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Gritos, choro, alguns de cortar o coração! Outros gritos, estes para tentar “abafar” os anteriores. De um lado, crianças apavoradas com a possibilidade da agulhada – mesmo quando as vezes era só a consulta de rotina, de outro os pais/responsáveis que vieram trazê-los. Em outro momento, correria, reclamações, caras amarradas, com expressões entediadas, irritadas, ouve-se ameaças, a seguir a paz volta a reinar com o oferecimento da “tela”. Neste cenário? Crianças e pais/responsáveis nos corredores a espera da consulta/exame. Em outros dias, mais caras amarradas, bufando, andando de lá pra cá; xingamentos e reclamações. Dessa vez, usuários do serviço pela demora dos atendimentos. Um outro cenário comum na unidade é a cobrança sobre a saúde mental para “dar conta” da fila de atendimento que não “para de crescer”. Juntando a política nacional do SUS de prevenção e promoção a saúde na atenção básica que diz que as ações “não são voltadas para determinada doença, mas destinadas a aumentar a saúde e o bem-estar gerais” (BUSS, 2003) e minhas inquietações, comecei a pensar: como fazer para que as crianças gostem de vir a unidade, de cuidar da saúde – ou pelo menos, não tenham tanto medo de vir? Como fazer com que esses cuidadores não se estressem tanto ao trazê-los? Como fazer da sala de espera um espaço menos tedioso e cansativo para os usuários? Foi buscando a resposta para esses questionamentos que o projeto interventivo surgiu.
• Estimular o sentimento de pertencimento e solidariedade nos usuários do serviço. • Proporcionar espaço de bem-estar e diversão para crianças e adolescentes durante sua permanência na unidade. • Ofertar aos adultos tanto um espaço para expressão quanto de distração, além de acesso à informação, durante a espera dos atendimentos. • Favorecer que crianças e pais/responsáveis possam obter momentos de interação e diversão durante sua permanência na unidade. • Promover maior acesso à saúde mental em consonância com a proposta do SUS na Atenção Básica.
A implantação do projeto aconteceu da seguinte maneira, no corredor próximo às salas de atendimento da psicologia e da pediatria foram colocados os Cantinhos Lúdicos – cantinhos no plural, pois ele foi dividido. Em um dos corredores foi colocado uma “árvore” confeccionada em cartolina com pregadores afixados em sua copa contendo papéis em branco (folha A4 partida em 4 partes), esta estava “plantada” em um balde de areia. Abaixo um carrinho – desses de coleta usado pela enfermagem, contendo potes com giz de cera, lápis de cor, e alguns brinquedos espalhados, além de desenhos para as crianças colorirem. Foi colocado uma cartolina afixada acima da “árvore” com a frase “Sou a Árvore das expressões, quero muito saber como você está, me conta por meio de um desenho”. Um recado foi afixado informando do uso dos materiais e convidando àqueles que quisessem e pudessem, a doar mais materiais e brinquedos. No corredor ao lado ficou a “Árvore do conhecimento”. Esta, produzida nos mesmos moldes da primeira, mas visava a apresentação de conteúdos como proposta de psicoeducação para a população, abordando temas como violência, classificação indicativa, ou como informativo, sobre atividades, cursos, acesso a outros equipamentos de saúde, etc. Abaixo foi colocado uma mesa contendo livros e revistas. Nesta também foi colocado um recado, desta vez convidando à doação de livros e revistas.
Logo nas primeiras semanas os resultados puderam ser observados. Aos poucos tanto adultos quanto crianças e adolescentes passaram a fazer desenhos livres – muitos respondendo a frase sobre como estavam, a maioria com expressões, outros chegavam a escrever – e a colorir os já prontos. Crianças se juntavam para brincar nos corredores, por vezes os pais participavam das brincadeiras e ou liam histórias dos livros infantis. Os adultos passaram a pegar livros ou folhear revistas enquanto aguardavam suas consultas. Muitas doações foram chegando – tanto por parte dos usuários, quanto profissionais da unidade – livros, revistas, brinquedos, lápis e giz de cera. Tantos, que uma terceira mesa foi montada na recepção para utilização. Os pediatras comentaram que as crianças passaram a entrar com mais tranquilidade nos atendimentos, e que os pais podiam entrar sozinhos em outros pois estavam tranquilos que o filho estava concentrado brincando. Por vezes se via uma criança já entrar correndo e vir direto para a mesa para desenhar. Infelizmente a experiência durou somente 3 meses. Por uma reclamação do Conselho gestor de saúde, as mesas com os materiais não poderiam ficar nos corredores “questão de fluxo, higiene” e ao retornar de férias, o Cantinho Lúdico” não existia mais. Nesses 3 meses consegui contabilizar 329 desenhos livres – dos que foram devolvidos à árvore, 25 desenhos coloridos, muitos destes as crianças levavam consigo ao terminar.
Sabe-se que a promoção de saúde, como política pública, deve ser estimulada e aprimorada no desenvolvimento do trabalho no dia a dia, desta forma, a unidade de saúde juntamente com seus servidores estão empenhados em realizar novas ações.
promoção a saúde; saúde mental; sala de espera
VALKÍRIA TEIXEIRA PEREIRA BRITO, José Alberto Tarifa Nogueira