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O programa Mãos Juntas foi idealizado a partir de uma proposta à Secretaria de Saúde realizada pelo Comitê de Políticas Públicas Integradas de Taboão da Serra na emergência de acolhimento em saúde mental às escolas diante dos acontecimentos de violência vividos durante o mês de março de 2023. Considerando que a violência é um tema complexo e multifatorial a Secretaria de Saúde organizou todo o programa incluindo a participação ativa das secretarias de Educação e de Assistência Social para que esse acolhimento realizado não fosse somente mais um caminho alternativo de encaminhamentos às unidades de saúde dos territórios, mas que fosse um disparador na criação de novos meios de cuidados em saúde mental in loco, com estratégias mais assertivas ao ambiente escolar, multiprofissional e principalmente intersecretarial. Todas as ações foram conduzidas pelo conjunto das equipes de saúde mental, técnicos da educação e da assistência social locais de cada território acolhido. Assim, esta equipe assumiu o papel disparador desta problemática, orientando e conscientizando de que os cuidados em saúde mental são de responsabilidade de todos e zelar por eles faz parte do cotidiano de qualquer espaço da sociedade, não somente do especialista em saúde mental. O programa foi criado pensando no fortalecimento dos princípios de territorialização, interprofissionalidade, matriciamento e integralidade, princípios que garantem ao SUS todo o potencial diferencial dos cuidados em saúde.
O objetivo principal do programa foi acolher, refletir e orientar de forma territorial e multiprofissional as angústias vividas dentro das escolas com relação à violência, e propor coletivamente, a partir das demandas locais, novos fazeres com relação ao tema, incluindo temas transversais como a promoção de saúde mental das equipes escolares, relações com as famílias, alunos e comunidade, corresponsabilizando esses cuidados para além de encaminhamentos à rede de saúde como forma única de atenção.
Inicialmente o Núcleo de Prevenção à Violência e Cultura de Paz de Taboão da Serra confeccionou um material de apoio que foi disponibilizado às escolas para oferecer informações adequadas sobre o tema. Para que todo o território de Taboão da Serra fosse abrangido, ele foi dividido em 8 regiões a partir do território de cada Centro de Referência em Assistência Social (CRAS). Cada território foi nomeado de “Elo”. Cada Elo foi composto do CRAS de referência, das escolas municipais e dos equipamentos de saúde existentes naquele território e seus respectivos técnicos, que se dividiram para acolher as demandas das escolas de forma que pudesse aproximar os equipamentos, técnicos e educadores. O programa foi realizado pelas equipes técnicas intersecretariais nas escolas segundo planejamento prévio, durante os horários de HTPC dos professores e o convite foi realizado a toda equipe escolar, professores, direção, limpeza, nutrição e segurança. A estratégia utilizada foi a roda de conversa com a circulação livre da palavra com acolhimento das angústias, reflexão sobre a prática cotidiana e possibilidades de novos fazeres para o desenvolvimento de espaços de cultura de paz e promoção em saúde mental dentro do próprio ambiente escolar. Todas as demandas foram coletadas para avaliação e relatadas ao Comitê posteriormente. A avaliação e monitoramento do programa foi realizado pela Coordenação de Saúde Mental e pela equipe da Secretaria de Educação destinada para o programa.
Foram realizados 19 encontros, distribuídos nas 72 escolas municipais existentes em Taboão da Serra, envolvendo 8 equipamentos de Assistência Social e 18 equipamentos de Saúde. Ao total, 1221 pessoas foram alcançadas entre professores, direção escolar, equipe de apoio escolar, técnicos de saúde (enfermagem, ACS, psicólogos, fonoaudiólogos) e técnicos de assistência social (assistentes sociais, orientadores sociais e estagiários). Foram levantadas demandas específicas relacionadas às intervenções nos casos de violência que frequentemente ocorrem, bem como demandas mais amplas sobre os cuidados em saúde mental com os funcionários das escolas e com as famílias. Foram refletidas e propostas ações em saúde mental, que poderiam ser realizadas dentro do ambiente escolar pela própria equipe ou por especialistas da educação ou da saúde. Os técnicos de saúde foram responsáveis pelo fechamento das demandas e propostas para que a ação permitisse não só a abertura das queixas, mas também de sugestões positivas e cabíveis à realidade de cada Elo. Com as demandas surgidas, a equipe de monitoramento e avaliação percebeu que esta foi somente a primeira fase deste programa e foi sugerida sequência que garantisse que o programa se tornasse permanente e gerasse novos multiplicadores das ações dentro dos Elos e dentro de cada ambiente escolar.
Diante das demandas territoriais recebidas das unidades escolares percebe-se a urgência de novos fazeres na prática cotidiana que contemplem as adversidades vivenciadas no mundo contemporâneo. A violência não é um tema novo ou passageiro e, portanto, as ações realizadas não devem se ater aos encaminhamentos realizados após o adoecimento das pessoas às unidades de saúde. A prevenção ao tema deve ser permanente e atravessar o cotidiano das unidades de saúde para além de seus muros, acolhendo outros técnicos, outras equipes e outros espaços. O trabalho territorial nos mostra o quanto precisamos sair do trabalho clínico exclusivo, conhecer o território onde se atua, suas demandas e suas relações com outros atores do mesmo território, garantindo principalmente cuidados de forma mais humanizada e mais integral, contribuindo com a realização da prática do matriciamento com os olhos (diferentes visões), pés (percorrer o território) e as mãos juntas (trabalho conjunto).
intersetorial; saúde mental; promoção à saúde
Vanini Mandaj, Rafael Montoni, José Alberto Tarifa Nogueira