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A adolescência fase integrante do ciclo da vida, caracteriza-se pela formação da identidade adulta. Esta por sua vez é influenciada por diferentes fatores como os biológicos, sociais, econômicos e de maneira mais recente pelas vivências digitais. Nesta fase as experiências em grupo e a identificação por pares assume importante papel na formação identitária. O grupo intitulado “Meu Corpo Minha Morada” faz parte da linha de cuidado desenvolvida para o adolescente no Centro de Atenção à Saúde do Adolescente (C.A.S.A) em Taboão da Serra. A dinâmica deste grupo é permeada pela difusão do conhecimento necessário para o desenvolvimento adolescente saudável respeitando a linguagem e características próprias dos envolvidos. É trazido a discussão a necessidade da construção de sua autonomia e responsabilidade frente ao seu autocuidado. Por ser a identificação grupal algo tão importante para o indivíduo neste momento da vida, a partilha favorece o enfrentamento em face das diversidades experenciadas na construção de suas identidades.
Sob a ótica biologista as transformações puberais na adolescência tem por objetivo constituir indivíduos saudáveis, aptos para a perpetuação da espécie. Entretanto sabemos que cada ser único além de seu aspecto biológico, é constituído de diferentes peculiaridades de suas vertentes individuais e coletivas. Desta forma a proposta do grupo “Meu corpo, minha morada” tem por objetivo: Empoderar o adolescente quanto ao enfrentamento de situações de vulnerabilidade e violência física e emocional. Promover o conhecimento do adolescente quanto a normalidade de suas mudanças corporais, promovendo autoconhecimento e potencialização na autoestima. Favorecer um ambiente seguro para expressão dos adolescentes sem julgamentos e Promover a saúde de forma integral.
O grupo conduzido por hebiatras, ocorre em diferentes oportunidades durante o mês, com duração de 1 hora e 30 minutos. Todos os adolescentes matriculados em nosso equipamento são convidados a iniciar seu acompanhamento clínico participando deste momento. A estrutura do encontro envolve 4 fases descritas a seguir: Fase 1-Combinados do grupo quanto ao respeito entre participantes de forma mútua e sigilo. Apresentações e interação entre os adolescentes. Utilização de recurso multimídia e “Dinâmica da Rede”. Fase 2: Manutenção da saúde, puberdade, tecnologias. Utilização de recurso multimídia, prática de alongamento e ou respiração e abertura para o diálogo. Fase 3: Autonomia, vontade e consentimento corporal. Utilização de curta metragem e abertura para o diálogo e discernimento. Fase 4: A violência em suas mais diferentes formas. Convite a escrever sobre experiências vividas ou observadas que envolvam violência. Após o término do encontro os participantes são agendados para consultas médicas individuais com as hebiatras. Ao participar do “Meu Corpo Minha Morada” todos são levados a reflexão e compartilhamento de pontos fundamentais para o desenvolvimento de sua identidade corporal e emocional.
O grupo beneficiou aproximadamente 200 adolescentes. Após a implementação da linha de cuidado, observamos redução do absenteísmo e maior adesão nas consultas e seus retornos. Resultados referentes ao processo de construção identitária, são dados qualitativos que serão trazidos por meio de discursos presentes no grupo. “não sei com quem posso falar” (…) Hoje apesar da facilidade dos meios de comunicação, adolescentes referem ausência de espaços de fala e escuta. A vivência do grupo traz esse espaço de reflexão e diálogo, onde há rica partilha de narrativas. Expressar-se sem julgamentos junto a seus pares, possibilita aprender inclusive com vivências duras e violentas que ao serem acolhidas pelo grupo tornam o grupo extremamente terapêutico. “sinto que minha virgindade foi roubada” (…)Esclarecer que o consentimento sobre o corpo é um direito do indivíduo adolescente e que necessita ser respeitado, traz um novo olhar para as decisões tomadas a respeito da individualidade. Caracterizando de forma clara conceitos de violência por vezes ignorados. “Não tinha esse corpo todo”(…) Conhecimentos sobre as modificações pubertárias reduz a ansiedade das mudanças. Assim como, o entendimento de que estas transformações são universais e não um fenômeno exclusivo, facilita a compreensão de pertencer a um coletivo. Sendo estes passos importantes para a aceitação da autoimagem.
A vulnerabilidade das relações humanas e a carência de vivências humanitárias são realidades atuais que cada vez mais transportam os adolescentes para o isolamento. A saúde do adolescente é um estado que engloba diferentes aspectos do indivíduo constituída por ações de responsabilidade de todos. Abordar o cuidado em saúde por meio da vivência entre pares é respeitar e conhecer o ciclo de vida do adolescente. Poder contribuir para que nossos adolescentes construam suas identidades de forma saudável é garantir o investimento em comunidades humanas sustentáveis que repercutem de maneira positiva para o bem comum.
adolescente; puberdade; grupo terapêutico
Carla A Borges, Aline S Markoski dos Santos, Carolina Matias Belonio, Rosana Angelo Ribeiro, José Alberto Tarifa Nogueira