutos) e 1º quadrimestre de 2023 (ano com atendimentos de 60 minutos).
Com relação ao número de primeiras consultas, em 2019 obteve-se o valor de 3844, e 4234 em 2023. Quanto a tratamentos concluídos, em 2019 e 2023 foram verificados os valores de 3189 e 3289, respectivamente. Por sua vez, considerando agora o número de retornos (necessidade de mais uma consulta após a primeira consulta), em 2019 e 2023 foram observados os valores de 6508 e 2611, respectivamente. Sobre o número de necessidades de agendar mais um retorno após qualquer outro retorno, em 2019 o valor foi de 5243 e em 2023, 1684. Por sua vez, os números de retornos foram expressivamente menores em 2023, o que demonstra que o usuário precisou retornar menos vezes à unidade. Isso complementa outras variáveis analisadas neste trabalho: o número de atendimentos de primeira consulta com tratamento concluído na mesma sessão subiu de 1458 em 2019, para 2324 em 2023; o número de consultas de manutenção (lançamento referente a uma consulta odontológica realizada nos primeiros 12 meses após o usuário ter tratamento concluído) diminuiu de 6135 em 2019, para 3829 em 2023. Outro dado encontrado foi com relação aos elogios e reclamações dos usuários: tendo como período observado de novembro de 2019 a janeiro de 2024, comparando-se antes e após agosto de 2021 (implementação da reorganização da agenda), constatou-se aumento de 267% de elogios e 75% de reclamações, sendo que, destas últimas, nenhuma era sobre tempo de consulta.
A APS foi um dos principais pontos no enfrentamento da pandemia de Covid-19, e com ela vieram algumas adaptações no processo de trabalho dos profissionais, especialmente na saúde bucal. O tempo de consulta odontológica estendido é um resquício da pandemia, em que as diretrizes e recomendações preconizavam o isolamento social e idas aos serviços de saúde desde que extremamente necessárias. No contexto pós pandêmico, a consulta de 60 minutos propicia melhora do vínculo profissional-paciente, otimiza uso de materiais e EPI, tempo de trabalho de qualidade para os profissionais e usuários, que precisarão retornar menos vezes às unidades para terem seu tratamento concluído. Ademais, conforme verificado na diminuição das consultas de manutenção, pode-se presumir que a qualidade técnica do serviço também aumenta. A experiência de Araçatuba e os dados aqui apresentados, concluem que uma agenda nesses moldes pode sim ser analisada entre os gestores dos municípios, e não ser desconsiderada sem discussão por conta do pensamento de que “o aumento no tempo de consulta restringe o acesso”. É possível se manter e até aumentar os indicadores exercendo uma odontologia de qualidade, com mais vínculo, e mais APS fortalecida.
Odontologia, Atendimento, Agenda
Lea Lofego Garcia, Naiara da Silva Campos Albino, Gabriela Peres Teruel, Thamiris Naiasha Minari Ramos, Luis Felipe Pupim dos Santos, Carmem da Silva Guariente